Fevereiro 2007
Arquivo Mensal
Arquivo Mensal
Publicado por Alceu Nader em 28 Fev 2007 | sob: Notícias
Por ignorância - que não é pecado e tem cura - O Estado de S.Paulo perdeu hoje excelente oportunidade para acrescentar uma informação importante ao debate sobre o aquecimento global.
A reportagem “O lucro das lâmpadas ‘ecológicas’” trata da evolução da receita das maiores produtoras de lâmpadas do mundo, por conta das vendas crescentes das lâmpadas fluorescentes de uso residencial. A reportagem, pena, limitou-se ao blá-blá-blá característico dos releases das assessorias de imprensa, com pérolas como “em tempos de preocupação com mudanças climáticas, o que é verde, definitivamente, vende”, ou que as lâmpadas não-incandescentes são “mais eficientes do ponto de vista de consumo de energia, ajudam a economizar na conta de luz, além, claro, de engordar os lucros das empresas por agregar bem mais valor que as incandescentes”.
Sobre os benefícios para o consumidor, ou a estimativa aproximada do custo das lâmpadas fluorescentes no orçamento doméstico, ou ainda sobre o domínio absoluto do “Made in China” nas marcas encontráveis nas gôndolas dos supermercados, nada. O leitor do Estado não deve ser do tipo que tenha essas preocupações ambientais e orçamentárias.
Além da ausência de informações básicas para o consumidor – levando-se em conta que os jornais são impressos para o cidadã, e não para o mercado de lâmpadas – o Estado perdeu a oportunidade de informar que, desde o dia 20 passado, vigora, na Austrália, a lei que estipula o fim das lâmpadas comuns até 2010, exceto nos casos em que elas forem insubstituíveis, como nas salas de cirurgia dos hospitais, por exemplo.
O motivo da decisão australiana é o mesmo da reportagem do Estado sobre o crescimento do mercado de lâmpadas fosforescentes: a sustentatibilidade, a economia de 80% no consumo de energia, e seus reflexos na elevação da temperatura global.
A Austrália é, até o momento, o único país a declarar a aposentadoria da invenção revolucionária de Thomas Edison, de 1879. A substituição da lâmpada com filete incandescente pela lâmpada fria fosforescente pode ser rotulada de “cosmética”, é verdade, principalmente porque o governo do conservador John Howard recusa-se a assinar o Protocolo de Kyoto, que propõe a ação conjunta dos países para redução do aquecimento global.
A notícia foi divulgada com destaque em vários jornais importantes do exterior. Com as reportagens, os jornais também aportaram ao debate as estimativas de quanto os países poderiam economizar, caso resolvessem adotar a proibição. A proibição australiana também chegou às redações dos jornais brasileiros, por meio das agências internacionais, mas não lhe deram importância. Venceu a intenção do release da assessoria de imprensa.
Publicado por Alceu Nader em 28 Fev 2007 | sob: Notícias
A resistência da grande mídia em aceitar diferenças retorna aos jornais, mais uma vez com as declarações do ex-embaixador do Brasil nos EUA, Roberto Abdenur, que ontem compareceu no Senado, a convite do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) - aquele que introduziu Marcos Valério no financiamento de campanhas políticas - para explicar suas denúncias veiculadas na revista Veja. A Folha de S.Paulo confunde-se de Eduardo: disse que o ex-embaixador foi convidado por Eduardo Suplicy (PT-SP). Grave? Sim, mas acontece com freqüência quando a cobertura é feita de orelha.
Nos demais jornais - alguns poucos, outros mais - a ida de Abdenur ao Senado ressuscita a estratégia de supervalorizar as denúncias vazias do ex-embaixador. Na primeira onda denuncista, ganhou peso a entrevista à Veja. Nela, entre outras denúncias (vide posts anteriores, por favor), ele acusou a política externa brasileira de ser anti-americana.
A campanha noticiosa que a revista abriu foi prontamente abraçada pelos jornais nas “repercussões”, e com igual barulho. A aposta era firme para a criação de nova crise no governo, desta vez desqualificando a política externa dos últimos anos. Mas, para azar deles, o noticiário emulado foi surpreendido com o desembarque, em Brasília, da missão norte-americana de primeiro nível, portadora do convite dos EUA para o Brasil ser sócio no megaprojeto de expansão da produção de biocombustível.
Os jornais contorceram-se em editoriais e novas reportagens para manter a verdade noticiada, muito diferente da verdade dos fatos.
Sintomaticamente, no noticiário sobre a ida do ex-embaixador ao Senado, os jornais de hoje não martelam mais na denúncia de anti-americanismo do governo Lula. Convenientemente, deixaram de lado essa argumentação, que não se sustenta mais. Afinal, há quase duas semanas, quase que diariamente, o noticiário continua explorando detalhes do que pode sair da parceria oferecida pelos EUA - a “Opep do etanol”. Mais: como segurar a denúncia de anti-americanismo ao lado das notícias sobre os preparativos da visita de Bush ao Brasil, no final semana que vem?
Restou-lhes carregar as tintas nas denúncias de ideologização do Itamaraty.
A denúncia mais grave de Abdenur nesse quesito – de que as promoções no Itamaraty vêm sendo mais influenciadas pela preferência partidária do que pela competência – foi desmentida pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Em mais de uma entrevista, ele pediu a Abdenur para apontar um único caso onde a grande inversão de valores teria ocorrido. Abdenur calou.
Ontem, esperava-se que ele desse nomes aos bois no Senado, mas nada. Os senadores aventaram até mesmo a possibilidade de promover uma reunião secreta para que Abdenur pudesse listasse os diplomatas que foram beneficiados ou prejudicados por essa prática. Mas desistiram. Por que? Os jornais não informam o porquê. Preferem reafirmar que Abdenur “reforça” (Folha e Estado) ou que “ratifica” (Globo) as críticas contra “a cúpula do Itamaraty de contaminar a carreira diplomática com questões ideológicas”, como publica o mesmo Globo hoje.
A dificuldade da grande mídia em aceitar pensamentos diferentes dos seus foi, mais uma vez, exposta na entrevista com o economista Tom Trebat, publicada no Estado do último domingo. Apresentado pelo jornal como “brasilianista da Universidade de Columbia”, Trebat, na verdade, é diretor-executivo do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Columbia, e ex-diretor da divisão de América Latina do Citigroup - em resumo, alguém que não pode ser taxado de esquerdista ou petista-lulista.
O jornalista Pedro Dória perguntou-lhe:
Apesar do bom relacionamento entre Bush e Lula, discute-se nas últimas semanas se a diplomacia brasileira tem hoje um certo acento anti-americano.
Trebat respondeu:
Ninguém aqui (nos EUA) teme que o Brasil seja anti-americano. O que há é que o Brasil está muito acostumado a ver o mundo pelo viés dos governos dos EUA. E agora isto está mudando. Cada vez mais, as relações entre os dois países se dará no setor privado, com pouca participação governamental.
Sublinho: O que há é que o Brasil está muito acostumado a ver o mundo pelo viés dos governos dos EUA.
A boa entrevista colhida por Pedro Dória insistiu em outra fixação da grande mídia: Hugo Chávez. De novo, o brasilianista confirmou que o presidente venezuelano incomoda muito mais as famílias que controlam a mídia na América Latina do que o governo de Bush:
Ele faz barulho, mas não é uma ameaça para os EUA. Só cria instabilidade política. Pode ser que eu esteja enganado, mas acho que o auge de Chávez já passou. Quando Felipe Calderón ganhou no México, em parte pelo medo de “chavização” do país, Rafael Corrêa teve de mudar de linha, no Equador. Eu não exageraria a importância prática de Chávez. Mas também não existem vozes para contradizê-lo na América Latina. Ele fala as coisas mais absurdas, numa base diária, e não há ninguém, não há uma voz erguida para dizer que os gastos fiscais de seu governo são um desastre, que suas políticas são paternalistas, que suas cooperativas não funcionam. Ninguém está a fim de seguir a linha de Chávez, sobretudo no Brasil.
Dória retrucou:
Mas o presidente argentino Néstor Kirchner sugeriu esta semana que Washington quer o Brasil assumindo uma liderança anti-chavista na América Latina.
Trebat respondeu:
Os EUA nunca pediriam ao presidente Lula que tomasse uma posição agressiva contra Chávez. Alguém tem que enfrentá-lo, mas não precisa ser Lula. O Brasil é percebido aqui como um aliado discreto. A visita de Bush não terá por objetivo dividir a América Latina em dois blocos. Para os EUA isso não é necessário e, para o Brasil, não é desejável. O que há é um interesse em construir melhores laços de comércio. Do ponto de vista americano, se você olhar a região, há um problemão na Venezuela, um problema menor na Bolívia, talvez um terceiro no Equador. .. Mas, no resto do continente, o que houve foi um tipo de contra-revolução a favor de líderes moderados, como Lula.
Publicado por Alceu Nader em 26 Fev 2007 | sob: Notícias
Informa o conservador La Nación, de Buenos Aires, com base nos textos distribuídos pelas agências internacionais DPA (Alemanha) e AFP (França), na reportagem “A cadeia O Globo, na mira de Chávez”:
O presidente da Venezuela disse ontem que, no seu país, “há liberdade de imprensa em excesso”, e criticou a cadeia de televisão O Globo (sic), quando seu correspondente em Caracas fez duas perguntas sobre o tema.
O mandatário qualificou os proprietários da emissora como “a mais rançosa extrema-direita” e os acusou de vir, há vários anos, “agredindo a verdade” contra o povo venezuelano e contra ele mesmo, acrescentando, inclusive, a tentativa de “sabotar a integração com o Brasil”.
Chávez reagiu desta maneira quando o correspondente do O Globo lhe perguntou sobre uma recente sanção imposta contra um jornal e o anunciado fechamento de um canal privado. A multa ao vespertino Tal Cual, crítico do governo, foi conseqüência de um artigo de 2005, escrito por um humorista em forma de carta dirigida à filha de Chávez: o autor pedia a Rosinés que fizesse seu pai ser racional e ter mais tolerância com a oposição.Chávez disse que se tratou de uma decisão judicial autônoma, sobre a qual ele não tinha “nada que ver”, e destacou que “há alguns direitos de família e direitos de meninos e meninos” que devem ser protegidos.
“Você é atrevido por emitir opiniões descontextualizando, e já erigindo-se como juiz”, disse o mandatário ao correspondente do O Globo, durante um encontro com jornalistas nacionais e estrangeiros.
“Você veio com uma tarefa para cá; estão te pagando para que você diga coisas que atendem aos interesses da oligarquia brasileira, que é o plano do império norte-americano”, afirmou. E acrescentou: “Infelizmente, você poderá terminar como um filhotinho do império”. Por outra parte, o mandatário afirmou que a não-renovação da concessão para a Radio Caracas Television é um assunto “intrínseco à soberania” da Venezuela. “Ou seja, você está se metendo em algo que é sagrado; a soberania deste país”, advertiu.
O repórter em questão é Pablo López Guelli, “enviado especial” do portal à Venezuela. Sua reportagem sobre o entrevero com o presidente venezuelano - “Venezuela não limita a liberdade de expressão, diz Chávez” - saiu assim no portal de notícias G1:
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirmou neste sábado (24) que há democracia no país e que seu governo não limita a liberdade de expressão. “Aqui tem liberdade de expressão até em excesso, tal e qual [o presidente Luiz Inácio] Lula [da Silva] me disse uma vez”, afirmou Chávez, durante uma entrevista coletiva.
A afirmação de Chávez foi em resposta a uma pergunta do jornalista do G1 enviado a Caracas, que foi sorteado para fazer questões ao presidente venezuelano. A pergunta baseou-se em dois acontecimentos, que foram narrados pelo repórter a Chávez.O primeiro foi uma manifestação, ocorrida na tarde de sexta-feira em Caracas, em apoio a um comediante que foi condenado pela Justiça a pagar US$ 19.600 (cerca de R$ 40 mil) por ter escrito uma carta num jornal local (“Tal Cual”) em que citava a filha de Chávez. O segundo foi a decisão da administração federal de não renovar a permissão de uso da freqüência à Radio Caracas Television, um das mais antigas do pais, e que faz oposição ao governo Chávez.
A pergunta do G1 foi feita ao final da entrevista coletiva. Mas antes mesmo que o jornalista do G1 recebesse o microfone para falar, o presidente disse o seguinte:
“Você é bem-vindo aqui como cidadão sul-americano, mas O Globo não é bem-vindo. É uma cadeia cujos proprietários são a pior espécie da extrema-direita, e é bom que o povo venezuelano saiba disso. Há anos eles atuam contra a integridade da Venezuela, do povo venezuelano e contra mim. Eles estão tentando sabotar minha integração com o Brasil. São oligarquias. Eu espero que você não seja indigno de sabotar minha integração com o Brasil. Caso contrário você estará sendo indigno de ser brasileiro.”
O repórter do G1, que é o portal de notícias das Organizações Globo, foi erroneamente identificado durante a coletiva como jornalista do jornal O Globo, do mesmo grupo. Chávez já havia criticado o jornal em sua recente visita ao Brasil.
Quando Chávez completou o pensamento, o repórter do G1 fez sua pergunta. Visivelmente irritado com a questão sobre a condenação do comediante, o presidente respondeu que foi uma decisão judicial “com a qual eu não tenho nada a ver, absolutamente nada a ver”. “Tentaram superdimensionar uma multa”, completou.Já sobre a não concessão à Radio Caracas Television (RTC), o presidente respondeu: “Que posso responder se é uma atribuição legal e legítima do governo dar ou não concessão a um canal de televisão? Isso não deve ser explicado”, disse Chávez. Ele citou como exemplo que o mesmo acontece com a negação ou a aceitação do beneplácito a um embaixador.
Após responder às perguntas, Chávez atacou o repórter e, novamente, a Globo. “Não vou opinar mais sobre este assunto, que tem a ver com a soberania dos poderes na Venezuela. Você está entrando em algo que é sagrado: a soberania deste país”, afirmou o presidente.Chávez recomendou que o jornalista do G1 se informasse sobre os dois assuntos. E lamentou que “tendo oportunidade de perguntar outras coisas de maior importância” o jornalista tenha preferido falar sobre a condenação do comediante e a não renovação da licença da rádio.
Chávez disse ainda que sabia que o repórter do G1 foi à Venezuela cumprir instruções de seus chefes. “Experimente escrever algo que seus chefes não gostem para ver se eles não te demitem imediatamente. Uma ditadura é o que há em meios de comunicação como ‘O Globo’“, disse.Por último, e após ressaltar que na Venezuela “há democracia”, Chávez advertiu que o jornalista corria “um grave risco”, já que “não conhece a Venezuela, está chegando agora e é audaz ao estar emitindo opiniões”.
A coletiva
A entrevista coletiva estava marcada para começar às 11h da manhã. Os jornalistas tiveram de chegar duas horas antes ao Palácio Miraflores, a sede do governo venezuelano. Mas Chávez só apareceu para a entrevista às 12h30.
Chávez abriu seu discurso criticando aqueles que dizem que a Venezuela está se transformando em uma ditadura ou em uma autocracia. Afirmou que “aqui há total liberdade de expressão”. “É nos Estados Unidos onde existe uma perseguição feroz do pensamento”.
Outro tema abordado por Chávez foi uma suposta conspiração para matá-lo. Disse o presidente ter informações de que há quatro ou cinco loucos que querem matá-lo. Afirmou que agentes do serviço secreto norte-americano estariam envolvidos na trama.
Já no O Globo, os últimos parágrafos da reportagem “Chávez gasta US$ 4,3 bi em armas”, após o intertítulo “Chávez ataca de novo jornal O Globo“, diz:
(…)
Duas perguntas de um jornalista da Rede Globo sobre o destino do canal RCTV, que não terá sua concessão renovada, e um jornal multado por publicar um editorial sobre sua filha, irritaram Chávez durante a coletiva de imprensa:
- Você é bem vindo como cidadão sul-americano, mas O Globo não - disse Chávez, que confundiu os dois órgãos, jornal e tevê, e acusou o repórter de fazer perguntas mal-intecionadas. O presidente disse que ele estava se intrometendo na soberania do país e que o jornal apóia os interesses americanos contra ele.
Publicado por Alceu Nader em 15 Fev 2007 | sob: Notícias
O presidente da República e os governadores do Sudeste deveriam escutar com atenção o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e adotar sua proposta de mudança na legislação penal, dando aos estados autonomia para tratar seus criminosos. O argumento de Cabral é claro: a realidade criminal do Rio de Janeiro e de São Paulo não é a mesma de Rondônia e do Acre.
Os deputados votaram vários projetos ontem em Brasília. Finalmente foi aprovada a punição para o uso de celulares pelos bandidos condenados, e estipuladas as penas para diretores de presídios e agentes prisionais comprovadamente negligentes ou corruptos. Por incrível que pareça, todos os crimes comandados detrás das grades nos últimos anos passaram incólumes. Os chefes do crime organizado que comandaram ações que chocaram o país nos últimos anos - PCC, Fernandinho Beira-Mar etc. - trabalharam livremente, sen qualquer mancha na ficha corrida. Somente a partir da data da publicação da lei, o uso de qualquer meio de comunicação eletrônico pelos condenados constitui-se “falta grave”, com perda de benefícios no regime de progressividade. Para que se tenha idéia do tempo que a Câmara levou para se sensibilizar com o problema, a medida entra em vigor quase 17 anos depois da telefonia móvel ter sido implantada no país.
O primeiro celular do país, por ironia, funcionou no Rio de Janeiro.
Publicado por Alceu Nader em 11 Fev 2007 | sob: Notícias
O Estado de S.Paulo de hoje cai fora do barco furado que embarcou ao dar como verdadeiros os erros a que fora induzido pela entrevista editorializada do ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Roberto Abdenur à revista Veja. O jornal comprara gato por lebre, e investiu pesado na denúncia de antiamericanismo e promoções por afinidade ideológica que a revista magnificou. Até editorial rendeu criticando a “agenda embolorada” da política externa.
Mas aconteceu que as denúncias do encerramento melancólico da carreira diplomática de Abdenur seriam desmentidas dias depois com a visita do subsecretário de Estados dos EUA, Nicola Burns. Ele trouxe o assentimento dos EUA à proposta brasileira para que ambos os países investiam juntos, no Brasil e em países pobres da América Latina e da África, num projeto global de produção de etanol que, agora, com a luz de emergência acesa pelo aquecimento global, ganha proporções globais. Brasil e EUA respondem, hoje, por 70% do etanol vendido em todo o mundo.
Ocorre que a tecnologia utilizada pelos EUA é de etanol extraído de grãos, particularmente milho, cuja prioridade é alimentar seres humanos e rebanhos para abate. A demanda por milho combustível poderia estourar as economias de países onde o milho é ingrediente básico da alimentação da população, como é o caso do México, ou de países que dependem da importação de grãos para a segurança alimentar, como é o caso da Argélia e outros países africanos.
O início das negociações para a criação do projeto Brasil-EUA transformam em pó-de-traque as denúncias do triste ex-embaixador.
Em sua edição de hoje, o jornal repara o equívoco ouvindo os dois principais atores desse início de entendimentos – Burns e Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores do Brasil.
Várias perguntas do jornal a Burns enfocam as “denúncias” de Abdenur. Por assunto, ele disse o seguinte:
DIÁLOGO SUL-SUL
Disse o ex-embaixador à revista:
“Existe um elemento ideológico muito forte presente na política externa brasileira. A idéia do Sul–Sul como eixo preponderante revela um antiamericanismo atrasado.”
(…)
“A esta altura da vida, com o mundo em transformação vertiginosa, não vale mais valorizar tanto a dimensão Sul-Sul. Isso é um substrato ideológico vagamente anticapitalista, antiglobalização, antiamericano, totalmente superado.”
Diz o subsecretário na entrevista ao Estado:
“Achamos que o Brasil está seguindo uma agenda muito responsável, muito cooperativa, muito positiva na América do Sul e na relação Sul-Sul”.
(…)
“Parece que o Brasil está certo em ter uma orientação Sul-Sul porque é hoje um dos grandes líderes do mundo. O Brasil tem apelo para alguns países pobres porque eles vêem que o Brasil teve sucesso. O Brasil tem laços étnicos e de língua com países africanos, além de com países europeus. Então, se o Brasil pode ter uma boa relação Sul-Sul com países da América Latina e da África, é positivo”.
Na entrevista do ministro brasileiro Estado, várias denúncias são desmentidas:
Afinidade ideológica e promoções no Itamaraty
“É leviano afirmar que as promoções no Itamaraty obedeçam a critérios ideológicos. Isso é uma ofensa”.
Antiamericanismo na diplomacia brasileira
“Não há antiamericanismo. Muito pelo contrário. A busca de parceria não é só a discussão em torno de acordos bilaterais como o do etanol, mas a busca de um diálogo sobre o mundo. Se os EUA percebessem uma atitude antiamericana, você acha que isso ocorreria? A melhor resposta está nos fatos.”
(…)
“Os contatos intensos do presidente Lula com o presidente George W. Bush, muitas vezes por nossa iniciativa e muitas vezes por iniciativa deles. Sempre de maneira produtiva e amistosa. Por exemplo, na discussão em torno do biocombustível, temos o interesse comum em criar o mercado global do etanol. Isso foi uma iniciativa brasileira. Temos também trabalhado juntos no Haiti, sobre o qual eles nos ouvem muito. Há uma relação madura e positiva em relação aos temas do continente.”
Já a revista Veja desta semana omite completamente a vinda da missão dos EUA ao Brasil, bem como o projeto comum entre os dois países para a produção de etanol em escala global. Seus leitores são brindados com a reportagem que remete para a suspensão da bibliografia recomendada pelo secretário-geral do Itamaraty na reportagem
“Sururu no Itamaraty
Está suspensa a leitura engajada. Já a política externa…”
Nela, sobre a “doutrinação”, que
“Até a leitura obrigatória, que Amorim mandou suspender diante da entrevista de Abdenur, foi minimizada pelo chanceler. Ele disse que, de três obras obrigatórias (Chutando a Escada, do chinês Ha-Joon Chang, Rio Branco, de Álvaro Lins, e Brasil, Argentina e Estados Unidos – Da Tríplice Aliança ao Mercosul, de Luiz Alberto Moniz Bandeira), apenas a última poderia ter algum viés esquerdista. Ainda assim, Amorim afirmou que decidiu suspender as leituras apenas para evitar o que chamou de “mal-entendidos” explicitados pela entrevista de Abdenur a VEJA”.
No parágrafo abaixo, a revista acrescenta:
A leitura obrigatória de obras alinhadas com a doutrina nacional-terceiro-mundista do chanceler Amorim foi introduzida pelo secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, no início de 2004. A leitura é parte de um cursinho de duas semanas a que Pinheiro Guimarães submete todos os diplomatas que estão sendo transferidos de posto.
O viés ideológico das aulas, apelidadas no Itamaraty de ‘Escolinha do Professor Samuel’, é inequívoco.
O apelido não é do Itamaraty. Em setembro de 2004, a revista trouxe a reportagem “Escolinha do professor Samuel”, cujo alvo era precisamente o secretário-geral do Itamaraty.
Publicado por Alceu Nader em 08 Fev 2007 | sob: Notícias
Jornais que apostaram na criação de crise, a partir de entrevista publicada na revista Veja, ficam sem ter o quê dizer sobre iniciativa norte-americana
Ontem, editorial do O Estado de S.Paulo condenava:
As aventuras da nova diplomacia brasileira, vagamente antiamericana, antiglobalização e comprometida com uma embolorada agenda do passado, foram denunciadas com grande elegância pelo embaixador Roberto Abdenur numa entrevista publicada pela revista Veja”.
Hoje, o jornal traz como manchete principal que: “EUA querem novo papel do Brasil na AL”. Na verdade, o “novo papel” é a oferta ao Brasil de coordenar, junto com os EUA, um projeto continental de expansão da produção de etanol, a partir da cana-de-açúcar. Dando certo, os países pobres da América Latina que não têm reservas de gás ou petróleo (leia-se a Bolívia, de Evo Morales, e a Venezuela, de Hugo Chávez) teriam nova fonte para combater a pobreza. De quebra, tornaria dispensável a ajuda que Chávez vem oferecendo aos países latino-americanos.
A curva para a direção contrária ao noticiário dos últimos dias deixa, de inicio, várias dúvidas:
Como pode ser que o país mais poderoso do mundo não tenha lido na isenta imprensa brasileira que, na verdade, o governo Lula alimenta hostilidades contra os EUA?
Como pode, por cima de tudo, querer como sócio esse insidioso governo para um projeto estratégico de produção de etanol de proporção continental?
Outra integrante do primeiro escalão do governo dos EUA, a secretária de Estado Condoleezza Rice, também não deve estar a par das denúncias da nossa imprensa. Segundo informam todos os jornais de hoje, ela desembarcará em breve no Brasil para acertar detalhes do encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush.
Outra dúvida: Bush quer se encontrar com Lula para cobrar pessoalmente as razões do nefasto trabalho do Itamaraty?
Para não dar por nulo tudo que publicou nos três últimos dias, na mesma página em que traz o desmentido ao seu noticiário, o Estado usa o senador Jefferson Peres (PDT-AM), mostrando-o indignado com a “doutrinação ideológica” que corre solta no Itamaraty. A reportagem também informa que o ex-embaixador Roberto Abdenur foi convidado a comparecer no Senado na próxima terça-feira, para explicar suas denúncias na revista Veja. O convite atende ao requerimento apresentado pelo ilibado, quase beato, senador Eduardo Azeredo (PDSD-MG).
Outra pergunta se apresenta: O requerimento de Azeredo seria retribuição à solidariedade da maioria dos grandes jornais e revistas durante a apuração das origens do valerioduto?
A Folha de S.Paulo, que não embarcou na mesma canoa furada do Estado e do Globo (este, por obra da colunista Miriam Leitão), acrescenta que o requerimento foi aprovado pela Comissão de Relações Exteriores, chefiada por outro senador acima de qualquer suspeita, o ilibado Heráclito Pontes (PFL-PI).
Deve-se à Folha, mais precisamente ao repórter e comentarista Clóvis Rossi, a aproximação dos fatos noticiados com a realidade. Ontem, Rossi apontou as contradições do discurso de Abdenur na entrevista. Hoje, ele entrevista o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e revela quais são os perigosos autores da bibliografia que o secretário-geral do Itamaraty, vice-chanceler Samuel Pinheiro Guimarães, tentou ao Itamaraty:
Amorim cita alguns dos livros recomendados por seu secretário-geral como prova de que não há um viés ideológico no método.
Um dos livros é do embaixador Álvaro Lins e trata do Barão do Rio Branco, o patrono da diplomacia brasileira. Nada tem, portanto, de esquerdista ou de texto de um simpatizante do atual governo (Álvaro Lins morreu em 1975).
Outro dos livros recomendados é “Chutando a Escada”, do acadêmico chinês Ha-Joon Chang, hoje na Cambridge University, do Reino Unido, que não é exatamente um templo esquerdista. A “escada” do título são ações protecionistas adotadas pelos países hoje ricos, na escalada para a riqueza, mas que, agora, “chutam” para impedir que os países em desenvolvimento as utilizem.
Amorim acha que o ruído despertado pelas recomendações de Guimarães se deve a um livro de Luiz Alberto Moniz Bandeira, professor emérito da Universidade de Brasília, o único dos recomendados que teria um viés esquerdista.
(…)
O Itamaraty adota indicações de leitura em todas as etapas do curso de preparação para a carreira diplomática, desde o Instituto Rio Branco até o curso de Altos Estudos, uma espécie de segundo vestibular, indispensável para ascender na hierarquia. Por isso, recomendações fora da estrutura dos cursos são contraproducentes.
Na reportagem, o ministro ainda apresenta a nomeação de vários embaixadores ligados ao governo de FHC para desmentir a denúncia de privilégios aos que têm a mesma afinidade ideológica.
O Estado também traz entrevista com Amorim, mas não traz palavra sobre os esclarecimentos publicados pela Folha:
Ao falar com a imprensa, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, saiu em defesa da maneira como o atual governo conduz sua política externa. “Vocês falam muito nisso”, disse aos jornalistas.
“Não sei se estão impressionados com entrevistas recentes, mas o diálogo Brasil-Estados Unidos é o melhor possível. O presidente Lula fala com o presidente Bush com relativa freqüência. Meu diálogo com a Condoleezza Rice e os diálogos em variados níveis não podiam ser melhores”, reagiu.
E amanhã, o que trarão os jornais que apostaram na geração da crise no Itamaraty a partir da entrevista na Veja? Vão se desculpar pela má informação aos seus leitores ou dirão que, infelizmente, o governo dos EUA não põe fé na imprensa brasileira?
Publicado por Alceu Nader em 07 Fev 2007 | sob: Notícias
Leitor dá caminho das pedras para audição dos diálogos musicais entre Elis Regina e Tom Jobim
Dia 22 de janeiro passado, postei minha homenagem a Tom Jobim, que estaria completando 80 anos dia 25 de janeiro passado. Minha colaboração foi compartilhar um ensaio quase desconhecido no Brasil de “Águas de Março”, na gravação do Elis Regina e Tom. Hoje, é um dos clássico. Dividi apenas as palavras dos diálogos dos dois construindo a canção, porque meu blog não oferece reprodução de som. Não oferecia.
A reprodução do mp3 do link abaixo tornou-se possível graças à ajuda do leitor Eduardo Esteves, que localizei acompanhando o rastro de seu e-mail para agradecer “pessoalmente” pela ajuda. Veio dele a sugestão em armazenar o arquivo em um endereço global de compartilhamento de arquivos, o 4 Free File Sharing. E deu certo!
Ou ouvidos mais atentos vão perceber que há algo estranho no som, alguma coisa fora de lugar, quando, de repente, começa a conversa entre Elis e Tom. Para mim, foi um impacto inesquecível.
A audição não requer prática, nem tampouco habilidade. Basta clicar no “Ouça” e esperar, na nova página que será aberta, a seta do play que vai aparecer no quadro branco do canto esquerdo do monitor. É só clicar nela.
Recomendo esperar pelo download na íntegra, para evitar cortes e soluços na reprodução.
Vale a pena esperar.
OBS: o link vale apenas por um mês.
Publicado por Alceu Nader em 07 Fev 2007 | sob: Notícias
Vinda de missão de alto nível dos EUA derruba tese de antiamericanismo criada pela imprensa
Quando o comentário sobre a manipulação da entrevista do ex-embaixador Roberto Abdenur na revista Veja foi postado, tentando mostrar ao eleitor um pouco dos truques de edição e diagramação que podem levantar ou derrubar uma notícia, o assunto ainda não havia repercutido. A entrevista começou a circular ainda no sábado, mas os jornais hibernam de sexta-feira à noite até domingo à tarde, e somente ontem, terça-feira, começaram a pipocar as reações à entrevista.
As repercussões são tão previsíveis que não fariam falta se não fossem publicadas. Elas limitam-se a entrevistas com personalidades contrários à política externa ou adversários do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. De nenhum deles, se esperaria, inclusive, o mesmo comportamento de Abdenur, que reconheceu - mas a revista esconceu - os avanços no trabalho do Itamaraty dos últimos anos.
Todos os textos de opinião, incluindo o de Miriam Leitão no O Globo de ontem e o editorial do O Estado de S.Paulo de hoje, pecam pelo excesso de emoção e falta de informação. Clóvis Rossi, da Folha escapa da mesmice. Mesmo cobrando explicações do ministro Amorim sobre a “doutrinação” de diplomatas, ele detectou “contradições insanáveis entre o que Abdenur diz em um momento e o que afirma no momento seguinte”.
Diz ele:
O diplomata ataca um suposto (ou real) viés “vagamente anticapitalista, antiglobalização, antiamericano, totalmente superado” na diplomacia do governo Lula.
No momento seguinte, diz textualmente: “O governo Lula tem merecido respeito mundo afora por conciliar uma política econômica pragmática com políticas sociais efetivas e uma POLÍTICA EXTERNA SÉRIA”. De duas uma: ou a diplomacia brasileira tem um viés “totalmente superado” ou é “séria”.
Não dá para ser as duas coisas a um só tempo.
Também não combina o suposto viés “antiamericano” com a avaliação do próprio embaixador de que “a relação do Brasil com os Estados Unidos prosperou significativamente nos últimos anos” e “nunca esteve tão bem”.Como é possível que um viés antiamericano conduza a uma relação com os Estados Unidos melhor que nunca?
O resultado do “antiamericanismo” denunciado está hoje em todos os jornais mais influentes. Todos informam sobre a presença no Brasil missão de alto nível enviada pelo presidente dos EUA, George W. Bush, para a discussão de uma “parceria estratégica” entre os dois países para a produção de etanol.
A missão norte-americana é chefiada pelo subsecretário de Estado para assuntos políticos do governo americano, Nicholas Burns. Apenas o Valor sublinha sua importância:
Burns chegou ontem ao Brasil, para uma visita de dois dias, acompanhado pelo secretário assistente de Estado para assuntos da América Latina, Thommas Shannon. Hoje eles se reúnem em Brasília com autoridades do governo federal.
Apesar da falta de detalhes, impressiona o destaque dado por uma missão de alto nível americana à questão dos biocombustíveis, recentemente alçada a política de Estado nos EUA com a decisão do presidente George W. Bush de substituir 20% do consumo de gasolina por biocombustíveis. “Será preciso muito trabalho para fazer isso.”
Para Burns, a aproximação nesse setor é “o marco simbólico de uma nova e forte parceria com o Brasil”, classificado por ele como o parceiro mais importante dos EUA na região, apesar de os dois países terem “às vezes perspectivas diferentes” em algumas questões.
Publicado por Alceu Nader em 05 Fev 2007 | sob: Notícias
Veja distorce entrevista com ex-embaixador para reforçar sua idéia pré-concebida sobre política externa do governo Lula
Um dos instrumentos costumeiros que a grande mídia utiliza para impor sua opinião é destacar aquilo que pretende transferir ao público nas partes mais visíveis e lidas de uma reportagem, como título, subtítulo, legendas etc.
Pesquisas, de circulação restrita entre os diretores de redação e editores, confirmam: quase a totalidade dos leitores pesquisados lê o que se destaca nesses campos da página, ao passo que o percentual de leitores que lê as reportagens propriamente diminui na medida em que avança o texto da matéria.
O truque de realçar a informação conveniente ou encomendada pela diretoria, na maior parte das vezes, provoca distorce o que é a pura verdade. Além disso, exige malabarismos extras dos editores que, muitas vezes, entregam-se nas contradições evidentes que surgem depois de uma leitura mais ou menos atenta.
Poucas publicações desempenham essa prestidigitação com a mesma desenvoltura da revista Veja, quando o tema é adesão à Alca. A vítima da semana é a política externa do governo Lula, sobre a qual a empresa e a direção responsáveis pela revista têm opinião formada. Para enfatizar o que já publicou inúmeras vezes nos últimos anos – a idéia de que a política externa dos últimos quatro anos é um rosário de fracassos – a revista traz o embaixador Roberto Abdenur, aposentado na semana passada, na entrevista das páginas amarelas.
O diplomata serviu aos propósitos da revista, embora tenha sido peça importante da mesma política externa que parece condenar– era embaixador do Brasil nos Estados Unidos. O primeiro truque aparece já na capa:
“’Nem na ditadura’ – embaixador denuncia doutrinação no Itamaraty”.
A violência embutida na “denúncia” desconhece a história. Durante a ditadura, diplomatas foram cassados e presos, não faltando, inclusive, a presença de pelo menos um filho de diplomata nas listas de desaparecidos políticos.
Nos campos privilegiados das páginas mencionados no início desse comentário, voltam os demais truques mencionados. O título, na falta de um argumento mais sólido para a “denúncia”, repete a mentira da capa: “Nem na ditadura”. No subtítulo, a “doutrinação” é aprofundada, segundo palavras atribuídas ao entrevistado: “O diplomata diz que a política externa do governo Lula é contaminada pelo antiamericanismo e pela orientação ideológica”.
Na legenda da foto do entrevistado, o reforço da idéia pré-concebida baseia-se em uma impressão pessoal do entrevistado: “’Há um sentimento generalizado de que hoje os diplomatas ao promovidos de acordo com sua afinidade política e ideológica, e não por competência’”.
Os truques se repetem nos dois olhos que se destacam nas perguntas e respostas.
O primeiro intertítulo diz:
“A minha maior crítica está na dimensão exagerada dada à cooperação entre os países menos desenvolvidos como eixo básico da nossa diplomacia. Isso é um substrato ideológico, vagamente anticapitalista, antiglobalização, antiamericano, totalmente superado”.
O segundo:
“Existe um elemento ideológico muito forte na política externa brasileira. Está havendo um esforço de doutrinação. Diplomatas de categoria são forçados a certas leituras quando entram ou saem de Brasília. É uma coisa vexatória”.
Não é bem isso o que o ex-embaixador enfatizou, como se verá na reprodução fiel das perguntas e respostas publicadas. Para facilitar a visualização das conclusões manipuladas da revista, os trechos que desmentem o que a revista ressalta estão em recuo.
Veja – Substantivamente, houve pontos positivos na política externa brasileira no primeiro mandato do presidente Lula?
Abdenur – Sim, sem dúvida. O Brasil engatou uma parceria com Índia, Japão e Alemanha para obter uma cadeira definitiva no Conselho de Segurança da ONU. É luta válida, que vai trazer resultados. Acho muito bom o que o governo tem feito para abrir novas frentes de comércio com países árabes, com o Sudeste Asiático, com a Ásia Central, com a África. Acho muito positiva também a forma inovadora de trabalho com o Ibas (grupo que reúne Índia, Brasil e África do Sul). É a primeira vez que três países grandes, de três continentes diferentes, se unem para buscar iniciativas conjuntas. Acho que o Brasil tem conduzido com amplo equilíbrio e proficiência as negociações da Rodada de Doha. O Brasil é um jogador decisivo, tem uma atuação de liderança no G20 muito importante. Há ainda a questão do Haiti, onde lideramos pela primeira vez uma ação de países latino-americanos em favor da paz. Enfim, houve acertos…
(Perceberam o truque do “enfim, houve acertos”? Parece até que o entrevistado reconheceu apenas um ou dois avanços da política externa. Mas tem mais:)
Veja – E os erros substantivos?
Abdenur – A minha maior crítica à atuação do Itamaraty está na dimensão exagerada dada à cooperação entre os países menos desenvolvidos como eixo básico da nossa diplomacia. Com a queda do Muro de Berlim, desapareceu completamente o paralelo que dividia o mundo em Ocidente e Oriente. O meridiano Norte-Sul não desapareceu de todo, mas se desvaneceu. O diálogo Norte-Sul é uma realidade. A esta altura da vida, com o mundo em transformação vertiginosa, não vale mais valorizar tanto a dimensão Sul-Sul. Isso é um substrato ideológico vagamente anticapitalista, antiglobalização, antiamericano, totalmente superado. A nossa relação com a China e com a Índia também apresenta equívocos. É preciso ter parceria com os dois países, mas eles não podem ser considerados nossos aliados.
(…)
Veja – Como o senhor avalia a relação do Brasil com os Estados Unidos nos três anos em que serviu como embaixador em Washington?
Abdenur –
Pode parecer paradoxal, mas a relação do Brasil com os Estados Unidos prosperou significativamente nos últimos anos. Graças a uma pessoa que manda muito no governo brasileiro, uma pessoa de extremo pragmatismo e lucidez, que é o presidente Lula. Ele não esconde seu desagrado com algumas coisas que o governo Bush tem feito, particularmente no Iraque. Mas Lula sabe que uma relação melhor com os Estados Unidos é de interesse do Brasil.
Quando fui assumir a embaixada, ele me disse: “Roberto, quero deixar como legado para o futuro bases ainda mais sólidas e mais amplas na relação entre os dois países”. Como embaixador, tive algumas dificuldades, mas nada que fosse impeditivo.
Veja – O senhor não deixou o cargo de embaixador espontaneamente, correto?
Abdenur –
Há no Brasil setores, embora minoritários, que têm aversão aos Estados Unidos, inclusive dentro do governo e do Itamaraty. Há esse ranço, mas isso não atrapalhou meu trabalho. A relação Brasil-Estados Unidos nunca esteve tão bem. Lula inclusive deve visitar o presidente Bush nos próximos meses.
Veja – Apesar dessa relação forte com os Estados Unidos, a Alca está em compasso de espera.
Abdenur – O Brasil está, na melhor das hipóteses, deixando de ganhar dinheiro. O mercado americano está se aproximando dos 2 trilhões de dólares. Seria vital para o Brasil ter vantagens preferenciais, de parceria, com os Estados Unidos. Não estou dizendo que deveríamos ter assinado a Alca de qualquer jeito, mas deveríamos ter seguido com a negociação. Os Estados Unidos têm assinado vários acordos de comércio bilaterais, e nós temos perdido competitividade no mercado americano. Nós estamos estacionados há dez anos em 1,4% do mercado americano. Há vinte anos, nossa participação era de 2,2%. Eu lamento que o único aspecto da relação Brasil-Estados Unidos em que não houve progresso tenha sido o comércio. Foram mínimos os recursos alocados para promoção comercial nos Estados Unidos pelo governo brasileiro.
Veja – Qual é a imagem do presidente Lula nos Estados Unidos? Ele ainda é um político respeitado ou sua imagem foi deteriorada pelos escândalos de corrupção?
Abdenur – É uma imagem positiva, os escândalos de corrupção não repercutiram muito por lá. Ele é o líder de uma democracia estável, um governante que tem uma biografia louvável. O governo Lula tem merecido respeito mundo afora por conciliar uma política econômica pragmática com políticas sociais efetivas e uma política externa séria. Isso começou com Fernando Henrique, mas o governo Lula avançou.
A íntegra da entrevista – que desqualifica o título que lhe foi dado, assim como a denúncia de “doutrinação” – pode ser lida, pelos assinantes, no site da revista. Aliás, com o patrocínio do BNDES, do mesmo governo federal que, segundo a revista, persegue os diplomatas com mais violência do que na ditadura.