Latino-barômetro traz boa avaliação de Lula na América Latina. Mas só a Folha registra
Esta inserção esperou três dias para ser publicada, para não cometer injustiça ou pecar pela pressa. A precaução não se justificou, confirmando, mais uma vez, os argumentos de ocasião dos jornalões. Se condiz com aquilo que seus donos pensam, publica-se; se vai na mão contrária, omite-se.
Estou me referindo ao informe anual do instituto chileno, Latinobarómetro, que, desde 1995, revela, por essa época do ano, o que os latino-americanos pensam sobre seus governos, o que esperam do futuro e suas aspirações sobre viver em democracia. O material, tido como respeitável e repercutido pelos principais meios de informação do Ocidente, ganhou muito espaço nos últimos anos, principalmente porque trazia a má notícia de que o cidadão do continente mostrava-se saudoso com as ditaduras militares que, em épocas diferentes, aterrorizaram o continente. A propósito, estou convencido de que Pinochet não descansará em paz.
O mais recente levantamento saiu na última sexta-feira, com uma boa notícia: a América Latina voltou a acreditar na democracia. De quebra, traz ainda que o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, é o mais bem avaliado dentre os 20 mil entrevistados de 18 países diferentes. O espanhol El País trouxe, no sábado, 7.700 caracteres, duas tabelas, três gráficos e três fotos, ocupando uma página inteira, na reportagem “América Latina volta a acreditar na democracia”. No Brasil, o único jornalão a abrir espaço foi a Folha de S.Paulo, com 3.900 caracteres. No Correio Braziliense, O Estado de S.Paulo e O Globo, silêncio profundo e a impressão de censura para temas que mostrem um país diferente do que seus controladores supõem.
Nem sempre houve essa indiferença. Os mesmos jornais que agora ignoram o Latinobarómetro, até bem pouco tempo, mostravam maior interesse por seus números. O Estado, por exemplo, em 29 de outubro passado, coincidentemente no mesmo dia do segundo turno, trouxe curiosa entrevista com a diretora do instituto, Marta Lagos, na qual ela apontava a indiferença do eleitor latino-americano em eleger um “governante arranhado por escândalos”. Qualquer semelhança, terá sido mera coincidência. Na sua avaliação, Marta Lagos concluiu que eleitor latino americano mostrava-se “acostumado com regimes em que há corrupção”. A bronca era outra. “Esse mesmo eleitorado”, disse, “se sente hoje enganado pelo processo de privatizações, que lhe foi (mal) vendido como uma panacéia de prosperidade que não resolveu os problemas do País, segundo a compreensão dos segmentos mais pobres”.
Seguem, abaixo, alguns trechos da reportagem do El País (os títulos em negrito são do blog):
Avaliação da democracia
“O otimismo democrático apóia-se em dois fatores principais, segundo a diretora do Latinobarómetro, Marta Lagos: ‘É um dividendo das eleições e uma conseqüência da bonança econômica’, explica. Efetivamente, 2006 foi um ano eleitoral intenso, com eleições presidenciais em 12 países. Segundo Lagos, assiste-se, na América Latina, ao fortalecimento de uma ‘democracia experimental’: as pessoas estão se convencendo das vantagens do pluralismo político quando experimenta seu funcionamento nas urnas”.
Prosperidade econômica
“A prosperidade econômica também está claramente vinculada com o maior respaldo à democracia. Em 2006, o crescimento do PIB na região será maior do que 3,5% pelo terceiro ano seguido, e essa melhora coincide com um aumento de cinco pontos na opinião de que ‘a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo’. Desde a primeira vez que o barômetro fez essa pergunta, em 1977, é surpreendente a coincidência entre as opiniões a favor da democracia e o estado da economia: o apoio à democracia era de 63% em 1997, caiu para 48% em 2001, quando a região teve taxas negativas de crescimento, e voltou este ano para 58%”.
Parlamento e mobilizações de protesto
“Outro matiz que deve ser acrescentado a esse respaldo à democracia são aqueles que o Latinobarómetro chama de ‘rebeldes cívicos’, os cidadãos que duvidam da eficiência do voto e rechaça a participação convencional na vida política. Formas habituais de participação, como sobre política, assinar uma petição ou assistir a uma manifestação sofreram uma queda quase constante nos últimos anos. Também as instituições que fazem a intermediação entre os cidadãos e as autoridades, como os partidos políticos ou o Congresso, sofreram uma perda importante. Mais de um terço dos entrevistados acredita que a democracia poderia funcionar sem os partidos. Os “rebeldes cívicos”, 14% da população, dizem que a maneira mais eficiente para mudar as coisas é participando de movimentos de protesto”.
Enfraquecimento do conceito de direita e esquerda
“Embora os partidos que se apresentaram como de esquerda foram os mais bem sucedidos nas eleições de 2006, a maioria dos latino-americanos define-se como de centro ou de direita. Numa escala de 0 a 10, onde 0 sería a extrema-esquerda e 10 a extrema-direita, a região, em seu conjunto, coloca-se casi no centro, com 5,4. Mais: os que se identificam com a esquerda (nota entre 0 e 3) nunca são mais do que 34% da população. Ao contrario, há países em que cerca da metade da população se considera de direita (entre 7 e 10). ‘É um erro dizer que a América Latina converge para a esquerda’, diz Marta Lagos. “O que se vê com mais clareza é uma renovação das elites”.
Presidentes mais conhecidos e presidentes mais populares
O informe termina com uma classificação dupla dos líderes americanos, segundo o nível de conhecimento dos cidadãos e segundo sua popularidade. Entre os dois presidentes mais conhecidos figuram um de fora da região, George W. Bush, e outro afastado do poder por causa de seu estado de saúde, Fidel Castro. Quando se pede para os entrevistados avaliarem Bush ou Fidel, 21%, em ambos os casos, respondem que não sabem quem é ou não respondem. Este percentual chega a 29% para o venezuelano Hugo Chávez e a 49% para o brasileiro Lula.
Líder latino-americano melhor avaliado
“O líder mais apreciado na América Latina é Lula. Ele recebe a nota 5,8 sobre 10. Em três países, Venezuela, Brasil e Peru, mais da metade da população tem uma avaliação positiva de Lula, com nota igual ou superior a 7. Em seguida, vem a chilena Michelle Bachelet, com 5,5. No fim da fila, estão Fidel Castro (4,4), o peruano Alan García (4,5), George W. Bush e Hugo Chávez (4,6). Marta Lagos conclui que ‘ser líder na América Latina e ter a simpatia dos povos da região, é um assunto difícil’. Por um lado, Hugo Chávez é o presidente eleito que alcançou os maiores níveis de conhecimento. Mas 39% tem uma opinião negativa sobre ele. Lula, por sua vez, é o melhor avaliado, mas é conhecido apenas por 51% da população: ‘Um perfil de liderança positivo ao qual falta aumentar seu nível de conhecimento para ser considerado um líder regional’, diz Marta Lagos”.