Quando a honestidade jornalística está na exposição dos detalhes
O noticiário sobre as vaias ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no Maracanã, na abertura dos Jogos Panamericanos, serve, hoje, para mostrar um pouco da honestidade dos jornais, que, no caso, reside na exposição dos detalhes do fato. No caso específico, quem assistiu à abertura dos jogos, pôde constatar: a platéia acompanhou quem coordenava aplausos para o prefeito César Maia e vaias para Lula.
Apenas um jornal, entre os cinco mais influentes do país, reproduz esse detalhe: Folha de S.Paulo. O Globo até trata do assunto, mas para matar qualquer alusão de que a vaia tenha sido encomendada. O Estado de S.Paulo relata que, antes da abertura, em visita aos atletas da Vila Olímpica, a comitiva presidencial escutou até o traicional “olê, olê, olê olá… Lula, Lula!”. Nos demais, a vaia foi a coisa mais normal do mundo.
Aos textos
Correio Braziliense
Manchete na primeira página:
Gigantesca vaia em Lula abre os jogos
“O presidente Lula passou ontem por um dos maiores constrangimentos de seu governo. Foi vaiado seis vezes na abertura dos Jogos Pan-Americanos no Rio. Aborrecido, não cantou em voz alta o Hino Nacional interpretado à capela pela cantora Elza Soares. Ficou o tempo todo de cara fechada e, no final, ainda quebrou o protocolo ao se esquivar de abrir os jogos oficialmente. As 75 mil pessoas que lotaram o Maracanã para assistir à festa foram brindadas com um magnífico espetáculo de fogos, carnaval, música e folclore. (…)
Na reportagem:
Título:
“Beleza e constrangimento”
“(…) o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou um dos maiores constrangimentos de seu governo ao ouvir ontem, no Maracanã, uma seqüência de seis sonoras vaias das 75 mil pessoas que foram assistir à cerimônia de abertura da 15ª edição do Pan. O vexame internacional ocorreu na presença de chefes de Estado e de governo, como os mandatários de Canadá, Panamá, Honduras, Antígua e Barbuda, Aruba e Antilhas Holandesas, além das delegações de atletas de 42 países das Américas.
Folha de S.Paulo
Manchete na primeira página:
“Lula é vaiado 6 vezes na abertura oficial dos jogos”.
Na reportagem:
Título:“Lula vai ao Pan… Pan vaia Lula
Vaiado seis vezes na cerimônia de abertura do Pan-Americano do Rio, ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não fez a declaração habitual de abertura, como exigia o protocolo esportivo. (…)
(…)
O governo federal bancou R$ 1,8 billhão dos R$ 3,7 bilhões gastos na preparação dos Jogos, sendo que R$ 49,8 milhões foram direcionados para festas relativas ao evento esportivo.
A primeira vaia a Lula, vinda de um público que pagou entre R$ 20 e R$ 250 por cada ingresso, surgiu quando a imagem do presidente apareceu nos dois telões do estádio. Sua figura foi rapidamente tirada, e então o público aplaudiu. A organização ainda tentou novamente, com uma imagem um pouco mais distante, e veio a segunda vaia. A terceira e quarta vaias aconteceram durante anúncio de sua presença no Maracanã pelo sistema de som e em nova imagem nos telões. Outras duas vaias ocorreram durante a menção ao nome de Lula nos discursos de abertura dos Jogos, feitos por Nuzman e pelo presidente da Odepa (Organização Desportiva Pan-Americana), Mario Vásquez Raña. Quando Nuzman mencionou o governador do Rio, Sergio Cabral, houve aplausos parciais. Quando citou o posto do prefeito do Rio, Cesar Maia, houve aplausos efusivos.”
Jornal do Brasil
Manchete na primeira página:
“Festa para a tocha, vaias para Lula”
Empolgado, público canta e até vaia o presidente Lula
Na festa de abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio, até canção de ninar teve acompanhamento de palmas. (…)
A farra só era interrompida quando o nome do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, era anunciado. O presidente que discursaria depois do presidente da Organização Desportiva Pan-Americana, Mario Vazquez Raña, desistiu de tomar parte da festa. Segundo Laércio Portela, da secretaria de imprensa do Planalto, houve um desentendimento de cerimoniais.”
O Estado de S.Paulo
Manchete na primeira página:
“Seis vezes vaiado, Lula não abre o Pan”
na reportagem:
Depois de ser vaiado seis vezes durante a cerimônia de abertura dos jogos Pan-Americanos, ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda protagonizou uma confusão que levou os jogos a serem abertos oficialmente pelo presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman - papel que, habitualmente, cabe ao chefe de estado do país.
Incomodado com as vaias, Lula passou a cerimônia com a fisionomia fechada, tendo ao lado, entre outros, seu vice José Alencar, o governador Sérgio Cabral e vários ministros. O constrangimento foi tanto que o presidente se recusou, num primeiro momento, a fazer a declaração de abertura oficial dos jogos. Convencido por assessores a abrir o evento, Lula pediu, então, o microfone, mas foi atropelado pela declaração feita por Nuzman, que não fora avisado de que o presidente havia mudado de idéia. (…)
“Houve um desencontro de informações entre os cerimoniais”, justificou o Planalto para a desistência de Lula, que se mostrou visivelmente constrangido com o episódio. “Foi uma precipitação da assessoria do presidente, que avisou que ele não faria a declaração”, afirmou o prefeito do Rio, César Maia (DEM). ‘Foi uma confusão que criou um constrangimento muito grande’, completou Maia.
(…)
As seis vaias ao presidente foram dadas todas as vezes que seu nome foi citado no microfone do Maracanã ou que sua imagem mostrada no telão. A partir da quarta vaia, no entanto, os convidados que lotavam a tribuna de honra decidiram puxar palmas para o presidente, no que foram seguidos por muitos torcedores.
“A mim me pareceu coisa orquestrada. Era só observar de onde vinha e dava para perceber que era uma coisa organizada”, declarou o ministro dos Esportes, Orlando Silva. Ao deixar o estádio, Lula evitou a imprensa e se recusou a responder se estava chateado com os protestos.
Para consolo de Lula, de manhã ocorreu o contrário: ele foi recebido, na Vila Olímpica, com gritos de “olê, olê, olê olá… Lula, Lula!”, gingle de suas campanhas eleitorais. Trajando o agasalho oficial do Pan, ao lado de Marisa Letícia, ele visitou as instalações da Vila, brincou na sala de ginástica, tirou fotos, deu autógrafos. Muito assediado, desistiu de almoçar com os atletas e rumoupara o Hotel Sofitel, em Copacabana - não sem antes posar para fotos com os ginastas Daniela e Diogo Hipólito e Daiane dos Santos.”
O Globo
Manchete na primeira página:
“Emoção, carnaval e vaias na festa do Pan”
Texto na primeira página:
Em cerimônia marcada pela emoção e beleza, cujo ponto alto foi o Hino Nacional cantado por Elza Soares acompanhada dos 90 mil presentes, os Jogos Pan-Americanos do Rio foram abertos ontem com um improviso: após ser vaiado cinco vezes pelo público, numa das maiores vaias da história do Maracanã, o presidente Lula deixou de fazer a leitura oficial da abertura dos Jogos, tradicionalmente a cargo do presidente do país-sede. Sua alta popularidade no país não resistiu à máxima do escritor Nelson Rodrigues: “O Maracanã vaia até minuto de silêncio”, ele dizia. Marta Suplicy e as delegações de EUA e Argentina também foram vaiadas. Com uma organização impecável, o estádio não tinha flanelinhas, ambulantes ou estacionamento ilegal. E tudo terminou em samba, na voz de Daniela Mercury cantando “Aquarela do Brasil”.
Na reportagem:
Título:
“Maracanã não perdoa e vaia Lula”
(…) o público presente ontem ao estádio para a cerimônia de abertura do Pan recebeu com vaias o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula foi vaiado quatro vezes durante a festa e, para evitar um constrangimento maior, o cerimonial foi alterado: o presidente, que deveria anunciar a abertura oficial da competição, deixou a tarefa para o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman. As vaias também atingiram Marta Suplicy, quando a imagem da ministra do Turismo apareceu nos telões do estádio.
(…)
No cronograma da festa entregue aos jornalistas, Lula seria o último a se pronunciar, após os discursos de Nuzman e do presidente da Organização Desportiva Pan-Americana (Odepa), Mario Vázquez Raña.
O presidente da República falaria a tradicional frase: “Declaro abertos os Jogos”. O protocolo, no entanto, foi alterado devido às vaias. A primeira aconteceu quando sua imagem apareceu nos telões do estádio, antes mesmo do início da cerimônia. A segunda quando seu nome foi anunciado pela apresentadora; a terceira, ao ser citado por Nuzman, já no final da solenidade, e a quarta ao ter seu nome pronunciado pelo presidente da Odepa.
Quem estava perto do presidente custou a entender o que se passava. Ao fim da solenidade, quando Nuzman e Raña ainda estavam no palco, Lula se levantou na Tribuna de Honra e um microfone foi colocado à sua frente, como se ele estivesse se preparando para falar. Mas foi Nuzman quem declarou abertos os Jogos. Na tribuna, o microfone à frente de Lula foi rapidamente retirado.
A assessoria do presidente informou que houve um desencontro de cerimoniais. O prefeito Cesar Maia, que estava próximo a Lula, deu sua versão para a quebra do protocolo.
— A assessoria de Lula pediu para ele não fazer a declaração, mas se esqueceu de avisar ao presidente da Odepa, que fez a leitura do nome do presidente. O Mario Vázquez acabou sendo, inocentemente, o responsável por um fato constrangedor — disse Cesar.
O prefeito, que chegou ao Maracanã acompanhado do governador José Serra, aproveitou para alfinetar Lula: — Quando houve a vaia, o presidente se levantou. Não devia ter feito, por uma questão de elegância com os países que estavam desfilando.
(…)
De manhã, Lula visitara a Vila Pan-Americana, onde tirou fotos com atletas e voluntários e percorreu o condomínio construído com financiamento da Caixa Econômica Federal, por meio de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador. Foram repassados R$ 189 milhões.
Além disso, o Ministério do Esporte liberou R$ 30 milhões para alugar os 1.480 apartamentos da Vila.
(…)
Apesar de ter as passagens compradas com dinheiro público, ele garantiu que já teria que ir ao Rio de qualquer forma, pois tinha um compromisso de trabalho na cidade marcado para segunda-feira.
— Está uma confusão aqui, muita fila para pegar a credencial — reclamou Nardes.
(…)
O ministro Orlando Silva, que compareceu com a mulher e a filha Maria, de 5 meses, disse, ao deixar o estádio, que as vaias haviam sido orquestradas, sem explicar por quem.
Na coluna de Ancelmo Gois
Gois no Pan I
Já começou a teoria conspiratória. Gente ligada a Lula jura que a vaia para o presidente foi puxada por partidários de César Maia – por sinal, aplaudido – que ganharam ingressos.
Gois no Pan II
Estava escrito nas estrelas: As vaias do Maracanã tinham endereço certo: Lula e as delegações dos EUA, da Argentina e da Venezuela – os mesmos alvos das vaias do ensaio geral de quarta.
Nota: Nas eleições do ano passado, no Rio de Janeiro, a votação do segundo turno teve os seguintes resultados: Lula: 69,69%; Alckmin: 30,31%.
==
Visite - e ouça - a Musical.BR.