De volta, a Lei Ricupero às avessas II
Vinda de missão de alto nível dos EUA derruba tese de antiamericanismo criada pela imprensa
Quando o comentário sobre a manipulação da entrevista do ex-embaixador Roberto Abdenur na revista Veja foi postado, tentando mostrar ao eleitor um pouco dos truques de edição e diagramação que podem levantar ou derrubar uma notícia, o assunto ainda não havia repercutido. A entrevista começou a circular ainda no sábado, mas os jornais hibernam de sexta-feira à noite até domingo à tarde, e somente ontem, terça-feira, começaram a pipocar as reações à entrevista.
As repercussões são tão previsíveis que não fariam falta se não fossem publicadas. Elas limitam-se a entrevistas com personalidades contrários à política externa ou adversários do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. De nenhum deles, se esperaria, inclusive, o mesmo comportamento de Abdenur, que reconheceu - mas a revista esconceu - os avanços no trabalho do Itamaraty dos últimos anos.
Todos os textos de opinião, incluindo o de Miriam Leitão no O Globo de ontem e o editorial do O Estado de S.Paulo de hoje, pecam pelo excesso de emoção e falta de informação. Clóvis Rossi, da Folha escapa da mesmice. Mesmo cobrando explicações do ministro Amorim sobre a “doutrinação” de diplomatas, ele detectou “contradições insanáveis entre o que Abdenur diz em um momento e o que afirma no momento seguinte”.
Diz ele:
O diplomata ataca um suposto (ou real) viés “vagamente anticapitalista, antiglobalização, antiamericano, totalmente superado” na diplomacia do governo Lula.
No momento seguinte, diz textualmente: “O governo Lula tem merecido respeito mundo afora por conciliar uma política econômica pragmática com políticas sociais efetivas e uma POLÍTICA EXTERNA SÉRIA”. De duas uma: ou a diplomacia brasileira tem um viés “totalmente superado” ou é “séria”.
Não dá para ser as duas coisas a um só tempo.
Também não combina o suposto viés “antiamericano” com a avaliação do próprio embaixador de que “a relação do Brasil com os Estados Unidos prosperou significativamente nos últimos anos” e “nunca esteve tão bem”.Como é possível que um viés antiamericano conduza a uma relação com os Estados Unidos melhor que nunca?
O resultado do “antiamericanismo” denunciado está hoje em todos os jornais mais influentes. Todos informam sobre a presença no Brasil missão de alto nível enviada pelo presidente dos EUA, George W. Bush, para a discussão de uma “parceria estratégica” entre os dois países para a produção de etanol.
A missão norte-americana é chefiada pelo subsecretário de Estado para assuntos políticos do governo americano, Nicholas Burns. Apenas o Valor sublinha sua importância:
Burns chegou ontem ao Brasil, para uma visita de dois dias, acompanhado pelo secretário assistente de Estado para assuntos da América Latina, Thommas Shannon. Hoje eles se reúnem em Brasília com autoridades do governo federal.
Apesar da falta de detalhes, impressiona o destaque dado por uma missão de alto nível americana à questão dos biocombustíveis, recentemente alçada a política de Estado nos EUA com a decisão do presidente George W. Bush de substituir 20% do consumo de gasolina por biocombustíveis. “Será preciso muito trabalho para fazer isso.”
Para Burns, a aproximação nesse setor é “o marco simbólico de uma nova e forte parceria com o Brasil”, classificado por ele como o parceiro mais importante dos EUA na região, apesar de os dois países terem “às vezes perspectivas diferentes” em algumas questões.