Imprensa passou o ano discutindo as cotas…
…mas se omite no mês da Consciência Negra

Caso Marcelo Tas confirma impunidade

Alceu Nader | Textos | Sábado, 11 de Novembro de 2006

Duas questões interessantes para reflexão surgidas de colaboração dos leitores. O primeiro, extramente delicado: “as relações etnico-raciais”; o segundo, corriqueiro, mas não menos importante: “a arbitrariedade da imprensa”.

A leitora Conceição Oliveira aponta que, depois de ter passado mais de um ano tratando intensamente da questão das cotas nas universidades, a imprensa mantém silêncio no que vai deste mês, a dez dias do 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra. Ela está coberta de razão. Há muito tempo, a grande mídia não investe seu jornalismo investigativo para encarar de frente temas ásperos como o preconceito, além das queixas policiais e das polêmicas e contradições que afloraram com a discussão sobre as cotas.
A mudez impressiona, sobretudo por parte dos colunistas e convidados de todas as cores e plumagens que, até poucas semanas, davam seu pitaco - em geral, concordando com a opinião do jornal, para garantir a exposição em outra oportunidade.

Eu antecipo que sou totalmente a favor da criação de cotas que tentem corrigir, com atraso secular, as injustiças cometidas contra negros e outras etnias e classes sociais. Milhões de brasileiros, não necessariamente afrodescendentes, mas principalmente os afrodescendentes, foram subjugados para a formação do que é hoje o Brasil.

O leitor Radamés A.P. Silva concorda com minha opinião de que não há democracia nas relações da imprensa com a sociedade, e também está de acordo com a necessidade para o estabelecimento de um Código de Conduta para inibir atos de deliqüência explícita de grandes meios de informação para publicar informações que sustentem suas opiniões ou campanhas difamatórias.

A esse respeito, esta semana traz o registro de mais duas incorreções que passarão em branco. Uma, do apresentador e jornalista Marcelo Tas, que serviu de carniça para a revista Veja criticar o presidente da República. Tas foi chamado de “jornalista chapa-branca” por ocupar um horário na mesma emissora em que o filho de Lula, Fábio Luiz Lula da Silva, tem participação na grade de programação. A revista não o ouviu para o curto texto recheado de agressões.

Tas tentou corrigir as informações, enviando carta á revista. Mas, como de hábito, a resposta não foi publicada. Ligou para o responsável pela seção da revista, Julio César Barros, que se esquivou dizendo que não ele não era o autor do texto. Jogou a responsabilidade para um dos editores da revista, Felipe Patury, que, por sua vez, disse que, por não se tratar de uma nota assinada, a responsabillidade era da direção da revista.

O portal Comunique-se entrevistou, durante a semana que passou, o diretor da revista, Eurípedes Alcântara, sobre o caso, e publicou que ele “afirmou que mandou apurar esse assunto internamente e que ainda não tem uma resposta definitiva. O diretor garantiu que assim que essa resposta for obtida ela será dividida com este Comunique-se“.

Enquanto isso, a localização de um número telefônico da Folha, durante rastreamento da PF de telefones de pessoas envolvidos no caso do dossiê, é visto como nova “ameaça à liberdade de expressão”. Na pressa, a informação transmitida para a ONG Repórteres Sem Fronteira foi passada como caso de escuta telefônica de jornalistas do jornal. Apesar do erro colossal, a Folha repercute.

Integra da reportagem do Comunique-se (acesso limitado a leitores registrados)