Maior autonomia para os estados pode ajudar no combate ao crime

Alceu Nader | Textos | Quinta, 15 de Fevereiro de 2007

O presidente da República e os governadores do Sudeste deveriam escutar com atenção o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e adotar sua proposta de mudança na legislação penal, dando aos estados autonomia para tratar seus criminosos. O argumento de Cabral é claro: a realidade criminal do Rio de Janeiro e de São Paulo não é a mesma de Rondônia e do Acre.

Os deputados votaram vários projetos ontem em Brasília. Finalmente foi aprovada a punição para o uso de celulares pelos bandidos condenados, e estipuladas as penas para diretores de presídios e agentes prisionais comprovadamente negligentes ou corruptos. Por incrível que pareça, todos os crimes comandados detrás das grades nos últimos anos passaram incólumes. Os chefes do crime organizado que comandaram ações que chocaram o país nos últimos anos - PCC, Fernandinho Beira-Mar etc. - trabalharam livremente, sen qualquer mancha na ficha corrida. Somente a partir da data da publicação da lei, o uso de qualquer meio de comunicação eletrônico pelos condenados constitui-se “falta grave”, com perda de benefícios no regime de progressividade. Para que se tenha idéia do tempo que a Câmara levou para se sensibilizar com o problema, a medida entra em vigor quase 17 anos depois da telefonia móvel ter sido implantada no país.

O primeiro celular do país, por ironia, funcionou no Rio de Janeiro.

De volta, a Lei Ricupero às avessas III
EUA desprezam noticiário e convidam Brasil para projeto estratégico na América Latina

Alceu Nader | Textos | Quinta, 8 de Fevereiro de 2007

Jornais que apostaram na criação de crise, a partir de entrevista publicada na revista Veja, ficam sem ter o quê dizer sobre iniciativa norte-americana

Ontem, editorial do O Estado de S.Paulo condenava:

As aventuras da nova diplomacia brasileira, vagamente antiamericana, antiglobalização e comprometida com uma embolorada agenda do passado, foram denunciadas com grande elegância pelo embaixador Roberto Abdenur numa entrevista publicada pela revista Veja”.

Hoje, o jornal traz como manchete principal que: “EUA querem novo papel do Brasil na AL”. Na verdade, o “novo papel” é a oferta ao Brasil de coordenar, junto com os EUA, um projeto continental de expansão da produção de etanol, a partir da cana-de-açúcar. Dando certo, os países pobres da América Latina que não têm reservas de gás ou petróleo (leia-se a Bolívia, de Evo Morales, e a Venezuela, de Hugo Chávez) teriam nova fonte para combater a pobreza. De quebra, tornaria dispensável a ajuda que Chávez vem oferecendo aos países latino-americanos.

A curva para a direção contrária ao noticiário dos últimos dias deixa, de inicio, várias dúvidas:

Como pode ser que o país mais poderoso do mundo não tenha lido na isenta imprensa brasileira que, na verdade, o governo Lula alimenta hostilidades contra os EUA?

Como pode, por cima de tudo, querer como sócio esse insidioso governo para um projeto estratégico de produção de etanol de proporção continental?

Outra integrante do primeiro escalão do governo dos EUA, a secretária de Estado Condoleezza Rice, também não deve estar a par das denúncias da nossa imprensa. Segundo informam todos os jornais de hoje, ela desembarcará em breve no Brasil para acertar detalhes do encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush.

Outra dúvida: Bush quer se encontrar com Lula para cobrar pessoalmente as razões do nefasto trabalho do Itamaraty?

Para não dar por nulo tudo que publicou nos três últimos dias, na mesma página em que traz o desmentido ao seu noticiário, o Estado usa o senador Jefferson Peres (PDT-AM), mostrando-o indignado com a “doutrinação ideológica” que corre solta no Itamaraty. A reportagem também informa que o ex-embaixador Roberto Abdenur foi convidado a comparecer no Senado na próxima terça-feira, para explicar suas denúncias na revista Veja. O convite atende ao requerimento apresentado pelo ilibado, quase beato, senador Eduardo Azeredo (PDSD-MG).

Outra pergunta se apresenta: O requerimento de Azeredo seria retribuição à solidariedade da maioria dos grandes jornais e revistas durante a apuração das origens do valerioduto?

A Folha de S.Paulo, que não embarcou na mesma canoa furada do Estado e do Globo (este, por obra da colunista Miriam Leitão), acrescenta que o requerimento foi aprovado pela Comissão de Relações Exteriores, chefiada por outro senador acima de qualquer suspeita, o ilibado Heráclito Pontes (PFL-PI).

Deve-se à Folha, mais precisamente ao repórter e comentarista Clóvis Rossi, a aproximação dos fatos noticiados com a realidade. Ontem, Rossi apontou as contradições do discurso de Abdenur na entrevista. Hoje, ele entrevista o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e revela quais são os perigosos autores da bibliografia que o secretário-geral do Itamaraty, vice-chanceler Samuel Pinheiro Guimarães, tentou ao Itamaraty:

Amorim cita alguns dos livros recomendados por seu secretário-geral como prova de que não há um viés ideológico no método.
Um dos livros é do embaixador Álvaro Lins e trata do Barão do Rio Branco, o patrono da diplomacia brasileira. Nada tem, portanto, de esquerdista ou de texto de um simpatizante do atual governo (Álvaro Lins morreu em 1975).
Outro dos livros recomendados é “Chutando a Escada”, do acadêmico chinês Ha-Joon Chang, hoje na Cambridge University, do Reino Unido, que não é exatamente um templo esquerdista. A “escada” do título são ações protecionistas adotadas pelos países hoje ricos, na escalada para a riqueza, mas que, agora, “chutam” para impedir que os países em desenvolvimento as utilizem.
Amorim acha que o ruído despertado pelas recomendações de Guimarães se deve a um livro de Luiz Alberto Moniz Bandeira, professor emérito da Universidade de Brasília, o único dos recomendados que teria um viés esquerdista.
(…)
O Itamaraty adota indicações de leitura em todas as etapas do curso de preparação para a carreira diplomática, desde o Instituto Rio Branco até o curso de Altos Estudos, uma espécie de segundo vestibular, indispensável para ascender na hierarquia. Por isso, recomendações fora da estrutura dos cursos são contraproducentes.

Na reportagem, o ministro ainda apresenta a nomeação de vários embaixadores ligados ao governo de FHC para desmentir a denúncia de privilégios aos que têm a mesma afinidade ideológica.
O Estado também traz entrevista com Amorim, mas não traz palavra sobre os esclarecimentos publicados pela Folha:

Ao falar com a imprensa, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, saiu em defesa da maneira como o atual governo conduz sua política externa. “Vocês falam muito nisso”, disse aos jornalistas.
“Não sei se estão impressionados com entrevistas recentes, mas o diálogo Brasil-Estados Unidos é o melhor possível. O presidente Lula fala com o presidente Bush com relativa freqüência. Meu diálogo com a Condoleezza Rice e os diálogos em variados níveis não podiam ser melhores”, reagiu.

E amanhã, o que trarão os jornais que apostaram na geração da crise no Itamaraty a partir da entrevista na Veja? Vão se desculpar pela má informação aos seus leitores ou dirão que, infelizmente, o governo dos EUA não põe fé na imprensa brasileira?

Jobim desconhecido
Ouça o ensaio que deu origem a “Águas de Março”

Alceu Nader | Textos | Quarta, 7 de Fevereiro de 2007

Leitor dá caminho das pedras para audição dos diálogos musicais entre Elis Regina e Tom Jobim

Dia 22 de janeiro passado, postei minha homenagem a Tom Jobim, que estaria completando 80 anos dia 25 de janeiro passado. Minha colaboração foi compartilhar um ensaio quase desconhecido no Brasil de “Águas de Março”, na gravação do Elis Regina e Tom. Hoje, é um dos clássico. Dividi apenas as palavras dos diálogos dos dois construindo a canção, porque meu blog não oferece reprodução de som. Não oferecia.

A reprodução do mp3 do link abaixo tornou-se possível graças à ajuda do leitor Eduardo Esteves, que localizei acompanhando o rastro de seu e-mail para agradecer “pessoalmente” pela ajuda. Veio dele a sugestão em armazenar o arquivo em um endereço global de compartilhamento de arquivos, o 4 Free File Sharing. E deu certo!

Ou ouvidos mais atentos vão perceber que há algo estranho no som, alguma coisa fora de lugar, quando, de repente, começa a conversa entre Elis e Tom. Para mim, foi um impacto inesquecível.

A audição não requer prática, nem tampouco habilidade. Basta clicar no “Ouça” e esperar, na nova página que será aberta, a seta do play que vai aparecer no quadro branco do canto esquerdo do monitor. É só clicar nela.

Recomendo esperar pelo download na íntegra, para evitar cortes e soluços na reprodução.

Vale a pena esperar.

Ouça

OBS: o link vale apenas por um mês.

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