CÓDIGO DE CONDUTA 03
Boas práticas profissionais combatem métodos infames
Transgressão jornalística prejudica profissionais especializados, principalmente médicos e dentistas
Vítimas acreditam estar atendendo a uma consulta, mas, sem saber, estão sendo entrevistados
Em menos de um mês, duas notícias infames chegaram ao Contrapauta, ilustrando o atraso institucional da nossa imprensa. Novamente, a ausência de um Código de Conduta, para preservação das boas práticas profissionais, responde pela arbitrariedade.
Um dos casos chegou ao meu conhecimento durante a consulta com uma médica de São Paulo, especializada em dermatologia. Notei que ela franziu a testa ao confirmar meus dados pessoais, mas não dei importância. O exame criterioso de quase meia-hora quebrou o gelo e, ao final, a doutora me contou de seu “problema” com jornalistas. Em agosto passado, sem que ela soubesse, uma repórter da revista Veja- Juliana Linhares ou Bel Moherdaui, segundo os arquivos - esteve em seu consultório como paciente, conversou com funcionários , fotografou um de seus porta-retratos pessoais, tudo na mais completa clandestinidade. Dias depois, ela foi parar na capa da revista com a capa “O Partido do Botox” e o adendo “Veja confirma que até Lula aderiu”. Sem saber, ela seria mencionada várias vezes como a médica do presidente da República e sua mulher, Marísa Letícia.
No final do relato, disse que a reportagem lhe causou problemas junto ao Conselho de Medicina, e confessou, impotente, que não sabia se valeria ou não a pena processar a revista na Justiça. Seu receio é o mesmo de muitos: o esforço dar em nada.
A doutora, cujo nome não posso revelar, pois não pedi autorização, está certa ao duvidar da ação da Justiça para a reparação dos prejuízos que sofreu. Está aí o caso da Escola Base. Passados 12 anos, apenas a Folha de S.Paulo está fazendo acordo com as vítimas. Todos os demais, inclusive a revista, recorreram das decisões da primeira e da segunda instância.
O segundo caso de reportagem clandestina está numa das cartas de leitores da Veja São Paulo desta semana, assinada pelo dentista Mario Sergio Limberte.
A reportagem menciona meu nome na área de estética dental. Ser consultado anonimamente não me incomodou absolutamente. Mas a divulgação do meu endereço, telefone, diagnóstico e honorários deixa a impressão de que autorizei a publicação. O código de ética do Conselho Regional de Odontologia condena e pune o profissional que usa esse expediente. Solicito que a revista confirme que a matéria foi publicada sem o meu conhecimento e sem consentimento prévio.
Sua solicitação caiu no vazio. Não há palavra da revista reconhecendo que atropelou a ética que regulamenta o trabalho dos dentistas.
O descaso não é exclusivo da revista. Escrever para os meios de informação, protestando por má-interpretação ou erros publicados, é uma ação tanto inócua quanto de alto risco. O protesto pode ser censurado e ir para o lixo, ou merecer uma réplica sem chance para a tréplica, em termos quase sempre desrespeitosos.
Essas barbaridades acontecem porque não há qualquer instância, no Brasil, que faça valer um único código de ética para o setor. Os jornalistas têm o seu, as associações das empresas de mídia também e até mesmo empresas têm seu código de ética particular. Todos se assemelham pelas palavras e idéias comuns. São até bonitos e nobres, mas não funcionam.
Em países com democracia nas relações entre a imprensa e a sociedade, comissões de auto-regulamentação evitam problemas como os aqui relatados. E não há discurso de ameaça à liberdade de imprensa porque os meios de informação foram obrigados a publicar reparações aos seus erros.
