Chávez enquadra jornalista das Organizações Globo

Alceu Nader | Textos | Segunda, 26 de Fevereiro de 2007

Informa o conservador La Nación, de Buenos Aires, com base nos textos distribuídos pelas agências internacionais DPA (Alemanha) e AFP (França), na reportagem “A cadeia O Globo, na mira de Chávez”:

O presidente da Venezuela disse ontem que, no seu país, “há liberdade de imprensa em excesso”, e criticou a cadeia de televisão O Globo (sic), quando seu correspondente em Caracas fez duas perguntas sobre o tema.

O mandatário qualificou os proprietários da emissora como “a mais rançosa extrema-direita” e os acusou de vir, há vários anos, “agredindo a verdade” contra o povo venezuelano e contra ele mesmo, acrescentando, inclusive, a tentativa de “sabotar a integração com o Brasil”.
Chávez reagiu desta maneira quando o correspondente do O Globo lhe perguntou sobre uma recente sanção imposta contra um jornal e o anunciado fechamento de um canal privado. A multa ao vespertino Tal Cual, crítico do governo, foi conseqüência de um artigo de 2005, escrito por um humorista em forma de carta dirigida à filha de Chávez: o autor pedia a Rosinés que fizesse seu pai ser racional e ter mais tolerância com a oposição.

Chávez disse que se tratou de uma decisão judicial autônoma, sobre a qual ele não tinha “nada que ver”, e destacou que “há alguns direitos de família e direitos de meninos e meninos” que devem ser protegidos.
“Você é atrevido por emitir opiniões descontextualizando, e já erigindo-se como juiz”, disse o mandatário ao correspondente do O Globo, durante um encontro com jornalistas nacionais e estrangeiros.
“Você veio com uma tarefa para cá; estão te pagando para que você diga coisas que atendem aos interesses da oligarquia brasileira, que é o plano do império norte-americano”, afirmou. E acrescentou: “Infelizmente, você poderá terminar como um filhotinho do império”. Por outra parte, o mandatário afirmou que a não-renovação da concessão para a Radio Caracas Television é um assunto “intrínseco à soberania” da Venezuela. “Ou seja, você está se metendo em algo que é sagrado; a soberania deste país”, advertiu.

O repórter em questão é Pablo López Guelli, “enviado especial” do portal à Venezuela. Sua reportagem sobre o entrevero com o presidente venezuelano - “Venezuela não limita a liberdade de expressão, diz Chávez” - saiu assim no portal de notícias G1:

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirmou neste sábado (24) que há democracia no país e que seu governo não limita a liberdade de expressão. “Aqui tem liberdade de expressão até em excesso, tal e qual [o presidente Luiz Inácio] Lula [da Silva] me disse uma vez”, afirmou Chávez, durante uma entrevista coletiva.
A afirmação de Chávez foi em resposta a uma pergunta do jornalista do G1 enviado a Caracas, que foi sorteado para fazer questões ao presidente venezuelano. A pergunta baseou-se em dois acontecimentos, que foram narrados pelo repórter a Chávez.

O primeiro foi uma manifestação, ocorrida na tarde de sexta-feira em Caracas, em apoio a um comediante que foi condenado pela Justiça a pagar US$ 19.600 (cerca de R$ 40 mil) por ter escrito uma carta num jornal local (“Tal Cual”) em que citava a filha de Chávez. O segundo foi a decisão da administração federal de não renovar a permissão de uso da freqüência à Radio Caracas Television, um das mais antigas do pais, e que faz oposição ao governo Chávez.

A pergunta do G1 foi feita ao final da entrevista coletiva. Mas antes mesmo que o jornalista do G1 recebesse o microfone para falar, o presidente disse o seguinte:

“Você é bem-vindo aqui como cidadão sul-americano, mas O Globo não é bem-vindo. É uma cadeia cujos proprietários são a pior espécie da extrema-direita, e é bom que o povo venezuelano saiba disso. Há anos eles atuam contra a integridade da Venezuela, do povo venezuelano e contra mim. Eles estão tentando sabotar minha integração com o Brasil. São oligarquias. Eu espero que você não seja indigno de sabotar minha integração com o Brasil. Caso contrário você estará sendo indigno de ser brasileiro.”

O repórter do G1, que é o portal de notícias das Organizações Globo, foi erroneamente identificado durante a coletiva como jornalista do jornal O Globo, do mesmo grupo. Chávez já havia criticado o jornal em sua recente visita ao Brasil.
Quando Chávez completou o pensamento, o repórter do G1 fez sua pergunta. Visivelmente irritado com a questão sobre a condenação do comediante, o presidente respondeu que foi uma decisão judicial “com a qual eu não tenho nada a ver, absolutamente nada a ver”. “Tentaram superdimensionar uma multa”, completou.

Já sobre a não concessão à Radio Caracas Television (RTC), o presidente respondeu: “Que posso responder se é uma atribuição legal e legítima do governo dar ou não concessão a um canal de televisão? Isso não deve ser explicado”, disse Chávez. Ele citou como exemplo que o mesmo acontece com a negação ou a aceitação do beneplácito a um embaixador.
Após responder às perguntas, Chávez atacou o repórter e, novamente, a Globo. “Não vou opinar mais sobre este assunto, que tem a ver com a soberania dos poderes na Venezuela. Você está entrando em algo que é sagrado: a soberania deste país”, afirmou o presidente.

Chávez recomendou que o jornalista do G1 se informasse sobre os dois assuntos. E lamentou que “tendo oportunidade de perguntar outras coisas de maior importância” o jornalista tenha preferido falar sobre a condenação do comediante e a não renovação da licença da rádio.
Chávez disse ainda que sabia que o repórter do G1 foi à Venezuela cumprir instruções de seus chefes. “Experimente escrever algo que seus chefes não gostem para ver se eles não te demitem imediatamente. Uma ditadura é o que há em meios de comunicação como ‘O Globo’“, disse.

Por último, e após ressaltar que na Venezuela “há democracia”, Chávez advertiu que o jornalista corria “um grave risco”, já que “não conhece a Venezuela, está chegando agora e é audaz ao estar emitindo opiniões”.

A coletiva
A entrevista coletiva estava marcada para começar às 11h da manhã. Os jornalistas tiveram de chegar duas horas antes ao Palácio Miraflores, a sede do governo venezuelano. Mas Chávez só apareceu para a entrevista às 12h30.
Chávez abriu seu discurso criticando aqueles que dizem que a Venezuela está se transformando em uma ditadura ou em uma autocracia. Afirmou que “aqui há total liberdade de expressão”. “É nos Estados Unidos onde existe uma perseguição feroz do pensamento”.
Outro tema abordado por Chávez foi uma suposta conspiração para matá-lo. Disse o presidente ter informações de que há quatro ou cinco loucos que querem matá-lo. Afirmou que agentes do serviço secreto norte-americano estariam envolvidos na trama.

Já no O Globo, os últimos parágrafos da reportagem “Chávez gasta US$ 4,3 bi em armas”, após o intertítulo “Chávez ataca de novo jornal O Globo“, diz:

(…)

Duas perguntas de um jornalista da Rede Globo sobre o destino do canal RCTV, que não terá sua concessão renovada, e um jornal multado por publicar um editorial sobre sua filha, irritaram Chávez durante a coletiva de imprensa:

- Você é bem vindo como cidadão sul-americano, mas O Globo não - disse Chávez, que confundiu os dois órgãos, jornal e tevê, e acusou o repórter de fazer perguntas mal-intecionadas. O presidente disse que ele estava se intrometendo na soberania do país e que o jornal apóia os interesses americanos contra ele.