JOBIM 80 ANOS
Raridade pouco divulgada mostra bastidores da criação de um clássico do maestro soberano

Alceu Nader | Textos | Segunda, 22 de Janeiro de 2007

Elis e Tom, em Los Angeles, ensaiam “Águas de Março” numa gravação que nunca saiu no Brasil

Abre-se, na mídia, a semana de reportagens sobre o maestro soberano, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, que estaria completando 80 anos quinta-feira próxima, dia 25. A colaboração do Contrapauta para a temporada será a de mostrar uma raridade que seguramente vai surpreender os leitores que amam ou estudam MPB. O ideal seria contar com a reprodução do áudio, mas o provedor deste blog não oferece essa facilidade. A conversão do original para mp3 está com menos de 2.8 MB. Quem puder ajudar para abrir um link para a audição em outro provedor, será bem-vindo.


Energia criativa: camaradagem e tensão
entre dois gênios da MPB

A bem da verdade, o fonograma não é propriamente uma raridade, pelo contrário. Há alguns anos, era possível comprá-la na Amazon. O disco em questão nunca saiu no Brasil e, talvez por isso, seja tão pouco conhecido. Nenhum crítico famoso ou jornalista especializado, até hoje, festejou a sua existência deste ensaio de “Águas de março” em que Elis Regina e Tom Jobim corrigem e apuram no estúdio um dos maiores clássicos da MPB.

Em 2004, quando a gravação do disco completou 30 anos, a gravadora produziu uma edição remasterizada de “Elis & Tom”, em CD e DVD, mas também ignorou a gravação.


Encontro inesquecível: disco
nasceu de um pedido “caro”
de Elis para a gravadora; Tom
morava nos EUA naquele período

A raridade faz parte do álbum triplo “The Man From Ipanema”, impresso nos EUA, em edição limitada e com acabamento quase artesanal em cada uma das três capas dos CD: uma em formato de concha, outra uma folha e a terceira um peixe. Primoroso.


Ensaio não consta da lista de
músicas do álbum produzido nos EUA

Lá pelas tantas, na 37ª música do disco 3, irrompe a introdução de “Águas de março”. O ouvinte atento vai logo notar que há alguma coisa fora de lugar nos acordes iniciais. Não é engano, estava diferente mesmo. De repente, a música pára e as conversas começam:

Elis – (inaudível)…Peraí
Tom – Aqui tá dividido
Elis – É
Tom – Você tem ‘é o pé, é o chão’
Elis – Eu falo ‘é o pé, é o chão’, você?

(silêncio… os dois parecem estar escutando orientação do produtor Aloysio Oliveira, produtor do disco, que fala da cabine de direção do estúdio…)

Elis – Eu falo: ‘é o pé. Você: ‘ é o chão’,
Tom – O César tem de ter as nossas vozes, Aloysio (referindo-se a César Camargo Mariano, então marido, maestro e arranjador de Elis)

Elis (cantarolando) – Exato. ‘É o pé, é o chão’; falo o chão?
Tom – Ô, meu amor, não! ‘É o pé, é o chão’; eu tô: ‘é a marcha’. Olha aqui, Elis: ‘é o pé, é o chão’; Eu tô: ´é a marcha estradeira’…depois é que vem a brincadeira…

Elis – Eu sei, mas é que eu fiz ‘é o pé, é o chão’, e você fez junto comigo
Tom – Não, mas eu não posso fazer. Eu to errado. Você faz ‘é o pé, é o chão’; eu digo ‘é a marcha estradeira’
Elis – ‘Passarinho na mão’
Tom – ‘Pedra de atiradeira’
Elis – Tá.

(Novo silêncio. Aloysio de Oliveira fala novamente, som inaudível)

Elis – (suspiro profundo)
Tom - TomA…busca um novo, busca dois. (possivelmente, Tom pede um uísque)
Elis – (cantarolando) Piiii-pa-da-papá
Tom - …Quer dizer que…

Aloysio – Você põe o fone meio pra fora do ouvido…
Elis - …Já botei, ó…faz horas que eu tô com ele….
Tom – Pô, que sacanagem…. (ri)
Aloysio – Pode rodar….

(Toca pedaço da introdução e, em seguida, o dueto da improvisação, preservada na gravação oficial)

Elis – (rindo, animada) – Vamos fazer outra vez, vamos? Outra vez?
Tom – Outra! Outra! Aloysio! Tá esquentando, tá esquentando!
Aloysio– Já, já. Você que sai agora…

(mistura de sons, piano, risos de Elis)

Tom – Mas olha aqui…essa tá legal, hem! Tá legal, hem! Hem, minha chapa?
Elis – Tá ficando…
Tom – Tá ficando legas…
Aloysio: Six!

(novo trecho da canção, no dueto entre os dois)…
Tom – Depois da orquestra, eu gravava uma outra, Aloysio.
Elis – ‘É uma cobra, é um pau!’ Tudo então, né? Porque é difícil pegar isso aí do meio.
Aloysio – Mas essa ficou boa…
Tom – Não
Elis – Não, tem erro no final!
Tom – É ilusão de sexo! É ilusão alcoólica! Is a sex illusion, delusion, a….
Aloysio – Então vamos fazer toda…
Elis – Tá, tudo de novo
Tom – Is a alcoholic delusion…
Elis – Então, deixa eu prestar atenção nessa bosta aqui…
Tom – Então, é pra prestar atenção na bosta…
(ruídos)

Tom (cantarolando) – ‘Luluza, luluza, eu vou ficar famoso’ *
Elis (cantarolando) – ‘…Pra me casar contigo’…
Tom – ‘…Depois do Carnaval’.

Aloysio – Ok, ok, ok..

Tom – Escuta, eu quero aquela, aquele, aquele cara cortando pau lá do outro lado do rio….guen-tchi-don-don-di-dá ….ô João, tu não vem almoçar não, pô?
Elis – Guen-tchi-gon-gon
Tom – A introduça! Guen-tchi-gon-gon (acompanhando Elis)
(novos ruídos ambientais no estúdio….)

Fim

*Trecho de “Luzia luluza”, de Gilberto Gil