Novembro 2006
Arquivo Mensal
Arquivo Mensal
Publicado por Alceu Nader em 30 Nov 2006 | sob: Notícias
Imprensa brasileira desconhece o que acontece na América Latina, ignora as questões sociais e privilegia problemas dos EUA
Todas as reportagens da grande mídia que apresentam o presidente eleito do Equador no último final de semana, Eduardo Rafael Correa, desde a segunda-feira passada, quando foi confirmada sua vitória, trazem o rótulo “amigo de Chávez”. Algumas reportagens repetem a expressão duas, três vezes, repetindo a mesma técnica que consiste em reproduzir à exaustão sua interpretação ou julgamento premeditado. O resultado é que o esforço para vestir uma personagem com roupa de outra deixa vastos campos de ignorância. A imprensa brasileira, no todo, desconhece o que efetivamente acontece ou que está por vir nos países vizinhos ao Brasil. Esse desconhecimento leva ao demérito antecipado de toda e qualquer iniciativa que vise a união dos países do continente, como pode ser comprovado pelo bombardeio contra o Mercosul e a a incitação para que o Brasil invadisse a Bolívia para proteger as instalações da Petrobras. No caso do Equador, a desinformação é ainda maior porque o país não tem fronteira e, portanto, sem eventos de fronteira que motivem o acompanhamento.
Assim, ao carimbar Rafael Correa como “amigo de Chávez”, um economista com doutorado na Europa (sua mãe é belga) e mestrado nos Estados Unidos, de 43 anos, a imprensa brasileira não faz outra coisa senão renovar seu preconceito com o continente “assolado pela onda populista”.
Além do carimbo pejorativo, a grande mídia, antes de se perguntar porque Correa foi eleito, preocupa-se em antecipar eventuais problemas que o jovem presidente equatoriano deverá enfrentar em duas frentes com os Estados Unidos. Um deles é a base militar norte-americana de Manta, na costa do Pacífico, que Correa já avisou que não quer mais em seu país; outra, é o rompimento do contrato, efetivado em maio passado, entre o governo equatoriano e Occidental Petroleum Corporation, Oxy, que até então era responsável por 20% das exportações de petróleo do Equador. Em ambos os casos, a imprensa nacional cumpre seu papel de intérprete dos interesses do país mais poderoso do mundo.
O caso da Oxy é exemplar, porque também serve para a repetição de outro bordão constante: o da “insegurança jurídica”, freqüentemente apontado como impedimento aos investimentos que a América Latina precisa. A imprensa não expõe em detalhes o rompimento do contrato, pois correria o risco de descobrir contradições em seu discurso. Para não ver a verdade, e mantê-la distante de seus desinformados leitores, aduba suas reportagens com generalizações e clichês como o do “amigo de Chávez”.
O rompimento com Oxy começou há cinco anos, quando o estado equatoriano e a petroleira norte-americana começaram a negociar mudanças nos contratos de participação, saída encontrada pelo Equador para adotar os mesmos passos de seus vizinhos, Venezuela e Bolívia, rumo ao controle, ainda que parcial, da exploração de seus recursos naturais. O petróleo é a principal riqueza equatoriana. Responde por 15% da economia do PIB, 30% dos rendimentos do estado e 40% das exportações. A intenção do governo de participar do controle dos blocos explorados foram questionados pela Oxy, quando foi rompido unilateralmente pelo governo equatoriano. Motivo: sem avisar o governo, apesar das negociações em curso em câmaras de arbitragem internacional, a Oxy vendeu 40% de suas operações no Equador para a filial da canadense Encana nas Bermudas, notório paraíso fiscal. Detalhe: a Oxy respondia por 20% das exportações equatorianas. Consumada a desapropriação, a empresa reivindica indenização de US$ 1 bilhão.
As empresas de petróleo estrangeiras que operam no Equador, inclusive a Petrobras, vão enfrentar duras negociações no governo de Correa. Ele já anunciou que quer renegociar todos os contratos que o país mantém com essas empresas. O objetivo é fazer voltar a paridade de 50% de participação no faturamento entre o estado e as exploradoras, como era antes dos anos 90, quando uma série de medidas liberalizantes resultou na distribuição de 18% dos lucros para o governo e 82% para as empresas.
A imprensa brasileira terá mais motivos para colocar Correa na mesma galeria de Chávez, apesar das enormes diferenças entre um e outro, e manter a ignorância em seu patamar atual. Ele já anunciou que é contra o tratado de livre comércio que seu país vinha negociando com os EUA e é favorável à entrada do Equador no Mercosul.
Corrêa vai assumir o controle de um país miserável, de maioria índia (parte do Equador integrava o antigo império Inca), que tem 20% de sua força de trabalho na Espanha, principal destino da corrente imigratória. Madri, Barcelona e outras grandes cidades espanholas têm bairros inteiros ocupados majoritariamente por equatorianos, e com um particular: ao contrário do homem, o primeiro integrante da família a buscar mehor sorte no estrangeiro é a mulher. As equatorianas se especializaram em acompanhar e cuidar de idosos espanhóis.
Publicado por Alceu Nader em 29 Nov 2006 | sob: Notícias
A reportagem da Folha de S.Paulo de ontem, “Publicidade oficial ajuda a bancar a TV do filho de Lula”, não deve ser vista como exceção, mas como regra do comportamento calhorda da grande mídia em sua mania de colocar tudo e todos sob suspeição – menos os seus negócios. Minha suposição de que jornalistas respeitáveis se ocupariam do assunto se confirmou: Luís Nassif, em seu blog, procedeu a exegese esperada – e com louvor – mostrando os mesmos truques que esse Contrapauta já apontou inúmeras vezes em reportagens ladinas como a de ontem.
Mas algumas informações extras merecem ser acrescentadas como introdução ao trabalho de Nassif (leia a íntegra, a partir do link abaixo), que traz as mesmas artimanhas editoriais que a grande mídia tem empregado para lançar suspeitas e condenar sem julgamento.
Nassif mostra como a informação central que sustenta a intenção da reportagem – tentar nos convencer que há ilegalidades e favorecimentos na história – se distancia do que a manchete da capa nos vende, à medida em que se avança na leitura da reportagem. Mas faltou dizer que a publicidade oficial não “ajuda a bancar” apenas a Rede 21 e a Play TV, mas toda a grande mídia, inclusive a própria Folha. Essa é a questão central: o oligopólio está com medo de ver sua fatia diminuir, como fica claro na entrevista com o presidente da Radiobrás, Eugênio Bucci.
Faltou dizer, também, que a reportagem da Folha, que será repercutida pela Veja na próxima edição, omite que Play TV, por competência, desde junho passado, depois de dois meses da estréia, vem alcançando audiência maior do que a MTV.
Leia a íntegra do Blog Luís Nassif Online
Publicado por Alceu Nader em 27 Nov 2006 | sob: Notícias
A capa da revista Carta Capital, “O Segundo Enterro de Celso Daniel”, assinada pelo repórter Raimundo Rodrigues Pereira, traz o relato mais sólido sobre a conclusão da delegada civil Elisabete Sato, responsável pelo inquérito reaberto sobre o assassinato do ex-prefeito de Santo André. A delegada chegou à mesma conclusão do inquérito anterior: o crime foi comum; não teve motivação política.
Dois repórteres - Lílian Christofoletti, da Folha de S.Paulo, e Fausto Macedo, do O Estado de S.Paulo – ganham algumas linhas no texto da revista como exemplos de casos em que a mídia deixa-se usar, quando lhe convém para reforçar sua versão dos fatos. Como os promotores de Santo André, o importante era consolidar a tese de que o crime foi encomendado, conclusão essencial para transformar o assassinato do ex-prefeito em crime político. Para interpretar esse papel, os repórteres de ambos os jornais optaram pelo enxovalho à carreira da delegada. Convenientemente, esqueceram-se dos detalhes resgatados por Raimundo Rodrigues Pereira.
A Folha jogou Elisabete Santo na fossa da incompetência proposital. O Estado dfoi mais longe. Descarregou o editorial “Arquivamento suspeito”, dizendo que, “pela forma e pelo conteúdo”, o resultado do inquérito assinado pela delegada deixa de ser duvidoso para se tornar suspeito. Às favas, portanto, o currículo e os prêmios de reconhecimento que a delegada recebeu em 30 anos de serviço público. O que importou, para os repórteres dos jornais, como mostra a reportagem da Carta Capital, foi manchar a reputação da delegada para encobrir a incompetência do Ministério Público de Santo André. Não foi a primeira vez que a imprensa se deixou utilizar no caso. No ano passado, conta a revista. No pico da onda de denúncias contra o PT e contra o governo Lula, no ano passado, os mesmos promotores plantaram o “clamor público” na imprensa para obter a reabertura do caso para reabrir o caso - e conseguiram incluir o caso na CPI dos Bingos. Inútilmente.
A revista Veja também participou na criação do “clamor público” no ano passado. Nesta semana, não traz palavra sobre o relatório da delegada, apesar da capa “Celso Daniel, um fantasma assombra o PT, publicada em outubro do ano passado. O silêncio e o desserviço aos seus leitores podem ter várias motivações. Uma delas é que, para confirmar a versão dos fatos apontada pela Folha e pelo Estado, teria de renegar a capa da Veja São Paulo, de março de 2004, quando Elisabete Sato foi apresentada como “A Xerife dos Jardins”, em reportagem sobre as mudanças por ela promovidas no 78º Distrito Policial, responsável pela segurança da área dos Jardins, a mais rica de São Paulo. Descontando-se a obstinação da revista pela “nobreza” da região e a mão de tinta de vanidade sobre os hábitos e costumes da delegada, a reportagem documenta, em números, sua eficiência no comando da delegacia.
O passeio acima sobre os conteúdos de parte da imprensa praticada em São Paulo mostra mais que silêncios, aleivosias, injúrias e contradições. Mostra, acima de tudo, que, para deformar a realidade e reforçar sua versão dos fatos, a imprensa não titubeia em manchar reputações. É a ditadura da opinião, que prevaleceria não fosse a reportagem da Carta Capital. Recomenda-se a leitura na íntegra na versão impressa; o site da revista não reproduz o conteúdo da versão impressa.
Publicado por Alceu Nader em 24 Nov 2006 | sob: Notícias
O título meio enigmático acima abre a participação do leitor José Pires (a íntegra segue abaixo), contestando parcialmente a inserção da leitora Jussara Seixas e a semelhança de sua participação em outro site claramente eleitoral - no caso, um de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Ele também é severo com o Contrapauta. Diz que houve um “deslumbramento” com o que Jussara Seixas escreveu, embora se tratasse de uma versão aproximada de outro texto da mesma leitora, postado em outro blog. E adverte que o desconforto que ele sentiu poderia ter sido evitado, se o jornalista responsável pelo blog fizesse breve pesquisa na internet. Aqui, sua argumentação sólida se desintegra. Vasculhar a internet sobre quem são as pessoas que escrevem nos comentários exigira muito mais horas de trabalho dedicado ao blog para se averiguar a pregressa vida dos leitores que, por convicção ou impulso, se expressam no blog. A roda pega - e pára - justamente porque a dedicação extra exigida pelo leitor invade a carga horária que o jornalista responsável pelo blog tem de cumprir para sobreviver. O não traz nenhum benefício monetário a quem o faz, tampouco é tocado por uma equipe, como muitos leitores supõem.
Recomenda-se a leitura do comentário na íntegra:
O LEITOR EXIGE NÍVEL PARA TODOS
O nome de Jussara Seixas remete a um blog na internet que tem como ilustração principal, que toma todo o espaço superior do blog, uma foto de Lula em campanha com um título enorme acima: “Por um novo Brasil”. Abaixo da foto, também bem grande, tem uma legenda: “Sem medo de continuar sendo muito feliz!!!”, assim mesmo com três exclamações. Ao lado, um ícone com o número eleitoral de Lula e sua foto. Mais abaixo, uma frase de comício: “Lula é meu amigo, mexeu com ele mexeu comigo!”.
O blog é um clipping de notícias da mídia, todos favoráveis ao governo Lula ou contra a oposição. Tem também alguns textos de Jussara Seixas. Todos com o mesmo comprometimento explícito na apresentação do blog e sem nenhuma aparência da independência que ela busca apresentar neste texto.
Algumas frases dela:
“O presidente Lula mostrou que tem a alma e mente iluminada”; “Serra ao invés de ficar xingando os depoentes, tem que apresentar uma defesa consistente, documentada, contra essa documentação em poder dos Vedoin”; “Outras pessoas para serem lembradas, notadas, pessoas que nunca fizeram nada de bom para o povo e para o país, ou dependuram uma melancia no pescoço e dizem que são normais ou apelam para prejudicar, difamar, caluniar pessoas notáveis. Assim fez Bornhausen ao processar o grande Emir Sader, assim faz um tal de Mainardi, ao destilar todo o seu ódio contra o presidente Lula, um tal Reinaldo e outros da casta. Isso é uma prática comum entre pessoas que são verdadeiras toupeiras inúteis.”
Tem uma outra, também muito interessante, que mostra com bastante propriedade o estilo e o comprometimento de Jussara Seixas com o respeito ao leitor e também com a veracidade de suas afirmações:
“A mídia está devendo porque não entregou a derrota do presidente Lula, que foi encomendada e paga.”
Como parte desse assombrosa denúncia, ela também dá os nomes dos jornalistas que teriam seu trabalho “encomendado e pago”:
“É grande a lista dos que receberam um bom dinheiro pela empreitada sem fazer jus a ele: Eliane Cantanhede, Fernando Rodrigues, Josias de Souza, Ricardo Noblat, Merval Pereira, Miriam Leitão, Alexandre Garcia, Jô Soares, William Bonner, Fátima Bernardes, Arnaldo Jabor, Dora Kramer, Renata Lo Prete, Lucia Hypolito, Diogo Mainardi, Clóvis Rossi e outros tantos, menos conhecidos.”
Houve um deslumbramento do responsável por este site com o texto de Jussara Seixas, mas acredito que ele não se deu ao trabalho de fazer sequer uma rápida pesquisa – bastante fácil na internet – para averiguar a qualidade da fonte que estava elogiando. A qualidade, o alto nível, é este que passei para vocês num apanhado rápido.
O texto publicado aqui contém algumas verdades. Infelizmente expressadas como lugares-comuns, mas que nem por isso perdem a veracidade. O recurso nada engenhoso de utilizar o jogo de palavras “leitor/eleitor” (repetido oito vezes) também pouco ajuda, sendo até impróprio para o que defende: desse modo não haveria direitos para aquele que não é eleitor (para pessoas de 16 e 17 anos de idade ou acima de 70 anos bem como para os analfabetos, o voto é facultativo).
Mas concordo que o jornalista não pode recriar os fatos e nem está acima da lei. E também a mídia não pode destruir as pessoas. Mas seria interessante observar também em Jussara Seixas esta preocupação com a “investigação criteriosa” das informações. E não é o que se vê nos textos do seu blog. Seria também muito educativo para esta pessoa que ela se visse confrontada com o fato de que ninguém – e não só o jornalista – está acima da lei. Suas afirmações sobre os jornalistas citados, por exemplo, podem trazer para ela esta experiência nada agradável.
Publicado por Alceu Nader em 20 Nov 2006 | sob: Notícias
No blog do Nassif, um texto espetacular
Na imprensa, bem, na imprensa, quase tudo continua no mesmo lugar dos anos passados
O blog do Luís Nassif tem um texto espetacular, chamado “A intolerância”, enviado por um leitor que assina Weden, que está entre os que oferecem mais reflexão desta temporada de reportagens e estatísticas sobre racismo e consciência negra. É poderoso porque é o relato do “outro lado” que a imprensa burocrática glorifica e acredita piamente estar mostrando para seus leitores. A mesmice traz o bis de novembro do ano passado, com novas pesquisas confirmando o veneno do preconceito que presenciamos em situações corriqueiras e aparentemente inocentes do cotidiano. Quanto mais saudáveis e instruídos são os profissionais de ascendência negra, mais se amplia a diferença salarial com os brancos. Ao invés de incomodar os departamentos de recursos humanos das empresas - aliás, a imprensa premia a política de recursos humanos dessas mesmas empresas - uma história ou outra de um negro que conseguiu vencer o preconceito, e pronto - o prato está servido, até o ano seguinte, quando, novamente, pesquisas substituirão a exploração verdadeira da realidade.
E por que a imprensa não questiona a discriminação racial e econômica que se manifesta nas pesquisas?
O silêncio permite várias suposições. Mas o mais palpável são os cadernos de classificados de emprego, somada à falta de coragem e independência para questionar o cliente.
Não deixe de ler “A intolerância”.
Publicado por Alceu Nader em 15 Nov 2006 | sob: Notícias
Manifeste sua opinião sobre a mudança da Lei de Imprensa que exige que alvos de denúncias sejam ouvidos antes da publicação
O leitor M. Iack chama a atenção para a convocação de um dos paus-mandados da revista Veja para inundar a caixa postal dos senadores contra o projeto de lei que combate a delinqüência editorial.
O projeto apresenta como justificativa a necessidade de “disciplinar a divulgação de informações lesivas à dignidade da pessoa humana”, e insere duas exigências na Lei de Imprensa:
“I - proceder à criteriosa investigação de sua veracidade, bem como da autenticidade dos documentos que porventura lhes sirvam de base;
II - levá-la ao conhecimento daqueles a quem ela se refira, dando oportunidade de manifestação, em tempo hábil antes de sua veiculação.”
O senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), dono de emissoras de rádio na Paraíba, pediu vistas ao processo e apresentou parecer contrário. A matéria precisa ser votada pela Comissão de Educação do Senado para ir à votação do plenário.
Íntegra do projeto em tramitação no Senado
e-mail do senador Antônio Carlos Valadares
e-mail da Secretaria-Geral da Mesa do Senado
Para defender o projeto, escreva no campo assunto do e-mail: “A favor da votação em plenário da PLS 00257/2005″
No campo reservado à mensagem, escreva seu nome, número de RG e órgão expedidor.
Publicado por Alceu Nader em 15 Nov 2006 | sob: Notícias
Estadão manipula informação sobre crítica ao apoio de Lula a Chávez
O truque é velho e manjado, mas volta e meia reaparece na imparcialíssima e irrepreensível imprensa brasileira. A prestidigitação consiste em dar voz a uma instituição – de preferência, alguma que tenha respeito público – para a projeção de uma opinião contundente na primeira página, quando, na verdade, quem fala é somente uma pessoa ligada à mesma instituição. Se a leitura ficar nos títulos, comeu-se gato por lebre.
O Estado de S.Paulo traz uma dessas mercancias na edição de hoje. Na chamada de primeira página, lê-se: “Conselho Eleitoral da Venezuela critica Lula”. Logo abaixo, lê-se que o presidente brasileiro foi criticado “por um diretor do Conselho”. Na p 4, ocupando as seis colunas, de novo, o título: “Conselho Regional da Venezuela vê intervenção grosseira de Lula no país”, mas apenas no final do quinto parágrafo é que se lê que o Conselho, uma organização independente que existe para organizar e fiscalizar as eleições no país vizinho, tem cinco diretores e que o diretor usado como ventríloquo para falar pelo órgão, Vicente Díaz, “é o diretor mais próximo da oposição”.
Três agências assinam a reportagem reeditada pelo Estado – Associated Press, Agência France Press e EFE, da Espanha. Breve visita ao jornal El Universal de Caracas, que exerce oposição feroz a ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez, mostra outra coisa: a reportagem é de autoria do próprio jornal. Mais: o jornal venezuelano não tergiversou nem escondeu a informação sobre o autor da opinião. Logo na abertura, esclarece: “a título pessoal – e sem respaldo do resto dos membros do Poder Eleitoral (o Conselho) – Vicente Díaz qualificou como uma ‘intervenção grosseira, em assuntos de estrita competência dos venezuelanos’ as palavras de apoio ao presidente reeleito do Brasil”.
Acima a desonestidade editorial, uma outra pergunta provoca: Se Chávez, com o dinheiro fácil do petróleo, desbancou Lula como líder da América do Sul, porque o mesmo Chávez precisaria de Lula para fortalecer sua campanha eleitoral?
Publicado por Alceu Nader em 12 Nov 2006 | sob: Notícias
Se alterações à Lei de Imprensa forem aprovadas, reportagens terão de apresentar provas para sustentar denúncias e ouvir os acusados antes da publicação
De tanto se opor a iniciativas que conduzam a um conjunto mínimo de regras de convivência democrática com a sociedade, como, por exemplo um único Código de Conduta da Imprensa, que vigora com êxito em outros países, a imprensa tupiniquim corre o risco de ser engessada por iniciativa alheia. Na falta de uma Comissão de Queixas à Imprensa, auto-reguladora, mais tempo de prisão e menos autonomia.
A Folha de S.Paulo traz hoje a reportagem “Senado debate lei que tutela reportagem”, apresentando o projeto de lei, apresentado pelo senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), no ano passado. O tema prosperou, chegou à Comissão de Educação para análise e deve ser votado se não prosperar a obstrução do senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE).
Diante da iminência de o projeto ir a votação - e, quem sabe, ser aprovado -, as primeiras vozes corporativas – Associação Brasileira de Imprensa e Associação Nacional dos Jornais, pelo lado patronal, e Federação Nacional dos Jornalistas, pelos profissionais – ocupam a reportagem denunciando pressão “contra a liberdade de informação”. A entidade que representa as emissoras de rádio e televisão, Abert - Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV – virtualmente controlada pela Rede Globo, também discorda e, segundo a reportagem, “também encaminhou um requerimento para a realização de audiências públicas para discutir o assunto”. O “também” implica que outras entidades reivindicam a realização de audiências, mas elas não são mencionadas na reportagem.
A Agência Senado, no dia 24 de outubro passado, registrou a análise da proposta do senador Crivella dizendo que ele “acrescenta dispositivos à Lei de Imprensa (Lei 5.250/67)”, com a finalidade de “coibir a publicação irresponsável de informações lesivas à honra, à reputação e à dignidade de qualquer pessoa nos meios de comunicação social “.
A proposta pretende “acrescentar” dois parágrafos e um novo artigo à Lei de Imprensa que, segundo o texto original, pretende o seguinte:
Os parágrafos:
“Os meios de comunicação e divulgação deverão, previamente à publicação de notícia que impute a prática de condutas tipificadas como ilícito administrativo, civil, penal ou com repercussão negativa sobre a dignidade de alguém:
I – proceder à criteriosa investigação de sua veracidade, bem como da autenticidade dos documentos que porventura lhes sirvam de base;
II – levá-la ao conhecimento daqueles a quem ela se refira, dando oportunidade de manifestação, em tempo hábil antes de sua veiculação.”
O artigo:
As penas cominadas aumentam-se de um terço, quando os crimes forem praticados com inobservância do disposto no § 2º”
A rigor, o texto reforça a observância de boas práticas, inibe o uso de grampos e outros serviços de arapongas e insiste na obrigatoriedade de se ouvir o “outro lado”, procedimento básico que vários manuais de redação, inclusive o da própria Folha, dispõe como obrigatório.
O xis do problema é que, se aprovada, a proposta vai tipificar e prever penalidade para jornalistas e veículos de informação infratores. É por trás desse receio que se explica a palavra “tutela” do título da reportagem da Folha.
A senadora Fátima Cleide (PT-RO), relatora do projeto na Comissão de Educação, amainou o rigor do texto de Crivella e incluiu uma emenda que abole a manifestação do “outro lado” diante da “impossibilidade devidamente comprovada” de ouvi-lo.
No texto da Folha, consta apenas que ela deu parecer favorável ao projeto, mas que o senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), “apresentou um relatório alternativo para derrubar a matéria, o projeto foi retirado temporariamente da pauta para ser debatido”. Conforme reproduz o jornal, o senador argumentou que:
“Se a publicação de informações falsas é condenável, não se pode, por outro lado, exigir que os órgãos de imprensa assumam as funções investigativas próprias das autoridades competentes, estas sim incumbidas de descobrir a verdade a respeito de denúncias e acusações que venham a motivar notícias e reportagens”.
Publicado por Alceu Nader em 11 Nov 2006 | sob: Notícias
Duas questões interessantes para reflexão surgidas de colaboração dos leitores. O primeiro, extramente delicado: “as relações etnico-raciais”; o segundo, corriqueiro, mas não menos importante: “a arbitrariedade da imprensa”.
A leitora Conceição Oliveira aponta que, depois de ter passado mais de um ano tratando intensamente da questão das cotas nas universidades, a imprensa mantém silêncio no que vai deste mês, a dez dias do 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra. Ela está coberta de razão. Há muito tempo, a grande mídia não investe seu jornalismo investigativo para encarar de frente temas ásperos como o preconceito, além das queixas policiais e das polêmicas e contradições que afloraram com a discussão sobre as cotas.
A mudez impressiona, sobretudo por parte dos colunistas e convidados de todas as cores e plumagens que, até poucas semanas, davam seu pitaco - em geral, concordando com a opinião do jornal, para garantir a exposição em outra oportunidade.
Eu antecipo que sou totalmente a favor da criação de cotas que tentem corrigir, com atraso secular, as injustiças cometidas contra negros e outras etnias e classes sociais. Milhões de brasileiros, não necessariamente afrodescendentes, mas principalmente os afrodescendentes, foram subjugados para a formação do que é hoje o Brasil.
O leitor Radamés A.P. Silva concorda com minha opinião de que não há democracia nas relações da imprensa com a sociedade, e também está de acordo com a necessidade para o estabelecimento de um Código de Conduta para inibir atos de deliqüência explícita de grandes meios de informação para publicar informações que sustentem suas opiniões ou campanhas difamatórias.
A esse respeito, esta semana traz o registro de mais duas incorreções que passarão em branco. Uma, do apresentador e jornalista Marcelo Tas, que serviu de carniça para a revista Veja criticar o presidente da República. Tas foi chamado de “jornalista chapa-branca” por ocupar um horário na mesma emissora em que o filho de Lula, Fábio Luiz Lula da Silva, tem participação na grade de programação. A revista não o ouviu para o curto texto recheado de agressões.
Tas tentou corrigir as informações, enviando carta á revista. Mas, como de hábito, a resposta não foi publicada. Ligou para o responsável pela seção da revista, Julio César Barros, que se esquivou dizendo que não ele não era o autor do texto. Jogou a responsabilidade para um dos editores da revista, Felipe Patury, que, por sua vez, disse que, por não se tratar de uma nota assinada, a responsabillidade era da direção da revista.
O portal Comunique-se entrevistou, durante a semana que passou, o diretor da revista, Eurípedes Alcântara, sobre o caso, e publicou que ele “afirmou que mandou apurar esse assunto internamente e que ainda não tem uma resposta definitiva. O diretor garantiu que assim que essa resposta for obtida ela será dividida com este Comunique-se“.
Enquanto isso, a localização de um número telefônico da Folha, durante rastreamento da PF de telefones de pessoas envolvidos no caso do dossiê, é visto como nova “ameaça à liberdade de expressão”. Na pressa, a informação transmitida para a ONG Repórteres Sem Fronteira foi passada como caso de escuta telefônica de jornalistas do jornal. Apesar do erro colossal, a Folha repercute.
Integra da reportagem do Comunique-se (acesso limitado a leitores registrados)
Publicado por Alceu Nader em 07 Nov 2006 | sob: Notícias
Ao contrário do que dizem colunas e editoriais, boas práticas jornalísticas garantem a liberdade de opinião e protegem a sociedade dos abusos
Conar, que faz valer o Código de Conduta para a publicidade no Brasil, existe há quase 30 anos, sem nunca ter sido acusado de cercear a liberdade de expressão
Países com democracia mais sólida do que a do Brasil têm conselhos auto-reguladores e derrubam argumentos de que fiscalização sobre a imprensa é exclusivo das ditaduras
Sem saber exatamente no que está atirando, dois colunistas do O Globo de hoje voltam-se novamente contra a criação de uma instância que proteja a sociedade do oligopólio que controla a imprensa e a mídia no Brasil. Luiz Garcia e Miriam Leitão utilizam o mesmo e velho estratagema dos argumentos até aqui apresentados: ambos acenam com o pior dos mundos, mas omitem que, em países de democracia muito mais sólida e estabelecida do que a brasileira, existem, sim, instâncias disponíveis para que a imprensa reconheça e repare seus erros.
A Press Complaint Commission, Comissão de Queixas à Imprensa, da Grã-Bretanha, é modelo e referência para países subdesenvolvidos e em desenvolvimento que decidiram criar comissões auto-reguladoras que funcionam como órgão ouvidor e de conciliação aos pedidos de reparação e correção apresentados pela sociedade. Trata-se de um órgão não ligado ao governo, mas bancado pela própria indústria de mídia, com distribuição de poder e voto que neutraliza o poder de influência da mídia nas decisões tomadas a partir de um Código de Conduta comum a todas os veículos de informação.
Esse Código de Conduta diferencia-se dos bonitos, porém vazios, Códigos de Ética existentes no Brasil. Como já foi dito neste blog, há o dos jornalistas, os das associações empresariais e até mesmo os das empresas do setor. Todos com princípios são louváveis, mas nada práticos. Já o Código de Conduta britânico vai no detalhe e apresenta os limites que a cobertura jornalística deve respeitar, num amplo leque de circunstâncias propícias à ocorrência de erros e abusos da imprensa, que abrange desde abordagem a menores de idade em horário escolar, até regras muito específicas contra a manipulação de informações do mercado financeiro.
Os colunistas do O Globo não reforçam o argumento do diretor de redação da Editora Globo, Paulo Nogueira, de que a Justiça, o consumidor e, por extensão, o deus mercado são suficientes para defender o cidadão e a sociedade contra o mau jornalismo.
Contestar publicamente Paulo Nogueira exige um grau de sinceridade maior para o jornalista responsável por esse blog, pois não se trata apenas de enfrentar uma assinatura de respeito da grande mídia, mas também a de um amigo de redação, com quem a relação de amizade não terminou com a mudança de cargo ou empresa - estando acima, portanto, acima do grau de afeição e estima de colegas contemporâneos de uma redação,
Seu embravecido texto de opinião contra mudanças do establishment de imprensa e mídia traz a tese, repita-se, de que o consumidor, e, por extensão, o mercado é o único autorizado para julgar e interferir sobre a qualidade de informação. Para punir os exageros, continua, tem-se a Justiça. Beleza. O xis é que imprensa e mídia não são atividades de meras relações comerciais, de mercado. Pelo contrário, imprensa e mídia exercem poder e interferem na sociedade com muito mais impacto do que qualquer outro produto disponíveis nos supermercados. Mais: ao contrário de outros produtos, a autonomia e a liberdade de atuação da mídia e da imprensa foram e continuam sendo consolidadas com a participação de dinheiro público nos estímulos, deduções e isenções fiscais. Paulo Nogueira bate, por antecipação, no anúncio de intenção do governo Lula de mexer nas relações de poder do setor. Diz, como Miriam Leitão, que a intenção anunciada de incentivar outras iniciativas, na verdade, pretende facilitar a criação de publicações sabujas, dispostas ao aplauso fácil ao governo de plantão. Ambos sabem também, mas não dizem, que o futuro de veículos de informação que optam por essa postura têm futuro breve e nenhuma credibilidade. Paulo Nogueira pragueja contra a “regulamentação”, mas não diz palavra não contra a “auto-regulamentação”, cuja implementação esse blog tem insistido a favor. É um bom indício.
Recapitulando e simplificando, o que esse blog tem defendido é a criação de um organismo independente nos mesmos moldes do Conar, o Conselho de Auto-regulamentação Publicitária, uma ONG independente que fiscaliza e faz valer o cumprimento do Código Brasileiro de Auto-Regulamentação Publicitária. O Conar existe desde 1978, e foi criado como reação ao governo militar que pretendia instaurar a censura prévia no setor. Desde então, já instaurou 4 mil processos éticos, “e promoveu um sem-número de conciliações entre associados em conflito”, conforme registra seu site. Nunca se denunciou que o Conar inibiu ou constrangeu a liberdade de expressão da criação publicitária – o que é a melhor medida de sua experiência. Falta, apenas, o reconhecimento de que pode ser uma boa solução para defender as empresas que controlam a produção e a distribuição de notícias no país contra qualquer inciativa que ameace a liberdade de expressão.