Visão estreita: presidente eleito do Equador é “amigo de Chávez”

Alceu Nader | Textos | Quinta, 30 de Novembro de 2006

Imprensa brasileira desconhece o que acontece na América Latina, ignora as questões sociais e privilegia problemas dos EUA

Todas as reportagens da grande mídia que apresentam o presidente eleito do Equador no último final de semana, Eduardo Rafael Correa, desde a segunda-feira passada, quando foi confirmada sua vitória, trazem o rótulo “amigo de Chávez”. Algumas reportagens repetem a expressão duas, três vezes, repetindo a mesma técnica que consiste em reproduzir à exaustão sua interpretação ou julgamento premeditado. O resultado é que o esforço para vestir uma personagem com roupa de outra deixa vastos campos de ignorância. A imprensa brasileira, no todo, desconhece o que efetivamente acontece ou que está por vir nos países vizinhos ao Brasil. Esse desconhecimento leva ao demérito antecipado de toda e qualquer iniciativa que vise a união dos países do continente, como pode ser comprovado pelo bombardeio contra o Mercosul e a a incitação para que o Brasil invadisse a Bolívia para proteger as instalações da Petrobras. No caso do Equador, a desinformação é ainda maior porque o país não tem fronteira e, portanto, sem eventos de fronteira que motivem o acompanhamento.

Assim, ao carimbar Rafael Correa como “amigo de Chávez”, um economista com doutorado na Europa (sua mãe é belga) e mestrado nos Estados Unidos, de 43 anos, a imprensa brasileira não faz outra coisa senão renovar seu preconceito com o continente “assolado pela onda populista”.

Além do carimbo pejorativo, a grande mídia, antes de se perguntar porque Correa foi eleito, preocupa-se em antecipar eventuais problemas que o jovem presidente equatoriano deverá enfrentar em duas frentes com os Estados Unidos. Um deles é a base militar norte-americana de Manta, na costa do Pacífico, que Correa já avisou que não quer mais em seu país; outra, é o rompimento do contrato, efetivado em maio passado, entre o governo equatoriano e Occidental Petroleum Corporation, Oxy, que até então era responsável por 20% das exportações de petróleo do Equador. Em ambos os casos, a imprensa nacional cumpre seu papel de intérprete dos interesses do país mais poderoso do mundo.

O caso da Oxy é exemplar, porque também serve para a repetição de outro bordão constante: o da “insegurança jurídica”, freqüentemente apontado como impedimento aos investimentos que a América Latina precisa. A imprensa não expõe em detalhes o rompimento do contrato, pois correria o risco de descobrir contradições em seu discurso. Para não ver a verdade, e mantê-la distante de seus desinformados leitores, aduba suas reportagens com generalizações e clichês como o do “amigo de Chávez”.

O rompimento com Oxy começou há cinco anos, quando o estado equatoriano e a petroleira norte-americana começaram a negociar mudanças nos contratos de participação, saída encontrada pelo Equador para adotar os mesmos passos de seus vizinhos, Venezuela e Bolívia, rumo ao controle, ainda que parcial, da exploração de seus recursos naturais. O petróleo é a principal riqueza equatoriana. Responde por 15% da economia do PIB, 30% dos rendimentos do estado e 40% das exportações. A intenção do governo de participar do controle dos blocos explorados foram questionados pela Oxy, quando foi rompido unilateralmente pelo governo equatoriano. Motivo: sem avisar o governo, apesar das negociações em curso em câmaras de arbitragem internacional, a Oxy vendeu 40% de suas operações no Equador para a filial da canadense Encana nas Bermudas, notório paraíso fiscal. Detalhe: a Oxy respondia por 20% das exportações equatorianas. Consumada a desapropriação, a empresa reivindica indenização de US$ 1 bilhão.

As empresas de petróleo estrangeiras que operam no Equador, inclusive a Petrobras, vão enfrentar duras negociações no governo de Correa. Ele já anunciou que quer renegociar todos os contratos que o país mantém com essas empresas. O objetivo é fazer voltar a paridade de 50% de participação no faturamento entre o estado e as exploradoras, como era antes dos anos 90, quando uma série de medidas liberalizantes resultou na distribuição de 18% dos lucros para o governo e 82% para as empresas.

A imprensa brasileira terá mais motivos para colocar Correa na mesma galeria de Chávez, apesar das enormes diferenças entre um e outro, e manter a ignorância em seu patamar atual. Ele já anunciou que é contra o tratado de livre comércio que seu país vinha negociando com os EUA e é favorável à entrada do Equador no Mercosul.

Corrêa vai assumir o controle de um país miserável, de maioria índia (parte do Equador integrava o antigo império Inca), que tem 20% de sua força de trabalho na Espanha, principal destino da corrente imigratória. Madri, Barcelona e outras grandes cidades espanholas têm bairros inteiros ocupados majoritariamente por equatorianos, e com um particular: ao contrário do homem, o primeiro integrante da família a buscar mehor sorte no estrangeiro é a mulher. As equatorianas se especializaram em acompanhar e cuidar de idosos espanhóis.

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