Colunas exploram as vaias no Pan, e voam para bem longe da explicação para o episódio

15 de Julho de 2007 @ 10:24 por Alceu Nader

A naturalidade com que a grande mídia viu que o mesmo Maracanã que vaia Lula aplaude Cesar Maia, evoluiu: hoje, sem se perguntar sobre o que realmente teria provocado este fenômeno, duas colunas sustentam transcedentes conclusões, mas não respondem à questão: por que o prefeito foi aplaudido e o presidente foi vaiado?

Eliane Cantanhêde, na Folha de S.Paulo, e Dora Kramer, no O Estado de S.Paulo ignoram, com perdão do trocadilho involuntário, olimpicamente o mistério que qualquer jornalista medianamente ciente de suas funções se perguntaria: por que aplauso para um prefeito que a população do Rio de Janeiro concedeu 32% de “ótimo” (DataFolha, março/07) e vaias para um presidente que recebeu mais de 50% das opiniões na mesma avaliação?

Sobre a ignorância (ou preguiça, ou estultice) da pergunta que ambas não quiseram fazer, o leitor encontra em Cantanhêde que “a vaia é histórica”, e destila o preconceito venal de que “O Pan deveria ter sido no Nordeste…”. No final, bate na surrada tecla de que o atual governo separa ricos e pobres:”aplausos dos pobres do Bolsa Família e do Nordeste, vaias da classe média e dos que podem pagar caro pelo Pan no Sul-Sudeste. Não é bom prenúncio”. Nada mais velho; o argumento não pegou nas eleições, e perde cada vez mais liga a cada indicador econômico que mostra ganhos salariais em todas as categorias, recordes de emprego com carteira assinada, no financiamento à casa própria, na concessão de crédito consignado e outros números turbinados muito mais pelo desempenho dos estados mais ricos do que os mais pobres.

Kramer vai um pouco mais longe em sua análise psico-política-esportiva-partidária sobre o episódio, dizendo que Lula recusou-se a abrir os jogos porque lhe faltou “espírito esportivo”, “ausência de senso de realidade de seus áulicos” e que o presidente é “intolerante com a divergência” e “sem desenvoltura para enfrentar algo perfeitamente natural na vida de um homem público”.

Menos, colunistas. Menos.

Para tentar dar um pouco de nobreza ao episódio, que não terá fitas de câmara de vigilância, nem gravações clandestinas, nem depoimentos reproduzidos nos meios da grande imprensa - porque não lhes interessa saber o que realmente aconteceu -, reproduzo o texto abaixo, enviado por um leitor e amigo do blog.

Além da Política

por Petia Botovchenko

As vaias a Lula na abertura dos Jogos Panamericanos foram inconvenientes, por razões que vão além da política. O significado mais profundo deste evento, aquilo que o qualifica como tradição central da civilização ocidental, merecedora de ser ressuscitada no século XX, é o seu caráter de festa não-político-partidária. Os gregos, em mais uma lição de sabedoria, interrompiam todas as guerras durante os jogos. Jogos só podem ser considerados olímpicos se juntarem no mesmo espaço, sem conflitos ou ressentimentos, aqueles normalmente separados por discordâncias e conflitos de interesse. Se permitirem o congraçamento, temporário que seja, entre adversários. A transformação de Jogos Olímpicos em arena política tem consequências sociais tão perversas e destrutivas quanto a transformação das torcidas de futebol em gangues dedicadas ao vandalismo.

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Vídeo do YouTube do ensaio da festa de abertura do Pan, com vaia para Lula

Lula na ampla galeria dos mártires

14 de Julho de 2007 @ 11:34 por Alceu Nader

por Walter Falceta Jr.

A grande vaia, a antológica, foi aquela derramada sobre Sérgio Ricardo, no Festival de MPB da Record, em 1967. Quem esteve lá, confirma: o público não planejava o linchamento sonoro do candidato. De repente, subiu uma voz agressiva, e logo outra, e mais outra. Em segundos, virou pândega, uma intervenção instintiva no rito da disputa.

Decidido, Sérgio Ricardo pediu calma ao público, e tentou entoar sua Beto Bom de Bola. O pedido de trégua pareceu atiçar ainda mais a ferocidade da turba. Em dado momento, a banda perdeu a concentração e embananou-se toda. Sérgio Ricardo quis parecer resiliente. Parou e proclamou:

- Quando terminar o festival, vou mudar o nome da música para Beto Bom de Vaia.

O resultado não foi o esperado. A campanha agressiva recrudesceu. Até que o cantor perdeu a paciência. Foi até a orelha do povo e gritou:

- Vocês ganharam. Isso é o Brasil subdesenvolvido. Vocês são uns animais!

Em seguida, para delírio dos manifestantes, quebrou o violão sobre um banquinho e deixou o palco, espumando de raiva. Nesse momento, a platéia ria e apupava, numa espécie de mega-orgasmo, festejando a vitória.

A vaia é altamente contagiosa e arrebatadora. Dá prazer e constrói um estranho protagonismo iconoclasta, protegido e anônimo. Constitui-se numa espécie de assédio moral consentido, cuja manifestação é garantida por um difuso conceito de liberdade de expressão.

Se é sempre provocação maliciosa, gera o destempero e concede ao agressor uma justificativa para agir. Carlinhos Brown provou desse veneno, no Rock in Rio de 2001, quando foi espezinhado por uma platéia “estrangeira”. Reagiu, e assim ofereceu motivo para que intensificassem o bombardeio de garrafas e copinhos de plástico.

O francês Gustave Le Bon descreveu com detalhes a gênese desses estados alterados de consciência. Em situações diversas, as pessoas diluídas na multidão cedem ao poder da sugestão. Em transe, perdem as inibições e afastam-se de seus padrões morais, mergulhando no mar da irracionalidade. Escreveu Le Bon:

- O sentimento de responsabilidade que sempre controla os indivíduos desaparece completamente. Todo sentimento e ato são contagiosos. O homem desce diversos degraus na escada da civilização. Isoladamente, ele pode ser um indivíduo; na massa, ele é um bárbaro, isto é, uma criatura agindo por instinto.

Se a multidão não é movida pela razão, o agredido nem sempre é um desafeto. Na maior parte das vezes, é um quase desconhecido, ao qual se imputa alguma culpa, algum pecado. O drama tem início com um impropério disparado no ponto G da consciência coletiva. Segue-se o espanto e, logo depois, uma efervescência hormonal. Daí, a graça quase lasciva de aderir à farra, marcada pelo atrito, pela invasão, por uma sinistra dialética de profanação.

No grande grupo, o indivíduo tem alguma certeza de que está incógnito, de forma que se sente liberado para exasperar-se, para sobrepor-se aos códigos de conduta. A tropa de choque da PM sabe disso. Por isso, espalha fumaças dolorosas. O gás lacrimogêneo, ao turvar a visão, dá ao manifestante a impressão de encontrar-se novamente sozinho. É o que o desmobiliza.

Não se fala aqui de nenhuma categoria especial de multidão, nem da hobbesiana nem daquela de Antonio Negri. Tratamos aqui da multidão aleatória, dos que não se conhecem, dos que não tramaram previamente o ataque à vítima. Talvez seja mais aquela que aparece nebulosa, quase como cenário, em “O Homem na Multidão”, de Edgar Allan Poe. Trata-se desse bolo humano que pode gestar revoluções ou encobrir o crime e a perversão.

A multidão da vaia nem sempre faz o que deseja e, freqüentemente, goza na contradição. Em 2006, o craque argentino Carlitos Tevez, ídolo da torcida do Corinthians, viu-se na arena dos vaiados, num melancólico empate com o Fortaleza. Seguindo o paradigma da construção de motivos, reagiu e provou da fúria dos que o idolatravam. À porta do estádio, parte da torcida investiu contra seu carro, num episódio que selou o divórcio entre o jogador e o clube paulistano.

Em 2004, João Gilberto foi predado por muitos de seus próprios admiradores, durante sua polêmica apresentação numa casa de shows de São Paulo. Havia gente pronta para pedir um autógrafo, mas que não quis perder a oportunidade única e mágica de azucrinar um semideus. Poderosa, a massa “vaiante” converte-se em uma entidade multitentacular, capaz de topar a briga contra a divindade.

Outros adorados sofreram com essa estranha traição. Em 2000, gente simpática a Daniela Mercury juntou-se a coro de insatisfação, durante uma performance no carnaval baiano. Há quase trinta anos, outro baianao, Caetano Veloso, coleciona encrencas do gênero, trombando por vezes com seu próprio público.

A vaia, portanto, pode vir de onde menos se espera, quando menos se espera. Pode fustigar como “fogo amigo”. Pode ser orquestrada ou simplesmente o resultado caótico da amplificação de um ressentimento ainda não perfeitamente decodificado.

No entanto, a vaia é parente da vacina. Com o tempo, fornece uma espécie de proteção. Não raro, leva outra multidão - ainda que com atraso - a acudir o vaiado. Em certos casos, tem ainda o poder de criar mártires.

Nesta abertura de Pan, o presidente Lula converteu-se no alvo da vez. Há quem diga que foi a turma de César Maia, articulada como os psolistas para puxar o “uhhhh”. Outros apontam para os rancores da classe média carioca, somente ela capaz de pagar o alto preço dos ingressos para a solenidade. Há quem aponte para esse lado negro da força, essa tendência à maldade presente em cada coração. Aparentemente frágil, olhos marejados, o presidente apresentou-se como personagem moldado perfeitamente à malhação. Vulnerável no semblante, serviu como santo a distintas expiações.

Horas depois, na Internet, multiplicavam-se os textos que lastimavam o comportamento do “povo carioca”. Até simpatizantes do tucano-pefelismo condenavam a conduta. Se a multidão arrotou o deboche, pareceu perfeitamente etílica, de forma que vale o título da canção de Tom Zé: “vaia de bêbado não vale”

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Vaias para Lula, aplausos para César Maia. Tudo muito natural

14 de Julho de 2007 @ 11:31 por Alceu Nader

Quando a honestidade jornalística está na exposição dos detalhes

O noticiário sobre as vaias ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no Maracanã, na abertura dos Jogos Panamericanos, serve, hoje, para mostrar um pouco da honestidade dos jornais, que, no caso, reside na exposição dos detalhes do fato. No caso específico, quem assistiu à abertura dos jogos, pôde constatar: a platéia acompanhou quem coordenava aplausos para o prefeito César Maia e vaias para Lula.

Apenas um jornal, entre os cinco mais influentes do país, reproduz esse detalhe: Folha de S.Paulo. O Globo até trata do assunto, mas para matar qualquer alusão de que a vaia tenha sido encomendada. O Estado de S.Paulo relata que, antes da abertura, em visita aos atletas da Vila Olímpica, a comitiva presidencial escutou até o traicional “olê, olê, olê olá… Lula, Lula!”. Nos demais, a vaia foi a coisa mais normal do mundo.

Aos textos

Correio Braziliense

Manchete na primeira página:

Gigantesca vaia em Lula abre os jogos

“O presidente Lula passou ontem por um dos maiores constrangimentos de seu governo. Foi vaiado seis vezes na abertura dos Jogos Pan-Americanos no Rio. Aborrecido, não cantou em voz alta o Hino Nacional interpretado à capela pela cantora Elza Soares. Ficou o tempo todo de cara fechada e, no final, ainda quebrou o protocolo ao se esquivar de abrir os jogos oficialmente. As 75 mil pessoas que lotaram o Maracanã para assistir à festa foram brindadas com um magnífico espetáculo de fogos, carnaval, música e folclore. (…)

Na reportagem:

Título:
“Beleza e constrangimento”

“(…) o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou um dos maiores constrangimentos de seu governo ao ouvir ontem, no Maracanã, uma seqüência de seis sonoras vaias das 75 mil pessoas que foram assistir à cerimônia de abertura da 15ª edição do Pan. O vexame internacional ocorreu na presença de chefes de Estado e de governo, como os mandatários de Canadá, Panamá, Honduras, Antígua e Barbuda, Aruba e Antilhas Holandesas, além das delegações de atletas de 42 países das Américas.

Folha de S.Paulo

Manchete na primeira página:

“Lula é vaiado 6 vezes na abertura oficial dos jogos”.

Na reportagem:

Título:“Lula vai ao Pan… Pan vaia Lula

Vaiado seis vezes na cerimônia de abertura do Pan-Americano do Rio, ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não fez a declaração habitual de abertura, como exigia o protocolo esportivo. (…)
(…)
O governo federal bancou R$ 1,8 billhão dos R$ 3,7 bilhões gastos na preparação dos Jogos, sendo que R$ 49,8 milhões foram direcionados para festas relativas ao evento esportivo.
A primeira vaia a Lula, vinda de um público que pagou entre R$ 20 e R$ 250 por cada ingresso, surgiu quando a imagem do presidente apareceu nos dois telões do estádio. Sua figura foi rapidamente tirada, e então o público aplaudiu. A organização ainda tentou novamente, com uma imagem um pouco mais distante, e veio a segunda vaia. A terceira e quarta vaias aconteceram durante anúncio de sua presença no Maracanã pelo sistema de som e em nova imagem nos telões. Outras duas vaias ocorreram durante a menção ao nome de Lula nos discursos de abertura dos Jogos, feitos por Nuzman e pelo presidente da Odepa (Organização Desportiva Pan-Americana), Mario Vásquez Raña. Quando Nuzman mencionou o governador do Rio, Sergio Cabral, houve aplausos parciais. Quando citou o posto do prefeito do Rio, Cesar Maia, houve aplausos efusivos.”

Jornal do Brasil

Manchete na primeira página:

“Festa para a tocha, vaias para Lula”

Empolgado, público canta e até vaia o presidente Lula

Na festa de abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio, até canção de ninar teve acompanhamento de palmas. (…)
A farra só era interrompida quando o nome do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, era anunciado. O presidente que discursaria depois do presidente da Organização Desportiva Pan-Americana, Mario Vazquez Raña, desistiu de tomar parte da festa. Segundo Laércio Portela, da secretaria de imprensa do Planalto, houve um desentendimento de cerimoniais.”

O Estado de S.Paulo

Manchete na primeira página:

“Seis vezes vaiado, Lula não abre o Pan”

na reportagem:
Depois de ser vaiado seis vezes durante a cerimônia de abertura dos jogos Pan-Americanos, ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda protagonizou uma confusão que levou os jogos a serem abertos oficialmente pelo presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman - papel que, habitualmente, cabe ao chefe de estado do país.
Incomodado com as vaias, Lula passou a cerimônia com a fisionomia fechada, tendo ao lado, entre outros, seu vice José Alencar, o governador Sérgio Cabral e vários ministros. O constrangimento foi tanto que o presidente se recusou, num primeiro momento, a fazer a declaração de abertura oficial dos jogos. Convencido por assessores a abrir o evento, Lula pediu, então, o microfone, mas foi atropelado pela declaração feita por Nuzman, que não fora avisado de que o presidente havia mudado de idéia. (…)
“Houve um desencontro de informações entre os cerimoniais”, justificou o Planalto para a desistência de Lula, que se mostrou visivelmente constrangido com o episódio. “Foi uma precipitação da assessoria do presidente, que avisou que ele não faria a declaração”, afirmou o prefeito do Rio, César Maia (DEM). ‘Foi uma confusão que criou um constrangimento muito grande’, completou Maia.
(…)
As seis vaias ao presidente foram dadas todas as vezes que seu nome foi citado no microfone do Maracanã ou que sua imagem mostrada no telão. A partir da quarta vaia, no entanto, os convidados que lotavam a tribuna de honra decidiram puxar palmas para o presidente, no que foram seguidos por muitos torcedores.

“A mim me pareceu coisa orquestrada. Era só observar de onde vinha e dava para perceber que era uma coisa organizada”, declarou o ministro dos Esportes, Orlando Silva. Ao deixar o estádio, Lula evitou a imprensa e se recusou a responder se estava chateado com os protestos.

Para consolo de Lula, de manhã ocorreu o contrário: ele foi recebido, na Vila Olímpica, com gritos de “olê, olê, olê olá… Lula, Lula!”, gingle de suas campanhas eleitorais. Trajando o agasalho oficial do Pan, ao lado de Marisa Letícia, ele visitou as instalações da Vila, brincou na sala de ginástica, tirou fotos, deu autógrafos. Muito assediado, desistiu de almoçar com os atletas e rumoupara o Hotel Sofitel, em Copacabana - não sem antes posar para fotos com os ginastas Daniela e Diogo Hipólito e Daiane dos Santos.”

O Globo

Manchete na primeira página:

“Emoção, carnaval e vaias na festa do Pan”

Texto na primeira página:
Em cerimônia marcada pela emoção e beleza, cujo ponto alto foi o Hino Nacional cantado por Elza Soares acompanhada dos 90 mil presentes, os Jogos Pan-Americanos do Rio foram abertos ontem com um improviso: após ser vaiado cinco vezes pelo público, numa das maiores vaias da história do Maracanã, o presidente Lula deixou de fazer a leitura oficial da abertura dos Jogos, tradicionalmente a cargo do presidente do país-sede. Sua alta popularidade no país não resistiu à máxima do escritor Nelson Rodrigues: “O Maracanã vaia até minuto de silêncio”, ele dizia. Marta Suplicy e as delegações de EUA e Argentina também foram vaiadas. Com uma organização impecável, o estádio não tinha flanelinhas, ambulantes ou estacionamento ilegal. E tudo terminou em samba, na voz de Daniela Mercury cantando “Aquarela do Brasil”.

Na reportagem:

Título:
“Maracanã não perdoa e vaia Lula”

(…) o público presente ontem ao estádio para a cerimônia de abertura do Pan recebeu com vaias o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula foi vaiado quatro vezes durante a festa e, para evitar um constrangimento maior, o cerimonial foi alterado: o presidente, que deveria anunciar a abertura oficial da competição, deixou a tarefa para o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman. As vaias também atingiram Marta Suplicy, quando a imagem da ministra do Turismo apareceu nos telões do estádio.

(…)
No cronograma da festa entregue aos jornalistas, Lula seria o último a se pronunciar, após os discursos de Nuzman e do presidente da Organização Desportiva Pan-Americana (Odepa), Mario Vázquez Raña.
O presidente da República falaria a tradicional frase: “Declaro abertos os Jogos”. O protocolo, no entanto, foi alterado devido às vaias. A primeira aconteceu quando sua imagem apareceu nos telões do estádio, antes mesmo do início da cerimônia. A segunda quando seu nome foi anunciado pela apresentadora; a terceira, ao ser citado por Nuzman, já no final da solenidade, e a quarta ao ter seu nome pronunciado pelo presidente da Odepa.

Quem estava perto do presidente custou a entender o que se passava. Ao fim da solenidade, quando Nuzman e Raña ainda estavam no palco, Lula se levantou na Tribuna de Honra e um microfone foi colocado à sua frente, como se ele estivesse se preparando para falar. Mas foi Nuzman quem declarou abertos os Jogos. Na tribuna, o microfone à frente de Lula foi rapidamente retirado.

A assessoria do presidente informou que houve um desencontro de cerimoniais. O prefeito Cesar Maia, que estava próximo a Lula, deu sua versão para a quebra do protocolo.

— A assessoria de Lula pediu para ele não fazer a declaração, mas se esqueceu de avisar ao presidente da Odepa, que fez a leitura do nome do presidente. O Mario Vázquez acabou sendo, inocentemente, o responsável por um fato constrangedor — disse Cesar.

O prefeito, que chegou ao Maracanã acompanhado do governador José Serra, aproveitou para alfinetar Lula: — Quando houve a vaia, o presidente se levantou. Não devia ter feito, por uma questão de elegância com os países que estavam desfilando.

(…)
De manhã, Lula visitara a Vila Pan-Americana, onde tirou fotos com atletas e voluntários e percorreu o condomínio construído com financiamento da Caixa Econômica Federal, por meio de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador. Foram repassados R$ 189 milhões.
Além disso, o Ministério do Esporte liberou R$ 30 milhões para alugar os 1.480 apartamentos da Vila.
(…)
Apesar de ter as passagens compradas com dinheiro público, ele garantiu que já teria que ir ao Rio de qualquer forma, pois tinha um compromisso de trabalho na cidade marcado para segunda-feira.

— Está uma confusão aqui, muita fila para pegar a credencial — reclamou Nardes.

(…)
O ministro Orlando Silva, que compareceu com a mulher e a filha Maria, de 5 meses, disse, ao deixar o estádio, que as vaias haviam sido orquestradas, sem explicar por quem.

Na coluna de Ancelmo Gois

Gois no Pan I
Já começou a teoria conspiratória. Gente ligada a Lula jura que a vaia para o presidente foi puxada por partidários de César Maia – por sinal, aplaudido – que ganharam ingressos.

Gois no Pan II
Estava escrito nas estrelas: As vaias do Maracanã tinham endereço certo: Lula e as delegações dos EUA, da Argentina e da Venezuela – os mesmos alvos das vaias do ensaio geral de quarta.

Nota: Nas eleições do ano passado, no Rio de Janeiro, a votação do segundo turno teve os seguintes resultados: Lula: 69,69%; Alckmin: 30,31%.

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Musical.BR - é a Rádio Contrapauta em teste

12 de Julho de 2007 @ 15:17 por Alceu Nader

Instalada nos EUA, com o devido recolhimento de copyrights, a Musical.BR marca o retorno das atividades do Contrapauta. Não foram poucas as reclamações e cobranças que questionavam o silêncio repentino do blog - e não havia resposta para justificar, mas tão somente uma realidade. O jornalista responsável teve de correr atrás da sobrevivência e dedicar seu tempo em busca de atividades que rendessem algum din-din no final do mês para pagar as contas.

A parada também serviu para reflexão. E dela, a decisão de mudar o Contrapauta, principalmente torná-lo mais atrativo com a criação de um espaço na blogosfera que também servisse como referência de boa música brasileira e internacional. Patamar, é bom lembrar, que somente será alcançado com a participação dos leitores.

A primeira parte do trabalho já foi feita. A estação está criada, toca 24h por dia e tem cerca de 170 canções no arquivo. O forte da programação é MPB da melhor qualidade, de todos os gêneros e estilos, mas com algumas surpresas que farão a diferença.

O quesito raridades é um deles. Para atiçar a curiosidade, a programação tem:

  • Elis e Tom conversam, xingam e gargalham em gravações de estúdio, até descobrirem a química perfeita de “Águas de Março”; ou, depois de boa conversa, risos e causos cantarem de primeira “Na Batucada da Vida”
  • George Harrison, na gravação da demo de “Something” que serviu para apresentar a música para os outros Beatles
  • Aretha Franklin explodindo de emoção em “Nessum Dorma”. É ópera, mas também é soul
  • Roberto Carlos, nos anos 60, mostrando canções inacabadas como “Negro Gato” e “Querem Acabar Comigo”
  • Bruce Springsteen tocando Ennio Morricone
  • Stevie Wonder e Ella Fitzgerald errando em “You Are The Sunchine of My Life”
  • John Lennon e Paul McCartney pigarreando no ensaio de “Yesterday”
  • Edith Piaf e Charles Aznavour estremecem o teatro com aplausos depois de “Plus Bleus que Tes Yeux”
  • James Brown, novo em folha, canta “Strangers in The Night” e “Sunny”
  • Roger Waters (Pink Floyd) cantando e tocando Morricone e Bob Dylan.
  • Isso é apenas para o começo. Também está no projeto reunir parcerias imprevisíveis, cantores de um único sucesso, canções que marcaram época no Brasil e no mundo, padrões musicais - simples e complexos - que caíram no gosto do povo, e até são hoje cultuados como exemplo de boa música.

    O link abaixo remete para a estação, com cinco dias de acesso grátis para a programação sem interrupção comercial. Depois disso, são US$ 14,85 a cada três meses, ou cerca de R$ 0,30 por dia. O pagamento dá direito a um software que funciona como rádio na web, cuja grande vantagem é adaptar o conteúdo com qualquer tipo e velocidade de conexão.

    Apóie esta estação, tornando-se Ouvinte Preferencial do Live 365!, e ouça a programação especial do Contrapauta sem intervalo comercial

    Caso você não queira o “rádio” da live365, há outro caminho. Clique aqui neste link para ter acesso à página da Musical.BR nos EUA. No centro, bem visível, você vai encontrar este auto-falante com link para a emissora via web.

    Curta e dê sua opinião. Sugira “aquela” música que o rádio não toca. Divulgue a Musical.BR.

    Publicitários argentinos cobram a inclusão da educação como tema central da campanha eleitoral

    4 de Março de 2007 @ 10:14 por Alceu Nader

    Ontem, todos os jornais argentinos trouxeram o comunicado abaixo, em defesa da Educação, motivado pelas eleições para governadores e presidente da República deste ano na Argentina.

    Ao ser publicado antes do início da campanha eleitoral oficial, o movimento mostra um avanço considerável, quando comparado com o Brasil. Aqui, a Educação atravessa décadas de descaso, acompanhada da privatização irresponsável que iludiu a classe média com a promessa de que escolas particulares educariam melhor do que as públicas. O tema central desse manifesto também foi o eixo de um candidatos à Presidência da República do Brasil. Mas lhe faltou substância, ações concretas para mobilizar a sociedade e converter sua plataforma em votos.

    A reprodução, na íntegra, aponta para o o papel que os meios de comunicação devem ter para mudar a Educação no na Argentina. Mas serve para qualquer país do mundo, particularmente para o Brasil.

    “O SABER OCUPA LUGAR”

    Não tem erro. O saber ocupa tempo, espaços, esforços. Ocupa grande parte da vida das crianças e suas famílias. Ocupa o planejamento e implementação de políticas. Ocupa a destinação de recursos e sua administração responsável.

    A educação é um direito humano e um dos principais direitos sociais que o Estado deve garantir. Sempre deveu ocupar um lugar de interesse primordial para formar e desenvolver as capacidades intelectuais e produtivas da sociedade.

    A educação é um direito único porque tem a capacidade de fomentar ao mesmo tempo a identidade cultural, a formação do cidadão, o compromisso democrático e o desenvolvimento econômico. Por isso, ocupa lugar, embora muitas vezes menos do que realmente necessita nosso país.

    Todos e todas nós podemos fazer mais para criar dar criar um lugar para a educação. Ao fazê-lo, de maneira harmônica, privilegiamos os que têm menos, os menores e nosso próprio futuro.

    Da vida das crianças e da sua formação são responsáveis seus pais, seus professores e o Estado. O saber deveria ocupar cada vez mais recursos, debate social, espaços de articulação e planejamento político de longo prazo. Como os aros de uma roda, nada pode avançar na educação sem o compromisso e a participação de todos.

    Sim, temos escolas; sim, os professores desempenham uma tarefa valiosa em condições difíceis; sim, há preocupação e financiamento crescente; sim, há uma nova Lei da Educação.
    Mas falta ainda assumir novos compromissos para se estabelecer uma verdadeira política de Estado, de longa manutenção, que esteja acima das diferenças políticas, tendo acordos sociais como base.

    Por esse caminho, nós os convidamos a participar para tornar exeqüível o direito à educação, como alunos, como cidadãos, como pais, como docentes e como Estado.
    Como o objetivo de conseguir uma escola para todos, que não descrimine o acesso nem a formação; com salários dignos e capacitação do docente; com o compromisso dos pais em sua participação educativa, com uma transformação dos meios de comunicação em sua co-responsabilidade educativa, com vocação pública dos funcionários que assumiram essa tarefa.

    Por isso, neste ano eleitoral, estamos convencidos de que não deveria haver plataforma política sem a educação como questão central. Todos nós devemos exigir dos candidatos nacionais e estaduais propostas concretas sobre quanto pensam investir na educação, que políticas vão desenvolver e qual é seu plano de ações.

    Também em um ano eleição, a educação é tarefa de todos.

    Claro que isso “ocupa lugar”, mas se não ocupa agora…todos seremos responsáveis por abandonar nosso próprio futuro.

    “A EDUCAÇÃO É TAREFA DE TODOS”

    Centro de Implementação de Políticas para a Igualdade e o Crescimento

    Conselho Publicitário Argentino

    Folha defende, para a tevê, remédio que se recusa a tomar: a auto-regulamentação

    3 de Março de 2007 @ 08:45 por Alceu Nader

    Nada como um dia após o outro. A Folha de S. Paulo, defende, hoje, em seu editorial “Contra o abuso”, a aplicação do mesmo remédio que recusa-se a aceitar para coibir os abusos cometidos pela imprensa. O jornal classifica como “hipócrita” a resistência das emissoras de televisão em adequar sua programação por faixas de horário, como solução para evitar a exibição de cenas de baixaria explícita ou de violência para crianças e adolescentes. Diz o jornal que as tevês, “agitam a bandeira da liberdade de expressão, mas pretendem apenas obter salvo-conduto para continuar tratando crianças e adolescentes de forma discriminatória”.

    O nó da questão é o horário de verão, que deixa cerca de 26 milhões de jovens e crianças do Norte e do Leste do Brasil “suscetíveis a programas inadequados para sua idade já no início da noite”. Asas emissoras negam-se a adequar sua programação por “dificuldades técnicas”. Essa argumentação, diz o editorial, tem interesse comercial e não se justifica aos “olhos da lei”.

    Depois de apresentar os instrumentos que a Justiça oferece para coibir - e punir - os abusos, prossegue afirmando que as empresas controladoras das emissoras estão tentando passar à sociedade a impressão de que o setor padece de regulamentação. Não é bem isso, explica. “A legislação confere à sociedade poder para exercer um controle ativo e até severo -em nome, principalmente, dos direitos da criança a uma proteção especial”, diz a Folha

    Finalmente, no último parágrafo, receita o remédio que não só ela mas todos os jornais, em bloco, recusam, acusando-o da mesma ameaça à liberdade de expressão. “As emissoras deveriam mudar a conduta e investir em mecanismos de auto-regulação”, recomenda.

    Esse blog defende o mesmo para a imprensa em geral, assim como ocorre em países onde a sociedade tem maior poder de expressão e defesa, como a Grã-Bretanha, por exemplo, onde funciona o mais bem acabado órgão auto-regulamentador contra os prejuízos que notícias falsas, incompletas, mal-apuradas ou desonestas provocam.

    Como o Contrapauta publicou, em 7 de novembro do ano passado, lá funciona sem travas o PCC - Press Complaint Commission, ou Comissão de Queixas à Imprensa, cuja maior sacada não é criar fantasmas censórios do Estado, mas sim exibir o castigo a qualquer notícia mal-intencionada ou mal-produzida que provoque prejuízo a uma única pessoa, a um segmento da sociedade, ou até mesmo ao país ou ao governo.

    Consta na postagem desse dia:

    A Press Complaint Commission, Comissão de Queixas à Imprensa, da Grã-Bretanha, é modelo e referência para países subdesenvolvidos e em desenvolvimento que decidiram criar comissões auto-reguladoras que funcionam como órgão ouvidor e de conciliação aos pedidos de reparação e correção apresentados pela sociedade. Trata-se de um órgão não ligado ao governo, mas bancado pela própria indústria de mídia, com distribuição de poder e voto que neutraliza o poder de influência da mídia nas decisões que são tomadas a partir de um Código de Conduta comum a todas os veículos de informação.

    Aqui, por ora, qualquer iniciativa no sentido de coibir os abusos continua sendo derrotada pela vaga ameaça de censura e coerção aos direitos de expressão. Nem mesmo a lei que tipifica o crime de imprensa consegue passar pelo senado, onde sempre aparece um senador com interesses diretamente ligados à indústria de mídia para bloquear o projeto.

    Também em novembro passado, o projeto voltou à pauta, mas foi bloqueado pelo senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), que cricou um relatório alternativo para derrubar a matéria a ser votada. Na época, a Folha noticiou a artimanha do senador na reportagem “Senado debate lei que tutela reportagem”.

    Nada como um dia após o outro.

    ZZZZZZZZZZ….
    Imprensa ignora decisão da Austrália
    de banir lâmpadas incandescentes,
    para redução do aquecimento global

    28 de Fevereiro de 2007 @ 18:31 por Alceu Nader

    Por ignorância - que não é pecado e tem cura - O Estado de S.Paulo perdeu hoje excelente oportunidade para acrescentar uma informação importante ao debate sobre o aquecimento global.
    A reportagem “O lucro das lâmpadas ‘ecológicas’” trata da evolução da receita das maiores produtoras de lâmpadas do mundo, por conta das vendas crescentes das lâmpadas fluorescentes de uso residencial. A reportagem, pena, limitou-se ao blá-blá-blá característico dos releases das assessorias de imprensa, com pérolas como “em tempos de preocupação com mudanças climáticas, o que é verde, definitivamente, vende”, ou que as lâmpadas não-incandescentes são “mais eficientes do ponto de vista de consumo de energia, ajudam a economizar na conta de luz, além, claro, de engordar os lucros das empresas por agregar bem mais valor que as incandescentes”.
    Sobre os benefícios para o consumidor, ou a estimativa aproximada do custo das lâmpadas fluorescentes no orçamento doméstico, ou ainda sobre o domínio absoluto do “Made in China” nas marcas encontráveis nas gôndolas dos supermercados, nada. O leitor do Estado não deve ser do tipo que tenha essas preocupações ambientais e orçamentárias.

    Além da ausência de informações básicas para o consumidor – levando-se em conta que os jornais são impressos para o cidadã, e não para o mercado de lâmpadas – o Estado perdeu a oportunidade de informar que, desde o dia 20 passado, vigora, na Austrália, a lei que estipula o fim das lâmpadas comuns até 2010, exceto nos casos em que elas forem insubstituíveis, como nas salas de cirurgia dos hospitais, por exemplo.

    O motivo da decisão australiana é o mesmo da reportagem do Estado sobre o crescimento do mercado de lâmpadas fosforescentes: a sustentatibilidade, a economia de 80% no consumo de energia, e seus reflexos na elevação da temperatura global.

    A Austrália é, até o momento, o único país a declarar a aposentadoria da invenção revolucionária de Thomas Edison, de 1879. A substituição da lâmpada com filete incandescente pela lâmpada fria fosforescente pode ser rotulada de “cosmética”, é verdade, principalmente porque o governo do conservador John Howard recusa-se a assinar o Protocolo de Kyoto, que propõe a ação conjunta dos países para redução do aquecimento global.

    A notícia foi divulgada com destaque em vários jornais importantes do exterior. Com as reportagens, os jornais também aportaram ao debate as estimativas de quanto os países poderiam economizar, caso resolvessem adotar a proibição. A proibição australiana também chegou às redações dos jornais brasileiros, por meio das agências internacionais, mas não lhe deram importância. Venceu a intenção do release da assessoria de imprensa.

    Grande mídia muda de argumento para requentar denúncias de ex-embaixador

    28 de Fevereiro de 2007 @ 06:21 por Alceu Nader

    A resistência da grande mídia em aceitar diferenças retorna aos jornais, mais uma vez com as declarações do ex-embaixador do Brasil nos EUA, Roberto Abdenur, que ontem compareceu no Senado, a convite do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) - aquele que introduziu Marcos Valério no financiamento de campanhas políticas - para explicar suas denúncias veiculadas na revista Veja. A Folha de S.Paulo confunde-se de Eduardo: disse que o ex-embaixador foi convidado por Eduardo Suplicy (PT-SP). Grave? Sim, mas acontece com freqüência quando a cobertura é feita de orelha.

    Nos demais jornais - alguns poucos, outros mais - a ida de Abdenur ao Senado ressuscita a estratégia de supervalorizar as denúncias vazias do ex-embaixador. Na primeira onda denuncista, ganhou peso a entrevista à Veja. Nela, entre outras denúncias (vide posts anteriores, por favor), ele acusou a política externa brasileira de ser anti-americana.

    A campanha noticiosa que a revista abriu foi prontamente abraçada pelos jornais nas “repercussões”, e com igual barulho. A aposta era firme para a criação de nova crise no governo, desta vez desqualificando a política externa dos últimos anos. Mas, para azar deles, o noticiário emulado foi surpreendido com o desembarque, em Brasília, da missão norte-americana de primeiro nível, portadora do convite dos EUA para o Brasil ser sócio no megaprojeto de expansão da produção de biocombustível.

    Os jornais contorceram-se em editoriais e novas reportagens para manter a verdade noticiada, muito diferente da verdade dos fatos.

    Sintomaticamente, no noticiário sobre a ida do ex-embaixador ao Senado, os jornais de hoje não martelam mais na denúncia de anti-americanismo do governo Lula. Convenientemente, deixaram de lado essa argumentação, que não se sustenta mais. Afinal, há quase duas semanas, quase que diariamente, o noticiário continua explorando detalhes do que pode sair da parceria oferecida pelos EUA - a “Opep do etanol”. Mais: como segurar a denúncia de anti-americanismo ao lado das notícias sobre os preparativos da visita de Bush ao Brasil, no final semana que vem?

    Restou-lhes carregar as tintas nas denúncias de ideologização do Itamaraty.

    A denúncia mais grave de Abdenur nesse quesito – de que as promoções no Itamaraty vêm sendo mais influenciadas pela preferência partidária do que pela competência – foi desmentida pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Em mais de uma entrevista, ele pediu a Abdenur para apontar um único caso onde a grande inversão de valores teria ocorrido. Abdenur calou.

    Ontem, esperava-se que ele desse nomes aos bois no Senado, mas nada. Os senadores aventaram até mesmo a possibilidade de promover uma reunião secreta para que Abdenur pudesse listasse os diplomatas que foram beneficiados ou prejudicados por essa prática. Mas desistiram. Por que? Os jornais não informam o porquê. Preferem reafirmar que Abdenur “reforça” (Folha e Estado) ou que “ratifica” (Globo) as críticas contra “a cúpula do Itamaraty de contaminar a carreira diplomática com questões ideológicas”, como publica o mesmo Globo hoje.

    A dificuldade da grande mídia em aceitar pensamentos diferentes dos seus foi, mais uma vez, exposta na entrevista com o economista Tom Trebat, publicada no Estado do último domingo. Apresentado pelo jornal como “brasilianista da Universidade de Columbia”, Trebat, na verdade, é diretor-executivo do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Columbia, e ex-diretor da divisão de América Latina do Citigroup - em resumo, alguém que não pode ser taxado de esquerdista ou petista-lulista.

    O jornalista Pedro Dória perguntou-lhe:

    Apesar do bom relacionamento entre Bush e Lula, discute-se nas últimas semanas se a diplomacia brasileira tem hoje um certo acento anti-americano.

    Trebat respondeu:

    Ninguém aqui (nos EUA) teme que o Brasil seja anti-americano. O que há é que o Brasil está muito acostumado a ver o mundo pelo viés dos governos dos EUA. E agora isto está mudando. Cada vez mais, as relações entre os dois países se dará no setor privado, com pouca participação governamental.

    Sublinho: O que há é que o Brasil está muito acostumado a ver o mundo pelo viés dos governos dos EUA.

    A boa entrevista colhida por Pedro Dória insistiu em outra fixação da grande mídia: Hugo Chávez. De novo, o brasilianista confirmou que o presidente venezuelano incomoda muito mais as famílias que controlam a mídia na América Latina do que o governo de Bush:

    Ele faz barulho, mas não é uma ameaça para os EUA. Só cria instabilidade política. Pode ser que eu esteja enganado, mas acho que o auge de Chávez já passou. Quando Felipe Calderón ganhou no México, em parte pelo medo de “chavização” do país, Rafael Corrêa teve de mudar de linha, no Equador. Eu não exageraria a importância prática de Chávez. Mas também não existem vozes para contradizê-lo na América Latina. Ele fala as coisas mais absurdas, numa base diária, e não há ninguém, não há uma voz erguida para dizer que os gastos fiscais de seu governo são um desastre, que suas políticas são paternalistas, que suas cooperativas não funcionam. Ninguém está a fim de seguir a linha de Chávez, sobretudo no Brasil.

    Dória retrucou:

    Mas o presidente argentino Néstor Kirchner sugeriu esta semana que Washington quer o Brasil assumindo uma liderança anti-chavista na América Latina.

    Trebat respondeu:

    Os EUA nunca pediriam ao presidente Lula que tomasse uma posição agressiva contra Chávez. Alguém tem que enfrentá-lo, mas não precisa ser Lula. O Brasil é percebido aqui como um aliado discreto. A visita de Bush não terá por objetivo dividir a América Latina em dois blocos. Para os EUA isso não é necessário e, para o Brasil, não é desejável. O que há é um interesse em construir melhores laços de comércio. Do ponto de vista americano, se você olhar a região, há um problemão na Venezuela, um problema menor na Bolívia, talvez um terceiro no Equador. .. Mas, no resto do continente, o que houve foi um tipo de contra-revolução a favor de líderes moderados, como Lula.

    Chávez enquadra jornalista das Organizações Globo

    26 de Fevereiro de 2007 @ 11:51 por Alceu Nader

    Informa o conservador La Nación, de Buenos Aires, com base nos textos distribuídos pelas agências internacionais DPA (Alemanha) e AFP (França), na reportagem “A cadeia O Globo, na mira de Chávez”:

    O presidente da Venezuela disse ontem que, no seu país, “há liberdade de imprensa em excesso”, e criticou a cadeia de televisão O Globo (sic), quando seu correspondente em Caracas fez duas perguntas sobre o tema.

    O mandatário qualificou os proprietários da emissora como “a mais rançosa extrema-direita” e os acusou de vir, há vários anos, “agredindo a verdade” contra o povo venezuelano e contra ele mesmo, acrescentando, inclusive, a tentativa de “sabotar a integração com o Brasil”.
    Chávez reagiu desta maneira quando o correspondente do O Globo lhe perguntou sobre uma recente sanção imposta contra um jornal e o anunciado fechamento de um canal privado. A multa ao vespertino Tal Cual, crítico do governo, foi conseqüência de um artigo de 2005, escrito por um humorista em forma de carta dirigida à filha de Chávez: o autor pedia a Rosinés que fizesse seu pai ser racional e ter mais tolerância com a oposição.

    Chávez disse que se tratou de uma decisão judicial autônoma, sobre a qual ele não tinha “nada que ver”, e destacou que “há alguns direitos de família e direitos de meninos e meninos” que devem ser protegidos.
    “Você é atrevido por emitir opiniões descontextualizando, e já erigindo-se como juiz”, disse o mandatário ao correspondente do O Globo, durante um encontro com jornalistas nacionais e estrangeiros.
    “Você veio com uma tarefa para cá; estão te pagando para que você diga coisas que atendem aos interesses da oligarquia brasileira, que é o plano do império norte-americano”, afirmou. E acrescentou: “Infelizmente, você poderá terminar como um filhotinho do império”. Por outra parte, o mandatário afirmou que a não-renovação da concessão para a Radio Caracas Television é um assunto “intrínseco à soberania” da Venezuela. “Ou seja, você está se metendo em algo que é sagrado; a soberania deste país”, advertiu.

    O repórter em questão é Pablo López Guelli, “enviado especial” do portal à Venezuela. Sua reportagem sobre o entrevero com o presidente venezuelano - “Venezuela não limita a liberdade de expressão, diz Chávez” - saiu assim no portal de notícias G1:

    O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirmou neste sábado (24) que há democracia no país e que seu governo não limita a liberdade de expressão. “Aqui tem liberdade de expressão até em excesso, tal e qual [o presidente Luiz Inácio] Lula [da Silva] me disse uma vez”, afirmou Chávez, durante uma entrevista coletiva.
    A afirmação de Chávez foi em resposta a uma pergunta do jornalista do G1 enviado a Caracas, que foi sorteado para fazer questões ao presidente venezuelano. A pergunta baseou-se em dois acontecimentos, que foram narrados pelo repórter a Chávez.

    O primeiro foi uma manifestação, ocorrida na tarde de sexta-feira em Caracas, em apoio a um comediante que foi condenado pela Justiça a pagar US$ 19.600 (cerca de R$ 40 mil) por ter escrito uma carta num jornal local (“Tal Cual”) em que citava a filha de Chávez. O segundo foi a decisão da administração federal de não renovar a permissão de uso da freqüência à Radio Caracas Television, um das mais antigas do pais, e que faz oposição ao governo Chávez.

    A pergunta do G1 foi feita ao final da entrevista coletiva. Mas antes mesmo que o jornalista do G1 recebesse o microfone para falar, o presidente disse o seguinte:

    “Você é bem-vindo aqui como cidadão sul-americano, mas O Globo não é bem-vindo. É uma cadeia cujos proprietários são a pior espécie da extrema-direita, e é bom que o povo venezuelano saiba disso. Há anos eles atuam contra a integridade da Venezuela, do povo venezuelano e contra mim. Eles estão tentando sabotar minha integração com o Brasil. São oligarquias. Eu espero que você não seja indigno de sabotar minha integração com o Brasil. Caso contrário você estará sendo indigno de ser brasileiro.”

    O repórter do G1, que é o portal de notícias das Organizações Globo, foi erroneamente identificado durante a coletiva como jornalista do jornal O Globo, do mesmo grupo. Chávez já havia criticado o jornal em sua recente visita ao Brasil.
    Quando Chávez completou o pensamento, o repórter do G1 fez sua pergunta. Visivelmente irritado com a questão sobre a condenação do comediante, o presidente respondeu que foi uma decisão judicial “com a qual eu não tenho nada a ver, absolutamente nada a ver”. “Tentaram superdimensionar uma multa”, completou.

    Já sobre a não concessão à Radio Caracas Television (RTC), o presidente respondeu: “Que posso responder se é uma atribuição legal e legítima do governo dar ou não concessão a um canal de televisão? Isso não deve ser explicado”, disse Chávez. Ele citou como exemplo que o mesmo acontece com a negação ou a aceitação do beneplácito a um embaixador.
    Após responder às perguntas, Chávez atacou o repórter e, novamente, a Globo. “Não vou opinar mais sobre este assunto, que tem a ver com a soberania dos poderes na Venezuela. Você está entrando em algo que é sagrado: a soberania deste país”, afirmou o presidente.

    Chávez recomendou que o jornalista do G1 se informasse sobre os dois assuntos. E lamentou que “tendo oportunidade de perguntar outras coisas de maior importância” o jornalista tenha preferido falar sobre a condenação do comediante e a não renovação da licença da rádio.
    Chávez disse ainda que sabia que o repórter do G1 foi à Venezuela cumprir instruções de seus chefes. “Experimente escrever algo que seus chefes não gostem para ver se eles não te demitem imediatamente. Uma ditadura é o que há em meios de comunicação como ‘O Globo’“, disse.

    Por último, e após ressaltar que na Venezuela “há democracia”, Chávez advertiu que o jornalista corria “um grave risco”, já que “não conhece a Venezuela, está chegando agora e é audaz ao estar emitindo opiniões”.

    A coletiva
    A entrevista coletiva estava marcada para começar às 11h da manhã. Os jornalistas tiveram de chegar duas horas antes ao Palácio Miraflores, a sede do governo venezuelano. Mas Chávez só apareceu para a entrevista às 12h30.
    Chávez abriu seu discurso criticando aqueles que dizem que a Venezuela está se transformando em uma ditadura ou em uma autocracia. Afirmou que “aqui há total liberdade de expressão”. “É nos Estados Unidos onde existe uma perseguição feroz do pensamento”.
    Outro tema abordado por Chávez foi uma suposta conspiração para matá-lo. Disse o presidente ter informações de que há quatro ou cinco loucos que querem matá-lo. Afirmou que agentes do serviço secreto norte-americano estariam envolvidos na trama.

    Já no O Globo, os últimos parágrafos da reportagem “Chávez gasta US$ 4,3 bi em armas”, após o intertítulo “Chávez ataca de novo jornal O Globo“, diz:

    (…)

    Duas perguntas de um jornalista da Rede Globo sobre o destino do canal RCTV, que não terá sua concessão renovada, e um jornal multado por publicar um editorial sobre sua filha, irritaram Chávez durante a coletiva de imprensa:

    - Você é bem vindo como cidadão sul-americano, mas O Globo não - disse Chávez, que confundiu os dois órgãos, jornal e tevê, e acusou o repórter de fazer perguntas mal-intecionadas. O presidente disse que ele estava se intrometendo na soberania do país e que o jornal apóia os interesses americanos contra ele.

    Maior autonomia para os estados pode ajudar no combate ao crime

    15 de Fevereiro de 2007 @ 03:08 por Alceu Nader

    O presidente da República e os governadores do Sudeste deveriam escutar com atenção o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e adotar sua proposta de mudança na legislação penal, dando aos estados autonomia para tratar seus criminosos. O argumento de Cabral é claro: a realidade criminal do Rio de Janeiro e de São Paulo não é a mesma de Rondônia e do Acre.

    Os deputados votaram vários projetos ontem em Brasília. Finalmente foi aprovada a punição para o uso de celulares pelos bandidos condenados, e estipuladas as penas para diretores de presídios e agentes prisionais comprovadamente negligentes ou corruptos. Por incrível que pareça, todos os crimes comandados detrás das grades nos últimos anos passaram incólumes. Os chefes do crime organizado que comandaram ações que chocaram o país nos últimos anos - PCC, Fernandinho Beira-Mar etc. - trabalharam livremente, sen qualquer mancha na ficha corrida. Somente a partir da data da publicação da lei, o uso de qualquer meio de comunicação eletrônico pelos condenados constitui-se “falta grave”, com perda de benefícios no regime de progressividade. Para que se tenha idéia do tempo que a Câmara levou para se sensibilizar com o problema, a medida entra em vigor quase 17 anos depois da telefonia móvel ter sido implantada no país.

    O primeiro celular do país, por ironia, funcionou no Rio de Janeiro.