Colunistas da Folha confundem opinião pública com opinião da imprensa e forçam a barra nas previsões
Dois dos colunistas da Folha de S.Paulo de hoje se enroscam em seus argumentos para substanciar críticas ao Congresso e ao presidente da República. Clóvis Rossi, ao tratar da autoconcessão, naufragada, de aumento dos salários dos parlamentares, cai em contradição.
De novo, a surrada confusão que a grande mídia faz entre sua própria opinião e a opinião pública verdadeira. Em várias circunstâncias, a confusão se estabelece. Para defender o que julga ser suas causas nobres, a imprensa apropria-se da “opinião pública” e converge suas reportagens, editoriais e colunas para aquilo que pretende. Quando se trata, porém, de responsabilizar a imprensa por eventuais falhas, a opinião pública deixa de ser aquela da qual a imprensa se apropirou para voltar a ser a pública. A prova está no trecho de seu comentário de hoje, “O fim do mundo”. Clóvis Rossi diz que a Mesa Diretora da Câmara pode repor os privilégios parlamentares “aproveitando as tradicionais letargia e distração do público”.
Que público? O da opinião pública que a imprensa acha que representa? Se for esse, quem entra em letargia e dispersão é a imprensa – e mais ninguém.
Faltou dizer quem é o pai-de-santo
A coluna assinada por Eliane Cantanhêde usa a simplificação costumeira da imprensa quando pretende impor o seu relógio para setores imunes ao imediatismo natural da mídia. Nessas, apela para o reducionismo da crítica e previsões despropositadas. Para ela, a permanência de Henrique Meirelles, no Banco Central, e de Guido Mantega, na Fazenda, é indício de que “nada indica que haverá mudanças, boas ou ruins, no segundo mandato” de Lula na Presidência. Assim fácil, ela projeta o futuro sem dar crédito ao pai-de-santo ou bola de cristal que sustenta sua previsão para os próximos quatro anos.
A catástrofe líquida e segura, entretanto, não se traduz em números, nem na redução da confiança da banca internacional em despejar dinheiro no Brasil. Contra a opinião dominante de editorialistas e colunistas, a principal reportagem do Valor Econômico de hoje, “Compra de empresas leva a recorde na captação externa”, informa que, neste ano, o governo e as empresas privadas brasileiras conseguiram US$ 38,91 bilhões em créditos e empréstimos no exterior – “o maior volume da história do país”. No ano. o crescimento foi de 18%; na concessão de empréstimos, outro crescimento percentual expressivo: 83%.
Das duas uma: ou os banqueiros mostram-se dispostos a perder dinheiro no país estagnado que é retratado pela imprensa, ou eles não dão a mínima para as previsões que a grande mídia traça sobre o futuro do Brasil.