Jornais em xeque: governador do Rio aponta o que eles fingiram não ver

Denúncia de Sérgio Cabral repercute de maneira desigual nos jornalões; de novo, omissões e soberba escondem o essencial

As vaias ao presidente da República, na abertura do Pan-Americano, sexta-feira passada, no Rio de Janeiro, voltam com toda força às primeiras páginas dos jornais de hoje. Aqui e ali, sai da sombra o que o Contrapauta apontou no dia seguinte: a súbita mudança do público quando o os auto-falantes e os telões expunham Cesar Maia (aplausos) ou quando mostrava Lula (vaias). Desde o início, frise-se, o objetivo do blog não foi questionar se as vaias foram justas ou não, mas sim sublinhar a cegueira de ocasião da grande mídia, que se esforçou o quanto pôde para esconder a suspeita de armação no episódio.

O blog também bateu nos escribas dos jornalões que se esforçaram em legitimar as vaias e omitir a arapuca e reforçar a impressão de que todas as 75 mil pessoas que assistiam à festa olímpica vaiaram com sólida convicção. Um desses serviçais, Alexandre Garcia, ex-porta voz da ditadura, ontem à tarde, na rádio Eldorado de São Paulo (pertencente ao O Estado de S.Paulo) cuspia no microfone da emissora que as vaias haviam sido justas porque “a população já não agüenta mais”. A essas alturas, o que demonstra que não importa a qualidade da informação que a rádio deveria preservar, já corria no noticiário o desagravo do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, da Fierj (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) e a carta aberta do Comitê Olímpico Brasileiro atribuindo à “vossa vontade” (de Lula) a bela cerimônia de abertura dos jogos.

Hoje, apesar da clareza e provas de que se tratou de armação, a grande mídia ainda tapa os olhos. A reação é previsível. Primeiro, porque ainda não engoliu como Lula sobreviveu ao massacre do mensalão e conseguiu se reeleger. Segundo porque não pode desmoralizar seus escribas de plantão.

A manipulação de hoje recorre à omissão dos fatos. O exemplo mais visível é o do Jornal Nacional de ontem à noite, que abriu espaço para a tristeza de Lula, confessada em seu programa semanal de rádio, mas “se esqueceu” de noticiar a guerra entre o prefeito e o governador do Rio de Janeiro. Assim, deu-se a vaia como fato consumado. E tome otimismo, sentimentalismo e falso patriotismo com as parcas medalhas conquistadas até agora.

Nos jornais, o painel muda um pouco – mas mantém o ranço. O Correio Braziliense que jogou as vaias na capa da edição de sábado, hoje não traz nada na primeira página e, no caderno interno, privilegia a guerra entre governador e prefeito e a defesa da Fierj. No quadro que remete para a decepção de Lula difundida no programa de rádio, dois parágrafos para Lula e dois parágrafos para Fernando Henrique Cardoso, que ontem saiu da cripta mais uma vez. Para dizer que, se fosse ele, não teria deixado de abrir os jogos.

A Folha de S.Paulo toma o mesmo atalho na capa. No caderno interno, traz um painel de opiniões com Fernando Henrique (antes de voltar para a cripta) e José Serra defendendo Cesar Maia, além do próprio Cesar Maia e de Sérgio Cabral. No espaço Opinião, Eliane Cantanhêde se debate para justificar o que não tem explicação e cai no ramerrão de que os que viram as vaias com desconfiança fazem parte da platéia de Lula, que não admite controvérsias e outras bobagens. Acerca de suas conclusões precipitadas do último domingo sobre a “vaia histórica”, da desinformação sobre a claque do contra armada por Cesar Maia e da tenebrosa previsão do Brasil dividido entre a boiada de pobres do Nordeste a esclarecida classe média do Sul-Sudeste, nenhuma palavra. Não surpreende; a soberba faz parte do figurino.

O Jornal do Brasil escancara. “Cabral: vaia é armadilha contra Lula”, diz sua manchete principal. No caderno interno, mais: “Cabral disse que a vaia ao presidente partiu de um pequeno grupo que estava “muito bem acomodado” à esquerda das tribunas de honra. O governador, no entanto, não citou o nome do prefeito do Rio, Cesar Maia, como articulador da suposta armação contra Lula”. Ponto para o jornal. Não tergiversou, e abriu com o que é notícia: a denúncia de um governador de estado.

No O Estado de S.Paulo, o noticiário ocupa uma página. Nela, dividem o espaço o programa de rádio de Lula, onde a reportagem cobra que “Lula não explicou, porém, que fez questão de ser o anfitrião da festa”. Em segundo plano, o comunicado do COB, a reação oficial do Planalto e uma esquisita reportagem com “analistas” que oferecem como conclusão que Lula ´”não deveria se preocupar excessivamente com as vaias que recebeu”. Na segunda página, Fernando Henrique de novo, pouco antes de entrar na cripta, uma nota de uma coluna sobre a denúncia de Sérgio Cabral e reportagem com três colunas para a defesa de Cesar Maia. No pé de sua coluna, Dora Kramer estrebucha com argumentação semelhante à de Eliane Cantanhêde.

No O Globo, por fim, a manchete principal noticia a “guerra entre governistas e oposicionistas, assim como entre o governador Sérgio Cabral e o prefeito Cesar Maia. O texto traz a denúncia de Cabral de que “o presidente foi vítima de uma armadilha” e abre para Cesar Maia acusando o governador “de estar defendendo Lula por interesse na liberação de verbas do PAC e que o Planalto usa ‘claques de aluguel’”. No caderno interno, duas páginas. A primeira abre com a reportagem “Ecos da vaia”, que também remete para o programa de Lula no rádio, traz o confronto entre governador e prefeito, a denúncia do blog de um dos filhos de Lula de que houve armação e o “Recado” do jornal de que a vaia, “se bem entendida tem efeitos benéficos”. Na segunda página, o embate oposição versus situação, repercussão na imprensa internacional e a espantosa coluna de Merval Pereira, com a trepidante informação de que “o episódio das vaias reacendeu nas lideranças dos Democratas, o partido de Cesar Maia, a sensação de que é possível derrotar o governo nas eleições presidenciais de 2010”. No pé da página, já acomodado na cripta, Fernando Henrique deixa sua mensagem: “a gente tem que se habituar a não ser arrogante”.

Uma resposta para “ Jornais em xeque: governador do Rio aponta o que eles fingiram não ver ”

  1. Jens disse:

    O Fernando Henrique falando em humildade é de lascar. A hipocrisia dessa gente é uma arte.
    ***
    Alceu: um abraço e parabéns pelo excelente trabalhando que vens desenvolvendo no Contrapauta.

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