Grande mídia muda de argumento para requentar denúncias de ex-embaixador

Alceu Nader | Textos | Quarta, 28 de Fevereiro de 2007

A resistência da grande mídia em aceitar diferenças retorna aos jornais, mais uma vez com as declarações do ex-embaixador do Brasil nos EUA, Roberto Abdenur, que ontem compareceu no Senado, a convite do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) - aquele que introduziu Marcos Valério no financiamento de campanhas políticas - para explicar suas denúncias veiculadas na revista Veja. A Folha de S.Paulo confunde-se de Eduardo: disse que o ex-embaixador foi convidado por Eduardo Suplicy (PT-SP). Grave? Sim, mas acontece com freqüência quando a cobertura é feita de orelha.

Nos demais jornais - alguns poucos, outros mais - a ida de Abdenur ao Senado ressuscita a estratégia de supervalorizar as denúncias vazias do ex-embaixador. Na primeira onda denuncista, ganhou peso a entrevista à Veja. Nela, entre outras denúncias (vide posts anteriores, por favor), ele acusou a política externa brasileira de ser anti-americana.

A campanha noticiosa que a revista abriu foi prontamente abraçada pelos jornais nas “repercussões”, e com igual barulho. A aposta era firme para a criação de nova crise no governo, desta vez desqualificando a política externa dos últimos anos. Mas, para azar deles, o noticiário emulado foi surpreendido com o desembarque, em Brasília, da missão norte-americana de primeiro nível, portadora do convite dos EUA para o Brasil ser sócio no megaprojeto de expansão da produção de biocombustível.

Os jornais contorceram-se em editoriais e novas reportagens para manter a verdade noticiada, muito diferente da verdade dos fatos.

Sintomaticamente, no noticiário sobre a ida do ex-embaixador ao Senado, os jornais de hoje não martelam mais na denúncia de anti-americanismo do governo Lula. Convenientemente, deixaram de lado essa argumentação, que não se sustenta mais. Afinal, há quase duas semanas, quase que diariamente, o noticiário continua explorando detalhes do que pode sair da parceria oferecida pelos EUA - a “Opep do etanol”. Mais: como segurar a denúncia de anti-americanismo ao lado das notícias sobre os preparativos da visita de Bush ao Brasil, no final semana que vem?

Restou-lhes carregar as tintas nas denúncias de ideologização do Itamaraty.

A denúncia mais grave de Abdenur nesse quesito – de que as promoções no Itamaraty vêm sendo mais influenciadas pela preferência partidária do que pela competência – foi desmentida pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Em mais de uma entrevista, ele pediu a Abdenur para apontar um único caso onde a grande inversão de valores teria ocorrido. Abdenur calou.

Ontem, esperava-se que ele desse nomes aos bois no Senado, mas nada. Os senadores aventaram até mesmo a possibilidade de promover uma reunião secreta para que Abdenur pudesse listasse os diplomatas que foram beneficiados ou prejudicados por essa prática. Mas desistiram. Por que? Os jornais não informam o porquê. Preferem reafirmar que Abdenur “reforça” (Folha e Estado) ou que “ratifica” (Globo) as críticas contra “a cúpula do Itamaraty de contaminar a carreira diplomática com questões ideológicas”, como publica o mesmo Globo hoje.

A dificuldade da grande mídia em aceitar pensamentos diferentes dos seus foi, mais uma vez, exposta na entrevista com o economista Tom Trebat, publicada no Estado do último domingo. Apresentado pelo jornal como “brasilianista da Universidade de Columbia”, Trebat, na verdade, é diretor-executivo do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Columbia, e ex-diretor da divisão de América Latina do Citigroup - em resumo, alguém que não pode ser taxado de esquerdista ou petista-lulista.

O jornalista Pedro Dória perguntou-lhe:

Apesar do bom relacionamento entre Bush e Lula, discute-se nas últimas semanas se a diplomacia brasileira tem hoje um certo acento anti-americano.

Trebat respondeu:

Ninguém aqui (nos EUA) teme que o Brasil seja anti-americano. O que há é que o Brasil está muito acostumado a ver o mundo pelo viés dos governos dos EUA. E agora isto está mudando. Cada vez mais, as relações entre os dois países se dará no setor privado, com pouca participação governamental.

Sublinho: O que há é que o Brasil está muito acostumado a ver o mundo pelo viés dos governos dos EUA.

A boa entrevista colhida por Pedro Dória insistiu em outra fixação da grande mídia: Hugo Chávez. De novo, o brasilianista confirmou que o presidente venezuelano incomoda muito mais as famílias que controlam a mídia na América Latina do que o governo de Bush:

Ele faz barulho, mas não é uma ameaça para os EUA. Só cria instabilidade política. Pode ser que eu esteja enganado, mas acho que o auge de Chávez já passou. Quando Felipe Calderón ganhou no México, em parte pelo medo de “chavização” do país, Rafael Corrêa teve de mudar de linha, no Equador. Eu não exageraria a importância prática de Chávez. Mas também não existem vozes para contradizê-lo na América Latina. Ele fala as coisas mais absurdas, numa base diária, e não há ninguém, não há uma voz erguida para dizer que os gastos fiscais de seu governo são um desastre, que suas políticas são paternalistas, que suas cooperativas não funcionam. Ninguém está a fim de seguir a linha de Chávez, sobretudo no Brasil.

Dória retrucou:

Mas o presidente argentino Néstor Kirchner sugeriu esta semana que Washington quer o Brasil assumindo uma liderança anti-chavista na América Latina.

Trebat respondeu:

Os EUA nunca pediriam ao presidente Lula que tomasse uma posição agressiva contra Chávez. Alguém tem que enfrentá-lo, mas não precisa ser Lula. O Brasil é percebido aqui como um aliado discreto. A visita de Bush não terá por objetivo dividir a América Latina em dois blocos. Para os EUA isso não é necessário e, para o Brasil, não é desejável. O que há é um interesse em construir melhores laços de comércio. Do ponto de vista americano, se você olhar a região, há um problemão na Venezuela, um problema menor na Bolívia, talvez um terceiro no Equador. .. Mas, no resto do continente, o que houve foi um tipo de contra-revolução a favor de líderes moderados, como Lula.

Chávez enquadra jornalista das Organizações Globo

Alceu Nader | Textos | Segunda, 26 de Fevereiro de 2007

Informa o conservador La Nación, de Buenos Aires, com base nos textos distribuídos pelas agências internacionais DPA (Alemanha) e AFP (França), na reportagem “A cadeia O Globo, na mira de Chávez”:

O presidente da Venezuela disse ontem que, no seu país, “há liberdade de imprensa em excesso”, e criticou a cadeia de televisão O Globo (sic), quando seu correspondente em Caracas fez duas perguntas sobre o tema.

O mandatário qualificou os proprietários da emissora como “a mais rançosa extrema-direita” e os acusou de vir, há vários anos, “agredindo a verdade” contra o povo venezuelano e contra ele mesmo, acrescentando, inclusive, a tentativa de “sabotar a integração com o Brasil”.
Chávez reagiu desta maneira quando o correspondente do O Globo lhe perguntou sobre uma recente sanção imposta contra um jornal e o anunciado fechamento de um canal privado. A multa ao vespertino Tal Cual, crítico do governo, foi conseqüência de um artigo de 2005, escrito por um humorista em forma de carta dirigida à filha de Chávez: o autor pedia a Rosinés que fizesse seu pai ser racional e ter mais tolerância com a oposição.

Chávez disse que se tratou de uma decisão judicial autônoma, sobre a qual ele não tinha “nada que ver”, e destacou que “há alguns direitos de família e direitos de meninos e meninos” que devem ser protegidos.
“Você é atrevido por emitir opiniões descontextualizando, e já erigindo-se como juiz”, disse o mandatário ao correspondente do O Globo, durante um encontro com jornalistas nacionais e estrangeiros.
“Você veio com uma tarefa para cá; estão te pagando para que você diga coisas que atendem aos interesses da oligarquia brasileira, que é o plano do império norte-americano”, afirmou. E acrescentou: “Infelizmente, você poderá terminar como um filhotinho do império”. Por outra parte, o mandatário afirmou que a não-renovação da concessão para a Radio Caracas Television é um assunto “intrínseco à soberania” da Venezuela. “Ou seja, você está se metendo em algo que é sagrado; a soberania deste país”, advertiu.

O repórter em questão é Pablo López Guelli, “enviado especial” do portal à Venezuela. Sua reportagem sobre o entrevero com o presidente venezuelano - “Venezuela não limita a liberdade de expressão, diz Chávez” - saiu assim no portal de notícias G1:

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirmou neste sábado (24) que há democracia no país e que seu governo não limita a liberdade de expressão. “Aqui tem liberdade de expressão até em excesso, tal e qual [o presidente Luiz Inácio] Lula [da Silva] me disse uma vez”, afirmou Chávez, durante uma entrevista coletiva.
A afirmação de Chávez foi em resposta a uma pergunta do jornalista do G1 enviado a Caracas, que foi sorteado para fazer questões ao presidente venezuelano. A pergunta baseou-se em dois acontecimentos, que foram narrados pelo repórter a Chávez.

O primeiro foi uma manifestação, ocorrida na tarde de sexta-feira em Caracas, em apoio a um comediante que foi condenado pela Justiça a pagar US$ 19.600 (cerca de R$ 40 mil) por ter escrito uma carta num jornal local (“Tal Cual”) em que citava a filha de Chávez. O segundo foi a decisão da administração federal de não renovar a permissão de uso da freqüência à Radio Caracas Television, um das mais antigas do pais, e que faz oposição ao governo Chávez.

A pergunta do G1 foi feita ao final da entrevista coletiva. Mas antes mesmo que o jornalista do G1 recebesse o microfone para falar, o presidente disse o seguinte:

“Você é bem-vindo aqui como cidadão sul-americano, mas O Globo não é bem-vindo. É uma cadeia cujos proprietários são a pior espécie da extrema-direita, e é bom que o povo venezuelano saiba disso. Há anos eles atuam contra a integridade da Venezuela, do povo venezuelano e contra mim. Eles estão tentando sabotar minha integração com o Brasil. São oligarquias. Eu espero que você não seja indigno de sabotar minha integração com o Brasil. Caso contrário você estará sendo indigno de ser brasileiro.”

O repórter do G1, que é o portal de notícias das Organizações Globo, foi erroneamente identificado durante a coletiva como jornalista do jornal O Globo, do mesmo grupo. Chávez já havia criticado o jornal em sua recente visita ao Brasil.
Quando Chávez completou o pensamento, o repórter do G1 fez sua pergunta. Visivelmente irritado com a questão sobre a condenação do comediante, o presidente respondeu que foi uma decisão judicial “com a qual eu não tenho nada a ver, absolutamente nada a ver”. “Tentaram superdimensionar uma multa”, completou.

Já sobre a não concessão à Radio Caracas Television (RTC), o presidente respondeu: “Que posso responder se é uma atribuição legal e legítima do governo dar ou não concessão a um canal de televisão? Isso não deve ser explicado”, disse Chávez. Ele citou como exemplo que o mesmo acontece com a negação ou a aceitação do beneplácito a um embaixador.
Após responder às perguntas, Chávez atacou o repórter e, novamente, a Globo. “Não vou opinar mais sobre este assunto, que tem a ver com a soberania dos poderes na Venezuela. Você está entrando em algo que é sagrado: a soberania deste país”, afirmou o presidente.

Chávez recomendou que o jornalista do G1 se informasse sobre os dois assuntos. E lamentou que “tendo oportunidade de perguntar outras coisas de maior importância” o jornalista tenha preferido falar sobre a condenação do comediante e a não renovação da licença da rádio.
Chávez disse ainda que sabia que o repórter do G1 foi à Venezuela cumprir instruções de seus chefes. “Experimente escrever algo que seus chefes não gostem para ver se eles não te demitem imediatamente. Uma ditadura é o que há em meios de comunicação como ‘O Globo’“, disse.

Por último, e após ressaltar que na Venezuela “há democracia”, Chávez advertiu que o jornalista corria “um grave risco”, já que “não conhece a Venezuela, está chegando agora e é audaz ao estar emitindo opiniões”.

A coletiva
A entrevista coletiva estava marcada para começar às 11h da manhã. Os jornalistas tiveram de chegar duas horas antes ao Palácio Miraflores, a sede do governo venezuelano. Mas Chávez só apareceu para a entrevista às 12h30.
Chávez abriu seu discurso criticando aqueles que dizem que a Venezuela está se transformando em uma ditadura ou em uma autocracia. Afirmou que “aqui há total liberdade de expressão”. “É nos Estados Unidos onde existe uma perseguição feroz do pensamento”.
Outro tema abordado por Chávez foi uma suposta conspiração para matá-lo. Disse o presidente ter informações de que há quatro ou cinco loucos que querem matá-lo. Afirmou que agentes do serviço secreto norte-americano estariam envolvidos na trama.

Já no O Globo, os últimos parágrafos da reportagem “Chávez gasta US$ 4,3 bi em armas”, após o intertítulo “Chávez ataca de novo jornal O Globo“, diz:

(…)

Duas perguntas de um jornalista da Rede Globo sobre o destino do canal RCTV, que não terá sua concessão renovada, e um jornal multado por publicar um editorial sobre sua filha, irritaram Chávez durante a coletiva de imprensa:

- Você é bem vindo como cidadão sul-americano, mas O Globo não - disse Chávez, que confundiu os dois órgãos, jornal e tevê, e acusou o repórter de fazer perguntas mal-intecionadas. O presidente disse que ele estava se intrometendo na soberania do país e que o jornal apóia os interesses americanos contra ele.

Maior autonomia para os estados pode ajudar no combate ao crime

Alceu Nader | Textos | Quinta, 15 de Fevereiro de 2007

O presidente da República e os governadores do Sudeste deveriam escutar com atenção o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e adotar sua proposta de mudança na legislação penal, dando aos estados autonomia para tratar seus criminosos. O argumento de Cabral é claro: a realidade criminal do Rio de Janeiro e de São Paulo não é a mesma de Rondônia e do Acre.

Os deputados votaram vários projetos ontem em Brasília. Finalmente foi aprovada a punição para o uso de celulares pelos bandidos condenados, e estipuladas as penas para diretores de presídios e agentes prisionais comprovadamente negligentes ou corruptos. Por incrível que pareça, todos os crimes comandados detrás das grades nos últimos anos passaram incólumes. Os chefes do crime organizado que comandaram ações que chocaram o país nos últimos anos - PCC, Fernandinho Beira-Mar etc. - trabalharam livremente, sen qualquer mancha na ficha corrida. Somente a partir da data da publicação da lei, o uso de qualquer meio de comunicação eletrônico pelos condenados constitui-se “falta grave”, com perda de benefícios no regime de progressividade. Para que se tenha idéia do tempo que a Câmara levou para se sensibilizar com o problema, a medida entra em vigor quase 17 anos depois da telefonia móvel ter sido implantada no país.

O primeiro celular do país, por ironia, funcionou no Rio de Janeiro.

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