Pirataria
O BRIC vira CRIB, mas apenas um jornal vê a coincidência

Alceu Nader | Textos | Terça, 30 de Janeiro de 2007

Os quatro países do BRIC, entre eles o Brasil, também são os líderes da pirataria no mundo. A falta de reflexão sobre a coincidência na imprensa é voluntária? Por que esses países servem como exemplo de crescimento, mas não como exemplo de insegurança jurídica?

Intrigante a ausência, nas colunas dos jornalões de hoje, de um comentário, passageiro que fosse, sobre a coincidência da lista dos países líderes em pirataria. O Brasil é o quarto colocado de uma relação de 53 países. Os países campeões são os mesmos do BRIC, a sigla que reúne Brasil, Rússia, Índia e China como potências do futuro. Em ambos os casos, o Brasil está na lanterna. É o que menos cresce e também o que tem menos pirataria.

Apenas o jornal Valor Econômico, na comparação com mais quatro jornalões e seu principal concorrente, a Gazeta Mercantil, viu a coincidência. Sua reportagem vai mais fundo que as demais e é muito mais rica.

A Folha de S. Paulo, além de não ver a sigla BRIC entre os campeões de desrespeito à propriedade intelectual, brinda seus leitores com uma reportagem manca, na qual falta a ordem dos países que antecedem o Brasil. O Correio Brazilienseresume as informações em uma nota, onde também não coube informar quais países vinham na frente da lista. O Globo, O Estado de S.Paulo e a Gazeta Mercantil não comeram mosca. Trazem a classificação dos campeões da pirataria, mas mencionam o BRIC apenas de passagem.

Apenas um jornal compara com os mesmos países que vêm, há meses, servindo como referência quase diária de crescimento econômico, quando convém destacar o fraco desempenho do Brasil entre os maiores emergentes. China, Rússia e Índia são usados no varejo e no atacado como exemplos que o Brasil deveria perseguir para crescer, mas hoje nenhuma coluna ou editorial oferece reflexão sobre a coincidência.

As razões para a omissão podem ser muitas. Nos extremos, vai da preguiça à desonestidade intelectual. Mas, na maioria dos casos, nada se relacionou porque o resultado seria a exposição de contradições e idéias prontas e pré-concebidas a respeito do Brasil. Uma dessas idéias é a de que aqui não há “segurança jurídica” suficiente para atrair investimentos. Com o CRIB, esse argumento morre. Mesmo entre os maiores piratas, o país é o que menos viola a propriedade intelectual. Não é pouca coisa.

A comparação com do Brasil com China, Rússia e Índia, na maioria das vezes, é usada com total impropriedade. Em economia, é o mesmo que comparar jaboticaba com lichi, pinhão e tâmara. Nada a ver com nada.

Três diferenças cruciais explicam a diferença de crescimento entre os países, mas raramente são consideradas nas comparações rasteiras. A China tem “apenas”, cerca de 1 bilhão e 100 milhões de habitantes a mais do que o Brasil. Lá, empresário não recolhe para a Previdência, mas também não reclama do câmbio nem financia campanhas para eleições livres e diretas. A Rússia descobriu-se sobre o segundo maior oceano de petróleo do planeta, perdendo apenas para a Arábia Saudita na contabilidade das reservas conhecidas. Para ser empresário bem sucedido, é indispensável manter relações com o Kremlin e conviver com a temida máfia russa. A Índia fala inglês, principal motivo, ao lado da educação de tradição britânica, da expansão de serviços de telecenter, contabilidade e produção de softwares. Mas a desigualdade é brutal. Milhares de engenheiros produzidos ano após ano convivem com párias e miseráveis que somam a população de pelo menos dois Brasis.

As comparações são inevitáveis, mas perigosas quando se sustentam na ignorância.

Grande imprensa cria nova esquizofrenia: a hipótese do terceiro mandato de Lula

Alceu Nader | Textos | Segunda, 29 de Janeiro de 2007

Para que a ameaça não se concretize, mídia e oposição criam ambiente para o PAC não vingar

Bateu uma nova esquizofrenia na grande imprensa: a possibilidade – hoje inviável por onde quer que se avalie – de Lula tentar alterar a constituição para se re-reeleger para um hipotético terceiro mandato. Para que o diabólico plano dê certo, Lula precisaria cumprir um segundo mandato primoroso, com crescimento econômico e maior distribuição de renda – exatamente o que o Plano de Aceleração de Crescimento (PAC) pretende.

A paúra dos donos da mídia surgiu como balão de ensaio do professor aposentado e fonte preferencial do O Estado de S.Paulo para a cobrança de reformas nas áreas sindical e trabalhista, Leôncio Martins Rodrigues. Há uma semana, em entrevista ao jornal, apesar da advertência repetida - “volto a dizer: não estou prevendo que isso acontecerá” – a fogueira começou com a seguinte pergunta do repórter Gabriel Manzano Filho:

“O PT sabe que não tem candidato presidencial para 2010. O plano ajudaria Lula a ser um grande eleitor nas eleições de 2010?”

Leôncio ponderou que a transferência de voto, no Brasil, é um animal imprevisível e que, se funcionasse, já teria dado certo com o próprio Lula nas duas últimas eleições. Após dizer que o “grande eleitor” da questão “pode funcionar ou não”, o professor arriscou:

“Agora, não é fácil acreditar que, dispondo de uma aprovação, digamos, de 60% ou 65% no seu último ano, e tendo uma quantidade tão grande de subordinados na máquina petista e aliada, gente que não quer perder o conforto do poder, ele mande parar as campanhas em favor de sua permanência. E ainda o discurso de movimentos populares e sindicais, de que se ele sair o neoliberalismo volta e estraga todo o progresso obtido… Volto a dizer: não estou prevendo que isso acontecerá. Estou advertindo para que os analistas e os eleitores pensem nisso com seriedade. Um político competente nunca mostra as cartas que tem na manga”.

Foi o que bastou para assanhar as especulações, a começar pela própria reportagem com Leôncio, que recebeu como título “‘Estratégia é criar condições para um terceiro mandato’”. Estratégia que, no caso, significa o êxito do PAC, apesar das dezenas de cassandras que a grande imprensa convocou para projetar seu fracasso.

A criação de dificuldades para um programa que sequer começou, portanto, não se mostrou suficiente. Desde a publicação da entrevista, os jornais e revistas trataram de disseminar o pavor de um terceiro mandato de Lula. Dois dias depois da entrevista com Leôncio Martins Rodrigues, o mesmo Estado daria a largada à campanha em duas frentes. Numa, a colunista e porta-voz da oposição tucana, Dora Kramer, saiu-se com o texto “É difícil, mas não é impossível”, no qual conjectura sobre as condições ideais para que a ameaça se consume. “Congresso fraco, presidente forte e dono de maioria parlamentar, uma oposição numericamente reduzida e politicamente desarticulada”, aventou, “podem ser o esboço da receita para Luiz Inácio da Silva tentar uma manobra radical: a conquista de um terceiro mandato”. Noutra, o repórter Expedito Filho completou a pauta com a coleta de opiniões entre parlamentares da oposição para a reportagem “Tese de mais 4 anos para Lula inquieta oposição”. Nela, o medo de que o PAC realize seus objetivos é concreto. O texto aponta justamente o perigo de o PAC “ter sido motivado pelo desejo do presidente Lula de pavimentar a estrada para obter um terceiro mandato, mas acabará caindo no vazio por se tratar de uma proposta tímida, baseada no aumento de gasto público e inspirada na onda populista que toma conta da América Latina. Quem faz esse diagnóstico são deputados de oposição. Para eles, há razão para cautela, mas não para pânico, pois não é grande a chance de o PAC ter resultados positivos”.

Portanto, todos podemos dormir tranqüilos, pois vingará a aposta da oposição de que o PAC irá fracassar, como diariamente repetem seus porta-vozes na grande mídia , e impedirá que Lula faça, no Brasil, o que Chávez fez na Venezuela. Os prestimosos articulistas da grande mídia já anteciparam que o PAC será um rotundo fracasso e, com a repetição contínua da derrota antecipada, esperam contaminar a expectativa positiva que se torna necessária para que investimentos em longo prazo se realizem. Mas, se apesar de todas previsões e de toda a torcida em contrário – sem contar os obstáculos que a oposição criará no Congresso, caso ganhe a Presidência da Câmara – a luz vermelha se acenderá novamente para nos alertar do perigo da ditadura do voto.

Segurança alimentar ameaçada
Uso de grãos para produção de combustível cria, no México, a etanoinflação

Alceu Nader | Textos | Quinta, 25 de Janeiro de 2007

Um fato inédito que está ocorrendo atualmente no México, já amplamente noticiado no exterior, não chamou a atenção dos grandes jornais brasileiros, embora devesse. Os mexicanos estão sendo atacados pela etanoinflação, uma modalidade nova de carestia que encarece alimentos, por causa do redirecionamento de produtos agrícolas para a produção de biocombustível. Os preços dos tacos, tortillas e tamoles e uma infinidade de outros patos típicos triplicaram nos últimos meses por causa da escassez de milho nos moinhos e supermercados.

Milho, no México, é mais do que commoditie, não apenas por ser originário da região em que se encontra o território mexicano, nem porque os maias já cultivavam o grão seis mil anos atrás. Além de um bem cultural – nenhum outro país cultiva tantas variedades – o milho também é componente básico da dieta dos mexicanos. Estudos da Universidad Autônoma Nacional do México, divulgados pela revista The Economist, em setembro passado, apontam que 40% da ingestão de proteínas dos mexicanos vêm de pratos preparados à base de milho. Cada mexicano consome, em média, entre 250 e 400 gramas de milho.

“O aumento dos preços das tortillas”, publicou ontem o jornal espanhol El País, “tornou-se tema de debate nacional, só comparável com as medidas de combate ao narcotráfico anunciadas pelo novo governo”. Além de encarecer diretamente o milho, informa ainda o jornal, o preço da carne de frango saltou 45%, e o da carne de porco, 20%, porque o milho também faz parte da alimentação básica desses rebanhos. Como acontece sempre que a inflação explode, os mais pobres são os que mais padecem.

O México produz anualmente 21,3 milhões de toneladas de milho, mas consome 39 milhões de toneladas. Tradicionalmente, o país repõe o déficit com importações dos Estados Unidos, onde os subsídios tornam preço do milho norte-americano imbatível na concorrência com os demais países.

Apesar da desigualdade que os subsídios geram no mercado global, os norte-americanos aceleram a compra antecipada de safras de milho de outros países. No caso brasileiro, como noticiou ontem a Gazeta Mercantil, a procura por grãos para a produção de etanol – milho e algodão, principalmente – multiplicou por cinco as vendas antecipadas das safras nos dois últimos anos. Na bolsa de grãos de Chicago, a maior do mundo, outro indicador concreto: em um ano, o preço do milho dobrou e está em seu maior valor dos últimos dez anos. Além da maior procura por grãos para a geração de combustível, há ainda a crescente demanda por grãos da China, onde, por sinal, o governo proibiu a construção de novas usinas de produção de etanol, a partir da soja.

Somados, o apetite chinês e a disseminação do biocombustível a partir de grãos vão gerar o caos no mercado mundial de alimentos. Quem faz o alerta, também no El País, é o ambientalista mais lido e respeitado do mundo, Lester Brown, diretor do Earth Policy Institute. Ele vai ao encontro de presidentes e mega-empresários do Fórum Mundial de Davos para alertar que “nenhum governo, de Washington ou qualquer outro, está consciente da gravidade da situação”. A crise vivida pelo México, avisa ele, na reportagem do jornal espanhol, é a primeira de uma série e “pode se repetir amanhã” em outros países em desenvolvimento que dependem da importação de grãos para alimentar suas populações.

A estabilidade da segurança alimentar de dezenas de países depende de decisões urgentes, avisa também Andréa Athanas, da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN, The World Conservation Union). A IUCN reúne 78 países, 112 agências governamentais, 735 ONGs e perto de 10 mil especialistas e cientistas de 181 países. Seu prognóstico é igualmente preocupante. Hoje, nos EUA, há 116 usinas de produção de produção de biocombustível em funcionamento, e outras 79 em construção. Quando todas as 295 usinas estiverem em operação, já no ano que vem, serão necessários 120 milhões de toneladas por ano.

O equilíbrio, mais uma vez, depende de medidas de George W. Bush, mas é improvável que ele dê atenção aos argumentos apresentados pelos ambientalistas. Nesta semana, anunciou mais apoio à produção de etanol a partir dos grãos para desviar-se da tragédia que provocou no Iraque.

O Brasil é mencionado na reportagem do El País como o terceiro maior produtor de etanol do mundo, atrás dos EUA e da China. “Mas, ao invés do milho ou da soja, o Brasil utiliza cana-de-açúcar para fabricar o biocombustível. Sua última safra foi recorde, e a indústria brasileira de etanol vai de vento em popa”, diz o jornal.

Será que estamos realmente seguros?

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