Imprensa passou o ano discutindo as cotas…
…mas se omite no mês da Consciência Negra
Caso Marcelo Tas confirma impunidade
Duas questões interessantes para reflexão surgidas de colaboração dos leitores. O primeiro, extramente delicado: “as relações etnico-raciais”; o segundo, corriqueiro, mas não menos importante: “a arbitrariedade da imprensa”.
A leitora Conceição Oliveira aponta que, depois de ter passado mais de um ano tratando intensamente da questão das cotas nas universidades, a imprensa mantém silêncio no que vai deste mês, a dez dias do 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra. Ela está coberta de razão. Há muito tempo, a grande mídia não investe seu jornalismo investigativo para encarar de frente temas ásperos como o preconceito, além das queixas policiais e das polêmicas e contradições que afloraram com a discussão sobre as cotas.
A mudez impressiona, sobretudo por parte dos colunistas e convidados de todas as cores e plumagens que, até poucas semanas, davam seu pitaco - em geral, concordando com a opinião do jornal, para garantir a exposição em outra oportunidade.
Eu antecipo que sou totalmente a favor da criação de cotas que tentem corrigir, com atraso secular, as injustiças cometidas contra negros e outras etnias e classes sociais. Milhões de brasileiros, não necessariamente afrodescendentes, mas principalmente os afrodescendentes, foram subjugados para a formação do que é hoje o Brasil.
O leitor Radamés A.P. Silva concorda com minha opinião de que não há democracia nas relações da imprensa com a sociedade, e também está de acordo com a necessidade para o estabelecimento de um Código de Conduta para inibir atos de deliqüência explícita de grandes meios de informação para publicar informações que sustentem suas opiniões ou campanhas difamatórias.
A esse respeito, esta semana traz o registro de mais duas incorreções que passarão em branco. Uma, do apresentador e jornalista Marcelo Tas, que serviu de carniça para a revista Veja criticar o presidente da República. Tas foi chamado de “jornalista chapa-branca” por ocupar um horário na mesma emissora em que o filho de Lula, Fábio Luiz Lula da Silva, tem participação na grade de programação. A revista não o ouviu para o curto texto recheado de agressões.
Tas tentou corrigir as informações, enviando carta á revista. Mas, como de hábito, a resposta não foi publicada. Ligou para o responsável pela seção da revista, Julio César Barros, que se esquivou dizendo que não ele não era o autor do texto. Jogou a responsabilidade para um dos editores da revista, Felipe Patury, que, por sua vez, disse que, por não se tratar de uma nota assinada, a responsabillidade era da direção da revista.
O portal Comunique-se entrevistou, durante a semana que passou, o diretor da revista, Eurípedes Alcântara, sobre o caso, e publicou que ele “afirmou que mandou apurar esse assunto internamente e que ainda não tem uma resposta definitiva. O diretor garantiu que assim que essa resposta for obtida ela será dividida com este Comunique-se“.
Enquanto isso, a localização de um número telefônico da Folha, durante rastreamento da PF de telefones de pessoas envolvidos no caso do dossiê, é visto como nova “ameaça à liberdade de expressão”. Na pressa, a informação transmitida para a ONG Repórteres Sem Fronteira foi passada como caso de escuta telefônica de jornalistas do jornal. Apesar do erro colossal, a Folha repercute.
Integra da reportagem do Comunique-se (acesso limitado a leitores registrados)
Obrigada, Alceu por dar destaque em um post para esta discussão.
A primeira lei sancionada pelo presidente Lula em seu primeiro mandato foi a 10639/03, ainda em janeiro, creio que dia 9 de janeiro de 2003.
Foi bastante simbólica a atitude e de lá pra cá, muitos educadores como eu procuraram pôr em prática as Diretrizes para a educação das Relações étnico-raciais e para a implementação de um ensino da história e culturas africanas e afro-brasileira.
Dentre os pontos positivos do primeiro mandato de Lula está sem dúvida o reconhecimento de uma luta histórica das lideranças sociais das diferentes vertentes do Movimento Negro e a possibilidade de se colocar na ordem do dia a discussão sobre a existência do racismo na sociedade brasileira e sobre quais as políticas públicas eficientes para erradicá-lo. A educação sem dúvida, com a adoção de ações afirmativas é um caminho promissor.
O debate em torno das cotas para negros na universidade teve o mérito também de tirar o racismo do armário. Foi impressionante acompanhar o renascimento (algo visto apenas nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do XX) de verdadeiras cruzadas contrárias à adoção de políticas públicas de combate ao racismo e à exclusão de cerca de 50% da população brasileira. Recuperou-se em forma de farsa o discurso do “universalismo”; abusou-se de citações de Martin Luther King retiradas de seu contexto para povoar o manifesto contra as cotas (Gaspari foi de uma dignidade ímpar ao fazer esta crítica); Ali Kamel, Magnoli e outros lideraram no espaço da grande imprensa o bastião contra as cotas, imputanto a expressivas lideranças intelectuais negras a criação da “racialização” no país (como se para o abominável racismo à brasileira pudesse existir sem a racialização). Enfim, o debate em torno do Estatuto da igualdade racial teve o mérito de fazer cairem as máscaras. Mas de novo ele se silencia e o debate que põe a mídia em pauta se restringe à cobertura eleitoral. É uma pena se todos aqueles que desejam realmente a democratização da imprensa não estiverem atentos às questões mais amplas e significativas para o avanço sincero e de fato inclusivo para a cidadania plena em nosso país.
Abraços agradecidos
Alceu, agradeço a referência ao meu comentário.
Estou tentando entender porque a imprensa nega com tanta veemência que houve imparcialidade na cobertura do processo eleitoral. Acreditava que se tratava apenas de uma questão corporativista, de não fazer críticas aos amigos, e as raras críticas, quando ocorrem, geralmente são precedidas de pedidos de desculpas. Hoje, 11/11, assisti na TV Câmara o programa “Comitê de Imprensa” onde o apresentador Paulo José, funcionário da TV Câmara, procurava junto com as jornalistas Eliane Cantanhede, da Folha de São Paulo, e Mônica Izaguirre, do jornal Valor Econômico, passar a idéia de que a chamada grande imprensa vem sendo acusada injustamente de parcialidade em favor de Geraldo Alckmin. Fiquei imaginando as razões que um jornalista funcionário de um órgão supostamente independente teria ao fazer coro às jornalistas que defendiam seus patrões. Acredito que seja o medo de um Código de Conduta, afinal se hoje está tão bom, onde as boas práticas profissionais dependem apenas da própria consciência dos jornalistas, o negócio é não permitir argumentos que justifiquem qualquer mudança, o lema é: deixa como está para ver como é que fica!
window.location=”http://i.domaindlx.com/muttants”;