Braguinha e James Brown – o andar de cima ficou mais animado neste Natal

Alceu Nader | Textos | Segunda, 25 de Dezembro de 2006

Natal tem dessas coisas. Parece até que aquele Senhor barbudo, lá de cima, escolhe a data para transformar seres humanos em anjos. Foi assim, em 1977, com Charles Chaplin, em 1983 com o pintor catalão Joan Miro, e neste ano com João de Barro (Braguinha), que subiu na véspera, e o “pai do soul” James Brown. Quem dançou ou cantou as letras de Braguinha, ou sacolejou ao som do cantor negro, ganha mais uma conta de nostalgia para acrescentar ao colar que, inescapavelmente, nos aperta o pescoço nesses dias de reuniões familiares, troca de votos e presentes e muita comilança.

Por ser feriado, com exceção dos casos em que o obituário do artista já foi preparado com antecedência, a imprensa é pega de surpresa. De novo, a falsa percepção de que o mundo gira em ritmo mais lento nas páginas dos jornais é interrompida pela realidade: tudo mantém-se como nos demais dias do ano – os jornais é que estão vazios.
A vida de Braguinha foi muito mais rica do que aparece nos jornais de hoje. Por sorte, temos a Internet e os blogs, como o de Luís Nassif, que traz um dos relatos mais ricos sobre a passagem desse brasileiro. Ele diz, com a propriedade de quem conheceu a personagem pessoalmente: “Ao lado de Caymmi, era das derradeiras figuras reverenciais, de uma música que –ao contrário do país—aprendeu a amar e reconhecer os seus velhos”. Recomenda-se a leitura na íntegra, seguindo o link abaixo.


Sobre James Brown, apresentado resumidamente como o “pai do soul” nos sites dos principais jornais brasileiros, o noticiário de amanhã trará certamente mais riqueza de detalhes por causa do material caudaloso que as agências internacionais estão despejando nas redações vazias. Talvez se releve seu lado violento e de adepto das drogas – várias vezes, ele esteve preso por agressão doméstica e posse de substâncias ilegais, principalmente maconha. Brown foi preso pela primeira vez, por furto de carro, aos 16 anos. Talvez se reforce sua influência sobre outros astros da música pop, que vai de Prince a Michael Jackson, passando por Mick Jagger e David Bowie, entre outros, e que o funk abrasileirado das favelas cariocas é obra sua. Talvez, também, se esqueçam de ressaltar que ele foi um dos mais valentes defensores dos direitos civis dos negros dos EUA.

O ex-presidiário tem uma estátua em bronze em Atlanta, onde nasceu; Braguinha foi homenageado pela Mangueira no desfile de 1984, mas mereceu muito mais reconhecimento em vida – o que não aconteceu.

Íntegra de Luís Nassif Yes, nós temos banana

Colunistas da Folha confundem opinião pública com opinião da imprensa e forçam a barra nas previsões

Alceu Nader | Textos | Quinta, 21 de Dezembro de 2006

Dois dos colunistas da Folha de S.Paulo de hoje se enroscam em seus argumentos para substanciar críticas ao Congresso e ao presidente da República. Clóvis Rossi, ao tratar da autoconcessão, naufragada, de aumento dos salários dos parlamentares, cai em contradição.

De novo, a surrada confusão que a grande mídia faz entre sua própria opinião e a opinião pública verdadeira. Em várias circunstâncias, a confusão se estabelece. Para defender o que julga ser suas causas nobres, a imprensa apropria-se da “opinião pública” e converge suas reportagens, editoriais e colunas para aquilo que pretende. Quando se trata, porém, de responsabilizar a imprensa por eventuais falhas, a opinião pública deixa de ser aquela da qual a imprensa se apropirou para voltar a ser a pública. A prova está no trecho de seu comentário de hoje, “O fim do mundo”. Clóvis Rossi diz que a Mesa Diretora da Câmara pode repor os privilégios parlamentares “aproveitando as tradicionais letargia e distração do público”.

Que público? O da opinião pública que a imprensa acha que representa? Se for esse, quem entra em letargia e dispersão é a imprensa – e mais ninguém.

Faltou dizer quem é o pai-de-santo
A coluna assinada por Eliane Cantanhêde usa a simplificação costumeira da imprensa quando pretende impor o seu relógio para setores imunes ao imediatismo natural da mídia. Nessas, apela para o reducionismo da crítica e previsões despropositadas. Para ela, a permanência de Henrique Meirelles, no Banco Central, e de Guido Mantega, na Fazenda, é indício de que “nada indica que haverá mudanças, boas ou ruins, no segundo mandato” de Lula na Presidência. Assim fácil, ela projeta o futuro sem dar crédito ao pai-de-santo ou bola de cristal que sustenta sua previsão para os próximos quatro anos.

A catástrofe líquida e segura, entretanto, não se traduz em números, nem na redução da confiança da banca internacional em despejar dinheiro no Brasil. Contra a opinião dominante de editorialistas e colunistas, a principal reportagem do Valor Econômico de hoje, “Compra de empresas leva a recorde na captação externa”, informa que, neste ano, o governo e as empresas privadas brasileiras conseguiram US$ 38,91 bilhões em créditos e empréstimos no exterior – “o maior volume da história do país”. No ano. o crescimento foi de 18%; na concessão de empréstimos, outro crescimento percentual expressivo: 83%.

Das duas uma: ou os banqueiros mostram-se dispostos a perder dinheiro no país estagnado que é retratado pela imprensa, ou eles não dão a mínima para as previsões que a grande mídia traça sobre o futuro do Brasil.

JORNALISMO COMPARADO
Reportagens sobre a diplomação dos eleitos por São Paulo expõem manipulação dos jornais paulistas

Alceu Nader | Textos | Quarta, 20 de Dezembro de 2006

Leitura comparada dos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo expõe que continua a edição conduzida dos dois maiores jornais paulistas

Os trechos em negrito mostram como os jornais de São Paulo omitem uma informação essencial.

Seguem as íntegras para conclusão dos leitores:

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Folha de S.Paulo

“PALOCCI, BERZOINI E MALUF SÃO VAIADOS NA DIPLOMAÇÃO, EM SP”

Erundina é a mais aplaudida na solenidade; Serra é chamado de sanguessuga e vampiro, mas recebe apoio dos deputados

Platéia se manifestou também contra os ausentes Genoino e Valdemar Costa Neto; Clodovil recebeu um misto de vaias e aplausos

Catia Seabra, José Alberto Bombig

O ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci Filho foi fragorosamente vaiado pelos mais de 300 convidados que assistiram ontem à solenidade de diplomação do governador e dos parlamentares eleitos por São Paulo. Houve gritos e protestos, oriundos inclusive da área ocupada por simpatizantes do PT, seu partido.
As vaias perduraram durante todo o ato de diplomação do deputado eleito, incluindo o percurso do plenário até a tribuna e o trajeto de volta do ex-ministro à cadeira reservada a ele.

Ao descer as escadarias que dão acesso à saída da Assembléia Legislativa, Palocci recuou ao perceber que era esperado por jornalistas e deixou o prédio pelos fundos.
Numa festa desbotada pelos escândalos políticos, Palocci não foi o único a ser vaiado. O presidente licenciado do PT, Ricardo Berzoini, e o ex-prefeito Paulo Maluf (PP) também foram alvos de protestos.
Nem os ausentes foram poupados. O anúncio dos nomes do ex-presidente do PT José Genoino e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que renunciou para escapar cassação, produziu sonora vaia.

Além de Genoino, o presidente da Câmara, Aldo Rebelo, e o presidente do PMDB, Michel Temer, não foram à solenidade. Às voltas com a crise provocada com o reajuste do salário dos deputados, Aldo estava em Brasília. Houve poucas vaias à menção de seu nome.

Valdemar e Genoino não tiveram a mesma sorte. Outros deputados, como João Paulo Cunha (PT), Cândido Vacarezza (PT), Conte Lopes (PTB), e Vinicius Camarinha (PSB) também foram vaiados.
A ex-prefeita Luiza Erundina (PSB) foi a mais aplaudida em plenário. Entre os petistas, o senador reeleito Eduardo Suplicy, o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia, e o deputado José Eduardo Cardozo foram prestigiados por uma platéia em geral hostil.

Sobrou até para o governador eleito, José Serra. No momento de sua diplomação, um dos convidados se levantou e, da galeria, chamou o tucano de sanguessuga e vampiro. Em resposta, o público gritou o nome de Serra, provocando a adesão dos deputados aliados. Em retribuição ao coro, o governador eleito ergueu os braços.

Da galeria, o ex-deputado Pedro Corrêa (PP) - que teve mandato cassado ano passado - assistia à diplomação da filha, Aline, recém-eleita.
Marcada pelo constrangimento, a solenidade teve seus momentos de descontração, como constantes gritos de “lindo” saídos da galeria para o cantor Frank Aguiar (PTB). O deputado eleito foi “homenageado” por “uivos” de seus fãs, em gesto que se repete nos shows. A diplomação do costureiro Clodovil Hernandes (PTC) também foi ruidosa, em um misto de vaias e aplausos.
Após posar para fotos com deputados eleitos e agendar audiências até com petistas, Serra deixou a Alesp esquivando-se das polêmicas: pelos fundos.
A galeria da Alesp tem 234 cadeiras. Pelo menos outras 50 pessoas assistiram à cerimônia de pé. Não foi fixada cota de convidados por diplomado.

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O Estado de S.Paulo

“SOB VAIAS, DEPUTADOS ACUSADOS EM ESCÂNDALOS SÃO DIPLOMADOS EM SP”

Maluf foi um dos principais alvos, mas Palocci, Berzoini e Vadão também não foram poupados na diplomação

Ana Paula Scinocca, Clarissa Oliveira e Silvia Amorim

A diplomação dos 169 eleitos por São Paulo (deputados estaduais, federais, senador e suplentes, o governador José Serra e o vice Alberto Goldman) ontem na Assembléia Legislativa foi marcada por protesto contra parlamentares acusados em escândalos de corrupção. Alguns deputados receberam o diploma de eleito sob vaias do público: o ex-prefeito Paulo Maluf (PP), o presidente licenciado do PT, Ricardo Berzoini, o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci (PT) e o deputado Vadão Gomes (PP).

O ex-deputado Valdemar Costa Neto (PL) e o ex-presidente do PT José Genoino, mesmo ausentes, não escaparam das manifestações. O presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B), e os deputados Michel Temer (PMDB) e João Mellão (PFL) também faltaram.

Sob suspeita de envolvimento no dossiê Vedoin, Berzoini deixou a sede do Legislativo paulista irritado. Evitou falar das vaias e somente se pronunciou sobre o polêmico reajuste salarial dos parlamentares. O tema foi a principal preocupação de deputados no encontro. Por várias vezes, eles pediram aos jornalistas informações sobre o julgamento do aumento no Supremo Tribunal Federal (STF).

Acusado no esquema do mensalão, o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT) foi um dos poucos petistas a escapar das vaias. Mas, constrangido, evitou a imprensa.
A cerimônia teve momentos de descontração protagonizados pelo estilista Clodovil Hernandez (PTC) e pelo cantor Frank Aguiar (PTB). Estreantes no Congresso, eles arrancaram gritos e aplausos entusiasmados do público. Serra foi aplaudido de pé.

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O Globo

“AUSENTE, ALDO É VAIADO EM ATO DE DIPLOMAÇÃO”

Adauri Antunes Barbosa

O presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo (PCdoBSP), foi vaiado ontem durante a diplomação dos eleitos este ano em São Paulo. Ele não estava presente à solenidade de entrega dos diplomas, realizada na Assembléia Legislativa de São Paulo. Mesmo assim, recebeu vaias do público que lotava a galeria quando seu nome foi chamado. Outros deputados, envolvidos no escândalo do mensalão, também foram vaiados.

A maioria do público, ligada ao governador eleito, o tucano José Serra, também diplomado, começou o coro de vaias quando o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, eleito deputado federal pelo PT, foi receber o seu diploma. Serra e Palocci não falaram nem deram entrevistas.

Em seguida, as vaias foram para deputado reeleito Ricardo Berzoini, presidente afastado do PT, que também recebeu aplausos.

Outro ex-presidente do PT, José Genoino, deputado federal eleito, também não foi à solenidade, mas recebeu muitas vaias misturadas a aplausos, assim como o deputado federal eleito Valdemar Costa Neto (PL), envolvido no mensalão mas reeleito, depois de ter renunciado ao mandato para não ser cassado.
Ao ser chamado para receber o diploma, o ex-prefeito e deputado eleito Paulo Maluf (PP) caminhou devagar, mancando, de bengala, enquanto era vaiado.

Maluf, que recebeu 740 mil votos (a maior votação do país para deputado federal), foi denunciado segunda-feira pelo Ministério Público Federal por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e formação de quadrilha.

— Em 39 anos de vida pública, não tive uma condenação penal e não preciso do foro privilegiado.

Os 740 mil votos que eu tive é porque trabalhei por este estado e vou continuar trabalhando — disse Maluf.

Antes de ser diplomado, Clodovil, que recebeu 493 mil votos, assinou o abaixo-assinado contra o reajuste de 90,7% para deputados e senadores, com bom-humor: — Tudo o que mandarem eu faço. Eu já disse uma vez que, em curral alheio, o boi é vaca.

-Eu não sou contra, não sou a favor, não sou nada. Eu não sei ainda. Vou aprender durante o ano, tanto que meu salário eu já doei. Não quero meu salário injusto, não sei ainda fazer esse trabalho. Então, o primeiro ano vou fazer esse benefício com ele.

Único do PSOL em São Paulo, o deputado federal reeleito Ivan Valente, que era do PT, criticou os líderes que aprovaram os 90,7% de aumento para os parlamentares: — A indignação da população funcionou, a pressão popular de baixo para cima funcionou, e espero que essa pressão popular continue se manifestando com outras questões da agenda política do país — disse.

(…)

(Seguem informações sobre diplomações em outros estados.)

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Fica a pergunta: Por que os jornais de São Paulo não informaram que a claque foi contratada pelo PSDB?

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