CÓDIGO DE CONDUTA 04
Grande mídia insiste contra fiscalização e democratização na imprensa

Alceu Nader | Textos | Terça, 7 de Novembro de 2006

Ao contrário do que dizem colunas e editoriais, boas práticas jornalísticas garantem a liberdade de opinião e protegem a sociedade dos abusos

Conar, que faz valer o Código de Conduta para a publicidade no Brasil, existe há quase 30 anos, sem nunca ter sido acusado de cercear a liberdade de expressão

Países com democracia mais sólida do que a do Brasil têm conselhos auto-reguladores e derrubam argumentos de que fiscalização sobre a imprensa é exclusivo das ditaduras

Sem saber exatamente no que está atirando, dois colunistas do O Globo de hoje voltam-se novamente contra a criação de uma instância que proteja a sociedade do oligopólio que controla a imprensa e a mídia no Brasil. Luiz Garcia e Miriam Leitão utilizam o mesmo e velho estratagema dos argumentos até aqui apresentados: ambos acenam com o pior dos mundos, mas omitem que, em países de democracia muito mais sólida e estabelecida do que a brasileira, existem, sim, instâncias disponíveis para que a imprensa reconheça e repare seus erros.

A Press Complaint Commission, Comissão de Queixas à Imprensa, da Grã-Bretanha, é modelo e referência para países subdesenvolvidos e em desenvolvimento que decidiram criar comissões auto-reguladoras que funcionam como órgão ouvidor e de conciliação aos pedidos de reparação e correção apresentados pela sociedade. Trata-se de um órgão não ligado ao governo, mas bancado pela própria indústria de mídia, com distribuição de poder e voto que neutraliza o poder de influência da mídia nas decisões tomadas a partir de um Código de Conduta comum a todas os veículos de informação.

Esse Código de Conduta diferencia-se dos bonitos, porém vazios, Códigos de Ética existentes no Brasil. Como já foi dito neste blog, há o dos jornalistas, os das associações empresariais e até mesmo os das empresas do setor. Todos com princípios são louváveis, mas nada práticos. Já o Código de Conduta britânico vai no detalhe e apresenta os limites que a cobertura jornalística deve respeitar, num amplo leque de circunstâncias propícias à ocorrência de erros e abusos da imprensa, que abrange desde abordagem a menores de idade em horário escolar, até regras muito específicas contra a manipulação de informações do mercado financeiro.

Os colunistas do O Globo não reforçam o argumento do diretor de redação da Editora Globo, Paulo Nogueira, de que a Justiça, o consumidor e, por extensão, o deus mercado são suficientes para defender o cidadão e a sociedade contra o mau jornalismo.

Contestar publicamente Paulo Nogueira exige um grau de sinceridade maior para o jornalista responsável por esse blog, pois não se trata apenas de enfrentar uma assinatura de respeito da grande mídia, mas também a de um amigo de redação, com quem a relação de amizade não terminou com a mudança de cargo ou empresa - estando acima, portanto, acima do grau de afeição e estima de colegas contemporâneos de uma redação,

Seu embravecido texto de opinião contra mudanças do establishment de imprensa e mídia traz a tese, repita-se, de que o consumidor, e, por extensão, o mercado é o único autorizado para julgar e interferir sobre a qualidade de informação. Para punir os exageros, continua, tem-se a Justiça. Beleza. O xis é que imprensa e mídia não são atividades de meras relações comerciais, de mercado. Pelo contrário, imprensa e mídia exercem poder e interferem na sociedade com muito mais impacto do que qualquer outro produto disponíveis nos supermercados. Mais: ao contrário de outros produtos, a autonomia e a liberdade de atuação da mídia e da imprensa foram e continuam sendo consolidadas com a participação de dinheiro público nos estímulos, deduções e isenções fiscais. Paulo Nogueira bate, por antecipação, no anúncio de intenção do governo Lula de mexer nas relações de poder do setor. Diz, como Miriam Leitão, que a intenção anunciada de incentivar outras iniciativas, na verdade, pretende facilitar a criação de publicações sabujas, dispostas ao aplauso fácil ao governo de plantão. Ambos sabem também, mas não dizem, que o futuro de veículos de informação que optam por essa postura têm futuro breve e nenhuma credibilidade. Paulo Nogueira pragueja contra a “regulamentação”, mas não diz palavra não contra a “auto-regulamentação”, cuja implementação esse blog tem insistido a favor. É um bom indício.

Recapitulando e simplificando, o que esse blog tem defendido é a criação de um organismo independente nos mesmos moldes do Conar, o Conselho de Auto-regulamentação Publicitária, uma ONG independente que fiscaliza e faz valer o cumprimento do Código Brasileiro de Auto-Regulamentação Publicitária. O Conar existe desde 1978, e foi criado como reação ao governo militar que pretendia instaurar a censura prévia no setor. Desde então, já instaurou 4 mil processos éticos, “e promoveu um sem-número de conciliações entre associados em conflito”, conforme registra seu site. Nunca se denunciou que o Conar inibiu ou constrangeu a liberdade de expressão da criação publicitária – o que é a melhor medida de sua experiência. Falta, apenas, o reconhecimento de que pode ser uma boa solução para defender as empresas que controlam a produção e a distribuição de notícias no país contra qualquer inciativa que ameace a liberdade de expressão.

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