A propósito do Dia da Consciência Negra
No blog do Nassif, um texto espetacular
Na imprensa, bem, na imprensa, quase tudo continua no mesmo lugar dos anos passados
O blog do Luís Nassif tem um texto espetacular, chamado “A intolerância”, enviado por um leitor que assina Weden, que está entre os que oferecem mais reflexão desta temporada de reportagens e estatísticas sobre racismo e consciência negra. É poderoso porque é o relato do “outro lado” que a imprensa burocrática glorifica e acredita piamente estar mostrando para seus leitores. A mesmice traz o bis de novembro do ano passado, com novas pesquisas confirmando o veneno do preconceito que presenciamos em situações corriqueiras e aparentemente inocentes do cotidiano. Quanto mais saudáveis e instruídos são os profissionais de ascendência negra, mais se amplia a diferença salarial com os brancos. Ao invés de incomodar os departamentos de recursos humanos das empresas - aliás, a imprensa premia a política de recursos humanos dessas mesmas empresas - uma história ou outra de um negro que conseguiu vencer o preconceito, e pronto - o prato está servido, até o ano seguinte, quando, novamente, pesquisas substituirão a exploração verdadeira da realidade.
E por que a imprensa não questiona a discriminação racial e econômica que se manifesta nas pesquisas?
O silêncio permite várias suposições. Mas o mais palpável são os cadernos de classificados de emprego, somada à falta de coragem e independência para questionar o cliente.
Não deixe de ler “A intolerância”.
Alceu, veja então a análise de Marcelo Paixão, muito adequada à data e às análises das estatísticas.
O Estado de S.Paulo, caderno Aliás, 19/11/06.
O mercado é assimétrico e perverso. Mas quem vê?
Na pauta das políticas públicas, as desigualdades raciais passam batido
Marcelo Paixão*
Nessa semana, o IBGE divulgou os dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do período 2002-2006, abordando as diferenças raciais no mercado de trabalho nas seis principais Regiões Metropolitanas brasileiras. Daquele levantamento vemos que no mercado de trabalho metropolitano de nosso país existem fortes disparidades separando pessoas de peles claras e escuras em termos salariais, educacionais e ocupacionais.
O rendimento médio do trabalho dos negros (R$ 660,45) representava metade do rendimento médio das pessoas brancas (R$ 1.292,19). Ao longo daquele período de quatro anos a escolaridade média de um afrodescendente vinculado ao mercado de trabalho permaneceu 1,9 ano inferior do que o das pessoas do outro grupo de raça/cor. Os indicadores disponibilizados igualmente revelaram uma nítida discrepância em termos da qualidade dos vínculos dos grupos raciais ou de cor no mercado de trabalho metropolitano brasileiro. Se na População em Idade Ativa daquelas metrópoles os negros respondiam por cerca de 41% do contingente total, esse mesmo grupo representava 50,8% da população desempregada, 57% dos ocupados no serviço doméstico, 55,4% dos engajados no setor da construção civil.
Apesar das visíveis disparidades entre brancos e negros, nem sempre os analistas do mercado de trabalho entendem tais mecanismos como sendo causados pela discriminação racial. Uma das variáveis que costumam ser mobilizadas para a explicação desse fenômeno vem a ser as diferenças médias em termos de anos de estudos. Outros vetores explicativos comumente mobilizados são as diferenças das regiões geográficas de maior concentração entre brancos (Sul-Sudeste) e negros (Norte-Nordeste), os vínculos diferenciados nos distintos ramos de ocupação e os efeitos derivados da segmentação do mercado de trabalho de nosso país (setores formal e informal). Assim, pode-se ver que a mobilização preferencial dessas dimensões retira do âmbito das relações raciais, tal como praticadas em nosso país, o principal vetor determinante das assimetrias encontradas nas formas de vínculos de brancos e negros no nosso mercado de trabalho.
Alternativamente, quando observamos alguns indicadores com mais detalhes, vemos que aquelas hipóteses são passíveis de críticas. Por exemplo, as diferenças de remuneração no mercado de trabalho brasileiro são maiores justamente entre os trabalhadores que ao menos completaram o 2º grau (diferença de 149% entre brancos e negros). Do mesmo modo, a escola acaba sendo uma instituição que abriga com menos denodo os negros do que os brancos. Senão, como explicar o fato de que entre a população adulta daquelas regiões o percentual de trabalhadores negros com ensino médio completo ser de 28,5%, frente a 45,9% dos brancos? Como entender o motivo pelo qual entre as pessoas brancas com 18 anos ou mais a taxa de freqüência ao ensino superior (25,3%) ser, proporcionalmente, quatro vezes superior à mesma taxa entre os afrodescendentes (8,2%)? Também não é incomum verificarmos explicações que apontam serem essas últimas diferenças causadas pelas assimetrias das condições sociais. Ou seja, os afrodescendentes estudariam menos por serem mais pobres. Ora, por engenhosa que seja essa tentativa de explicação, mais uma vez nos enredamos em um raciocínio que não fecha: as diferenças de remuneração entre brancos e negros são causadas pelas assimetrias em termos de anos de estudos, que por sua vez são causadas pelas assimetrias de remuneração. Nesse caso, parece que estamos diante de uma relação de causalidade de tipo circular que, ao final, parece não conseguir explicar nem as diferenças de remuneração e, tampouco, das médias de anos de estudos entre as pessoas de diferentes raças/cores em nosso país.
Também as explicações de ordem geográfica padecem do fato de não esclarecer os motivos pelos quais as diferenças raciais de remuneração se fazerem presentes em rigorosamente todas as regiões do país. Os demais vetores explicativos de ordem estrutural, como a heterogeneidade e segmentação do mercado de trabalho, quase sempre deixam uma singela pergunta por ser respondida: por que os negros encontram mais facilidade de ocupação justamente nos ramos de atividade mais precários?
Quando apontamos que as diferenças raciais entre brancos e negros no mercado de trabalho brasileiro são geradas pela dinâmica presente do modelo brasileiro de relações raciais, isso não implica que estamos mobilizando apenas um único fator determinante para a explicação das assimetrias verificadas. De fato, é notório que as grandes empresas aplicam práticas de contratação e promoção de pessoal que não raras vezes levam em conta fatores de ordem racial ou de cor. Esse seria um fator discriminatório típico. Por outro lado, tal aspecto não reduz toda a problemática.
É necessário observar o processo de construção de desigualdades raciais em seus aspectos globais envolvendo os motivos pelos quais os negros apresentam piores índices educacionais e de aproveitamento escolar. Por que as áreas em que vivem predominantemente são preteridas em termos de investimentos públicos e mais expostas à violência? Por que ocorre um processo de naturalização dos vínculos dos afrodescendentes com ocupações piores remuneradas e prestigiadas? Finalmente, e essa talvez seja a pergunta mais importante de todas, por que essa questão, de evidentes implicações sociopolíticas, é uma notória ausente da formulação das políticas públicas e das agendas de estudos acadêmicos?
Em suma, o modelo brasileiro de relações raciais consiste em práticas de congelamento de assimetrias raciais. Tal padrão consiste na geração de um imaginário coletivo que passa a considerar natural a interminável reprodução das desigualdades entre os grupos de raça/cor, na invisibilidade das demandas sociais dos contingentes discriminados e na indefinida postergação das ações do poder público no sentido de sua superação. Tais efeitos, quando postos à luz dos indicadores do mercado de trabalho, denotam ser evidentemente perversos, não somente contra os negros e negras brasileiros, mas para toda nação no seu conjunto que, destarte, acaba aproveitando de forma notoriamente insuficiente o potencial criativo de metade de sua população.
*Marcelo Paixão é professor do Instituto de Economia
da Universidade Federal do Rio de Janeiro
PS. No meu blog fiz uma coletânea de textos e contratextos (há uma entrevista com Marcelo Paixão que vale a pena ser lida), quem tiver paciência, seja-bem vindo/a
E para compensar o Nassif abre este post aqui: http://z001.ig.com.br/ig/04/39/946471/blig/luisnassif/2006_11.html#post_18696837
A meu ver no mínimo um desrespeito pela data, mas na verdade só mostra a esquizofrenia daqueles que decidem discutir relações etnico-raciais sem pôr em jogo a sua própria etnicidade.