Chuva de versões, desinformação e julgamento antecipado
Fiquei travado nos últimos dias, impossibilitado de escrever sobre o acidente da TAM. Estava com a tevê ligada na GloboNews, quando tudo começou. A desinformação dos primeiros momentos era previsível, mas resolvi mudar de canal após a observação da faxineira da nossa empresa, que acompanhava comigo o que estava acontecendo: “mas essa mulher não tem outra coisa para falar?”, ela questionou, o que incentivou minha decisão de mudar de canal. Fui para a Band, onde começava o telejornal, e liguei o computador para ver se já havia algum registro nos portais. Na Band, as informações também eram escassas, mas sem a repetição da GloboNews que cansou ainda mais nossa faxineira. Assim que entrei no Folha Online, deparei com a primeira grande diferença. Havia muito mais riqueza de informações sobre a tragédia. Mantive a tevê ligada e, minutos depois, quando Ricardo Boechat anunciou as mesmas informações do portal como “últimas revelações”, desisti. A “reportagem” estava conectada na Internet. Seria só o primeiro sinal de desinformação que os meios de comunicação brindariam o distinto público.
Os jornais do dia seguinte confirmariam. A “tragédia anunciada” pela inoperância do governo federal em pôr fim à crise do setor aéreo passou a ser o principal motivo da tragédia. Junto com esse julgamento antecipado, outra insistência, a pista principal de Congonhas, utilizada pelo Airbus da TAM, foi entregue antes do prazo e incompleta, o que seria a razão da aquaplanagem que impediu a frenagem da aeronave da tragédia. E tome espaço para a “tragédia anunciada” e mais ainda para os escribas pagos e gratuitos da grande imprensa carregar nas tintas e impingir ao distinto público que estariam dispensados todos os demais procedimentos e investigações a respeito, pois eles já haviam elegido o mesmo réu de sempre.
Na quarta-feira, entrevista coletiva com o presidente da TAM e seus principais diretores. Mais uma vez, forçou-se a barra para arrancar dos executivos a confirmação do culpado elegido na véspera, tendo como ponto alto o discurso da repórter da Jovem Pan (mais mal informada que os demais) sobre o caos nos aeroportos desde a tragédia do Boeing da Gol – fruto, segundo a imprensa decidiu, dos buracos do sistema, e não da irresponsabilidade dos pilotos norte-americanos – como concluíram a CPI do “apagão aéreo” da Câmara e o inquérito policial. Mas essa conclusão dos deputados e da Polícia Federal contraria a tese vigente na mídia. Melhor, portanto, ignorá-la e desistir de apurar outras responsabilidades. Ponto para a impunidade.
A coletiva dos diretores da TAM, que também assisti ao vivo, reforçou uma impressão antiga: o medo dos jornalistas em desagradar anunciantes dos veículos em que trabalham. Nenhuma pergunta sobre a interferência das companhias aéreas em transformar Congonhas no principal ponto de escalas e conexões do Brasil. Tampouco sobre a carga horária dos tripulantes, e a versão que corre solta de que, na TAM, os pilotos são obrigados a cumprir milhagem voada e não horas trabalhadas. O que se viu em boa parte das perguntas foi a insistência em arrancar respostas dos executivos que conduzissem para a eleição de um único culpado pela “tragédia anunciada”.
E tome chuva de versões, muitas fortalecidas por “especialistas” que se escondem no anonimato – mas servem para encher espaço e dar base para a tese que elegeu o réu. Três dias depois, outras evidências contrariam a tese central da condução do noticiário. É forte a possibilidade de o acidente ter sido causado por uma soma de fatores, desde a pista molhada (sem aquaplanagem, mas molhada) até a suspeita de falha mecânica. Mas isso pouco importa para os juízes mal-informados das empresas de mídia. Eles continuarão julgando, impunemente, pois a imprensa brasileira não tem quem os vigie e a obrigue de publicar correções e reparos.