Segurança alimentar ameaçada
Uso de grãos para produção de combustível cria, no México, a etanoinflação
Um fato inédito que está ocorrendo atualmente no México, já amplamente noticiado no exterior, não chamou a atenção dos grandes jornais brasileiros, embora devesse. Os mexicanos estão sendo atacados pela etanoinflação, uma modalidade nova de carestia que encarece alimentos, por causa do redirecionamento de produtos agrícolas para a produção de biocombustível. Os preços dos tacos, tortillas e tamoles e uma infinidade de outros patos típicos triplicaram nos últimos meses por causa da escassez de milho nos moinhos e supermercados.
Milho, no México, é mais do que commoditie, não apenas por ser originário da região em que se encontra o território mexicano, nem porque os maias já cultivavam o grão seis mil anos atrás. Além de um bem cultural – nenhum outro país cultiva tantas variedades – o milho também é componente básico da dieta dos mexicanos. Estudos da Universidad Autônoma Nacional do México, divulgados pela revista The Economist, em setembro passado, apontam que 40% da ingestão de proteínas dos mexicanos vêm de pratos preparados à base de milho. Cada mexicano consome, em média, entre 250 e 400 gramas de milho.
“O aumento dos preços das tortillas”, publicou ontem o jornal espanhol El País, “tornou-se tema de debate nacional, só comparável com as medidas de combate ao narcotráfico anunciadas pelo novo governo”. Além de encarecer diretamente o milho, informa ainda o jornal, o preço da carne de frango saltou 45%, e o da carne de porco, 20%, porque o milho também faz parte da alimentação básica desses rebanhos. Como acontece sempre que a inflação explode, os mais pobres são os que mais padecem.
O México produz anualmente 21,3 milhões de toneladas de milho, mas consome 39 milhões de toneladas. Tradicionalmente, o país repõe o déficit com importações dos Estados Unidos, onde os subsídios tornam preço do milho norte-americano imbatível na concorrência com os demais países.
Apesar da desigualdade que os subsídios geram no mercado global, os norte-americanos aceleram a compra antecipada de safras de milho de outros países. No caso brasileiro, como noticiou ontem a Gazeta Mercantil, a procura por grãos para a produção de etanol – milho e algodão, principalmente – multiplicou por cinco as vendas antecipadas das safras nos dois últimos anos. Na bolsa de grãos de Chicago, a maior do mundo, outro indicador concreto: em um ano, o preço do milho dobrou e está em seu maior valor dos últimos dez anos. Além da maior procura por grãos para a geração de combustível, há ainda a crescente demanda por grãos da China, onde, por sinal, o governo proibiu a construção de novas usinas de produção de etanol, a partir da soja.
Somados, o apetite chinês e a disseminação do biocombustível a partir de grãos vão gerar o caos no mercado mundial de alimentos. Quem faz o alerta, também no El País, é o ambientalista mais lido e respeitado do mundo, Lester Brown, diretor do Earth Policy Institute. Ele vai ao encontro de presidentes e mega-empresários do Fórum Mundial de Davos para alertar que “nenhum governo, de Washington ou qualquer outro, está consciente da gravidade da situação”. A crise vivida pelo México, avisa ele, na reportagem do jornal espanhol, é a primeira de uma série e “pode se repetir amanhã” em outros países em desenvolvimento que dependem da importação de grãos para alimentar suas populações.
A estabilidade da segurança alimentar de dezenas de países depende de decisões urgentes, avisa também Andréa Athanas, da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN, The World Conservation Union). A IUCN reúne 78 países, 112 agências governamentais, 735 ONGs e perto de 10 mil especialistas e cientistas de 181 países. Seu prognóstico é igualmente preocupante. Hoje, nos EUA, há 116 usinas de produção de produção de biocombustível em funcionamento, e outras 79 em construção. Quando todas as 295 usinas estiverem em operação, já no ano que vem, serão necessários 120 milhões de toneladas por ano.
O equilíbrio, mais uma vez, depende de medidas de George W. Bush, mas é improvável que ele dê atenção aos argumentos apresentados pelos ambientalistas. Nesta semana, anunciou mais apoio à produção de etanol a partir dos grãos para desviar-se da tragédia que provocou no Iraque.
O Brasil é mencionado na reportagem do El País como o terceiro maior produtor de etanol do mundo, atrás dos EUA e da China. “Mas, ao invés do milho ou da soja, o Brasil utiliza cana-de-açúcar para fabricar o biocombustível. Sua última safra foi recorde, e a indústria brasileira de etanol vai de vento em popa”, diz o jornal.
Será que estamos realmente seguros?