O leitor exige nível para todos

Alceu Nader | Textos | Sexta, 24 de Novembro de 2006

O título meio enigmático acima abre a participação do leitor José Pires (a íntegra segue abaixo), contestando parcialmente a inserção da leitora Jussara Seixas e a semelhança de sua participação em outro site claramente eleitoral - no caso, um de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ele também é severo com o Contrapauta. Diz que houve um “deslumbramento” com o que Jussara Seixas escreveu, embora se tratasse de uma versão aproximada de outro texto da mesma leitora, postado em outro blog. E adverte que o desconforto que ele sentiu poderia ter sido evitado, se o jornalista responsável pelo blog fizesse breve pesquisa na internet. Aqui, sua argumentação sólida se desintegra. Vasculhar a internet sobre quem são as pessoas que escrevem nos comentários exigira muito mais horas de trabalho dedicado ao blog para se averiguar a pregressa vida dos leitores que, por convicção ou impulso, se expressam no blog. A roda pega - e pára - justamente porque a dedicação extra exigida pelo leitor invade a carga horária que o jornalista responsável pelo blog tem de cumprir para sobreviver. O não traz nenhum benefício monetário a quem o faz, tampouco é tocado por uma equipe, como muitos leitores supõem.

Recomenda-se a leitura do comentário na íntegra:

O LEITOR EXIGE NÍVEL PARA TODOS

O nome de Jussara Seixas remete a um blog na internet que tem como ilustração principal, que toma todo o espaço superior do blog, uma foto de Lula em campanha com um título enorme acima: “Por um novo Brasil”. Abaixo da foto, também bem grande, tem uma legenda: “Sem medo de continuar sendo muito feliz!!!”, assim mesmo com três exclamações. Ao lado, um ícone com o número eleitoral de Lula e sua foto. Mais abaixo, uma frase de comício: “Lula é meu amigo, mexeu com ele mexeu comigo!”.

O blog é um clipping de notícias da mídia, todos favoráveis ao governo Lula ou contra a oposição. Tem também alguns textos de Jussara Seixas. Todos com o mesmo comprometimento explícito na apresentação do blog e sem nenhuma aparência da independência que ela busca apresentar neste texto.

Algumas frases dela:
“O presidente Lula mostrou que tem a alma e mente iluminada”; “Serra ao invés de ficar xingando os depoentes, tem que apresentar uma defesa consistente, documentada, contra essa documentação em poder dos Vedoin”; “Outras pessoas para serem lembradas, notadas, pessoas que nunca fizeram nada de bom para o povo e para o país, ou dependuram uma melancia no pescoço e dizem que são normais ou apelam para prejudicar, difamar, caluniar pessoas notáveis. Assim fez Bornhausen ao processar o grande Emir Sader, assim faz um tal de Mainardi, ao destilar todo o seu ódio contra o presidente Lula, um tal Reinaldo e outros da casta. Isso é uma prática comum entre pessoas que são verdadeiras toupeiras inúteis.”

Tem uma outra, também muito interessante, que mostra com bastante propriedade o estilo e o comprometimento de Jussara Seixas com o respeito ao leitor e também com a veracidade de suas afirmações:

“A mídia está devendo porque não entregou a derrota do presidente Lula, que foi encomendada e paga.”

Como parte desse assombrosa denúncia, ela também dá os nomes dos jornalistas que teriam seu trabalho “encomendado e pago”:

“É grande a lista dos que receberam um bom dinheiro pela empreitada sem fazer jus a ele: Eliane Cantanhede, Fernando Rodrigues, Josias de Souza, Ricardo Noblat, Merval Pereira, Miriam Leitão, Alexandre Garcia, Jô Soares, William Bonner, Fátima Bernardes, Arnaldo Jabor, Dora Kramer, Renata Lo Prete, Lucia Hypolito, Diogo Mainardi, Clóvis Rossi e outros tantos, menos conhecidos.”

Houve um deslumbramento do responsável por este site com o texto de Jussara Seixas, mas acredito que ele não se deu ao trabalho de fazer sequer uma rápida pesquisa – bastante fácil na internet – para averiguar a qualidade da fonte que estava elogiando. A qualidade, o alto nível, é este que passei para vocês num apanhado rápido.

O texto publicado aqui contém algumas verdades. Infelizmente expressadas como lugares-comuns, mas que nem por isso perdem a veracidade. O recurso nada engenhoso de utilizar o jogo de palavras “leitor/eleitor” (repetido oito vezes) também pouco ajuda, sendo até impróprio para o que defende: desse modo não haveria direitos para aquele que não é eleitor (para pessoas de 16 e 17 anos de idade ou acima de 70 anos bem como para os analfabetos, o voto é facultativo).

Mas concordo que o jornalista não pode recriar os fatos e nem está acima da lei. E também a mídia não pode destruir as pessoas. Mas seria interessante observar também em Jussara Seixas esta preocupação com a “investigação criteriosa” das informações. E não é o que se vê nos textos do seu blog. Seria também muito educativo para esta pessoa que ela se visse confrontada com o fato de que ninguém – e não só o jornalista – está acima da lei. Suas afirmações sobre os jornalistas citados, por exemplo, podem trazer para ela esta experiência nada agradável.

A propósito do Dia da Consciência Negra

Alceu Nader | Textos | Segunda, 20 de Novembro de 2006

No blog do Nassif, um texto espetacular

Na imprensa, bem, na imprensa, quase tudo continua no mesmo lugar dos anos passados

O blog do Luís Nassif tem um texto espetacular, chamado “A intolerância”, enviado por um leitor que assina Weden, que está entre os que oferecem mais reflexão desta temporada de reportagens e estatísticas sobre racismo e consciência negra. É poderoso porque é o relato do “outro lado” que a imprensa burocrática glorifica e acredita piamente estar mostrando para seus leitores. A mesmice traz o bis de novembro do ano passado, com novas pesquisas confirmando o veneno do preconceito que presenciamos em situações corriqueiras e aparentemente inocentes do cotidiano. Quanto mais saudáveis e instruídos são os profissionais de ascendência negra, mais se amplia a diferença salarial com os brancos. Ao invés de incomodar os departamentos de recursos humanos das empresas - aliás, a imprensa premia a política de recursos humanos dessas mesmas empresas - uma história ou outra de um negro que conseguiu vencer o preconceito, e pronto - o prato está servido, até o ano seguinte, quando, novamente, pesquisas substituirão a exploração verdadeira da realidade.

E por que a imprensa não questiona a discriminação racial e econômica que se manifesta nas pesquisas?

O silêncio permite várias suposições. Mas o mais palpável são os cadernos de classificados de emprego, somada à falta de coragem e independência para questionar o cliente.

Não deixe de ler “A intolerância”.

Oportunidade para moralizar a imprensa pode morrer no Senado

Alceu Nader | Textos | Quarta, 15 de Novembro de 2006

Manifeste sua opinião sobre a mudança da Lei de Imprensa que exige que alvos de denúncias sejam ouvidos antes da publicação

O leitor M. Iack chama a atenção para a convocação de um dos paus-mandados da revista Veja para inundar a caixa postal dos senadores contra o projeto de lei que combate a delinqüência editorial.

O projeto apresenta como justificativa a necessidade de “disciplinar a divulgação de informações lesivas à dignidade da pessoa humana”, e insere duas exigências na Lei de Imprensa:

“I - proceder à criteriosa investigação de sua veracidade, bem como da autenticidade dos documentos que porventura lhes sirvam de base;

II - levá-la ao conhecimento daqueles a quem ela se refira, dando oportunidade de manifestação, em tempo hábil antes de sua veiculação.”

O senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), dono de emissoras de rádio na Paraíba, pediu vistas ao processo e apresentou parecer contrário. A matéria precisa ser votada pela Comissão de Educação do Senado para ir à votação do plenário.

Íntegra do projeto em tramitação no Senado

e-mail do senador Antônio Carlos Valadares

e-mail da Secretaria-Geral da Mesa do Senado

Para defender o projeto, escreva no campo assunto do e-mail: “A favor da votação em plenário da PLS 00257/2005″

No campo reservado à mensagem, escreva seu nome, número de RG e órgão expedidor.

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