Colunas exploram as vaias no Pan, e voam para bem longe da explicação para o episódio

Alceu Nader | Textos | Domingo, 15 de Julho de 2007

A naturalidade com que a grande mídia viu que o mesmo Maracanã que vaia Lula aplaude Cesar Maia, evoluiu: hoje, sem se perguntar sobre o que realmente teria provocado este fenômeno, duas colunas sustentam transcedentes conclusões, mas não respondem à questão: por que o prefeito foi aplaudido e o presidente foi vaiado?

Eliane Cantanhêde, na Folha de S.Paulo, e Dora Kramer, no O Estado de S.Paulo ignoram, com perdão do trocadilho involuntário, olimpicamente o mistério que qualquer jornalista medianamente ciente de suas funções se perguntaria: por que aplauso para um prefeito que a população do Rio de Janeiro concedeu 32% de “ótimo” (DataFolha, março/07) e vaias para um presidente que recebeu mais de 50% das opiniões na mesma avaliação?

Sobre a ignorância (ou preguiça, ou estultice) da pergunta que ambas não quiseram fazer, o leitor encontra em Cantanhêde que “a vaia é histórica”, e destila o preconceito venal de que “O Pan deveria ter sido no Nordeste…”. No final, bate na surrada tecla de que o atual governo separa ricos e pobres:”aplausos dos pobres do Bolsa Família e do Nordeste, vaias da classe média e dos que podem pagar caro pelo Pan no Sul-Sudeste. Não é bom prenúncio”. Nada mais velho; o argumento não pegou nas eleições, e perde cada vez mais liga a cada indicador econômico que mostra ganhos salariais em todas as categorias, recordes de emprego com carteira assinada, no financiamento à casa própria, na concessão de crédito consignado e outros números turbinados muito mais pelo desempenho dos estados mais ricos do que os mais pobres.

Kramer vai um pouco mais longe em sua análise psico-política-esportiva-partidária sobre o episódio, dizendo que Lula recusou-se a abrir os jogos porque lhe faltou “espírito esportivo”, “ausência de senso de realidade de seus áulicos” e que o presidente é “intolerante com a divergência” e “sem desenvoltura para enfrentar algo perfeitamente natural na vida de um homem público”.

Menos, colunistas. Menos.

Para tentar dar um pouco de nobreza ao episódio, que não terá fitas de câmara de vigilância, nem gravações clandestinas, nem depoimentos reproduzidos nos meios da grande imprensa - porque não lhes interessa saber o que realmente aconteceu -, reproduzo o texto abaixo, enviado por um leitor e amigo do blog.

Além da Política

por Petia Botovchenko

As vaias a Lula na abertura dos Jogos Panamericanos foram inconvenientes, por razões que vão além da política. O significado mais profundo deste evento, aquilo que o qualifica como tradição central da civilização ocidental, merecedora de ser ressuscitada no século XX, é o seu caráter de festa não-político-partidária. Os gregos, em mais uma lição de sabedoria, interrompiam todas as guerras durante os jogos. Jogos só podem ser considerados olímpicos se juntarem no mesmo espaço, sem conflitos ou ressentimentos, aqueles normalmente separados por discordâncias e conflitos de interesse. Se permitirem o congraçamento, temporário que seja, entre adversários. A transformação de Jogos Olímpicos em arena política tem consequências sociais tão perversas e destrutivas quanto a transformação das torcidas de futebol em gangues dedicadas ao vandalismo.

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Vídeo do YouTube do ensaio da festa de abertura do Pan, com vaia para Lula