NÃO ADIANTA CORRIGIR OU NEGAR
Imprensa repete imprecisões,
até transformá-las em verdade
A imprecisão do noticiário tem servido, desde as matérias iniciais sobre o caso do mensalão, para alimentar um comportamento típico de imprensa comprometida. Solta-se uma acusação ou indução que pode ser verdadeira ou mentirosa. Se for verdade, o leitor encontrará “como tal jornal ou revista ou emissora antecipou…” Mas, se se tratou de meia verdade ou mentira completa à espera de posterior investigação, o quadro é outro: ou não se noticia o desmentido, ou se ignora a conclusão e mantém-se a divulgação da informação falsa.
Um exemplo: durante a enxurrada de denúncias do segundo semestre do ano passado, acusou-se o Banco BMG de ter sido beneficiado por receber autorização para explorar o crédito consignado antes dos concorrentes, em contrapartida aos empréstimos que concedeu ao PT e a Marcos Valério. Mais: o mesmo BMG, segundo a segunda denúncia, teria sido beneficiado, em contrapartida ao empréstimo, com um negócio de pai para filho com a venda de sua carteira de clientes com empréstimos consignados para a Caixa Econômica Federal.
Ambas as denúncias foram desmentidas:
1) O BMG obteve autorização para explorar o crédito consignado um ano após a assinatura da Medida Provisória 130, que criou a facilidade, um mês antes dos demais bancos. A Febraban, que reúne todos os bancos, soltou nota oficial negando qualquer irregularidade;
2) O TCU, em decisão unânime de seus ministros, de junho deste ano, considerou regular a transação de carteiras entre a Caixa e o BMG.
O BMG mandou publicar a conclusão da Febraban nos jornais, já que a acusação continuou sendo mencionada, mas pouco ou nada adiantou.
Quando saiu a decisão dos ministros do TCU, apenas a Folha de S.Paulo e O Globo noticiaram; os demais jornais, revistas e telejornais se omitiram.
Passados três meses da decisão, a revista Exame desta quinzena traz a nota interrogativa “Um benefício para o BMG?”. O texto trata das recentes medidas para redução do custo do crédito e, com base em “fontes do setor”, induz que “o BMG foi novamente favorecido por uma decisão governamental”. Não pára aí. A revista ainda traz que, ”envolvido até a medula no escândalo do mensalão, o BMG foi o primeiro banco privado a operar o crédito consignado para aposentados - privilégio que permanece inexplicado até hoje, mas que ajudou a instituição”. Exame pertence à Editora Abril, que também publica a revista Veja.
Outra imprecisão, esta da ordem do dia e ainda repetida nos jornais, é o momento exato do telefonema do secretário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho, a Jorge Lorenzetti, apontado pela Polícia Federal como mentor da compra do dossiê furado. As imprecisões estão servindo de novo como bumbo para a oposição, tal como ocorreu durante as CPI dos Correios e dos Bingos. A diferença é que, agora, mira-se diretamente no afastamento de Lula, caso se confirme sua reeleição no próximo domingo.
Carvalho diz que ligou para Lorenzetti por volta das 9h30, assim que ficou sabendo da prisão de Gedimar Passos e Valdebran Padilha, ambos ligados ao PT. (Nota: naquele momento, a PF ainda não tido descoberto o envolvimento de Lorenzetti na operação).
A nota “Pelo telefone”, do Painel, da Folha de S.Paulo, de sábado passado, é exemplo de imprecisão. Ela diz que “o vazamento da informação de que o churrasqueiro Jorge Lorenzetti trocou ligações com o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, antes e depois da frustrada tentativa de compra do papelório contra os tucanos acendeu a luz amarela no Palácio do Planalto”. Mas não explica que o “antes” foi duas semanas antes da prisão dos envolvidos, nem que o “depois” ocorreu quando a prisão dos envolvidos era a principal notícia de todos os portais e sites informativos.
O Estado de S.Paulo, na edição de ontem, pôs o ex-ministro José Dirceu na fogueira na reportagem “PF quer chamar Carvalho e Dirceu para depor sobre dossiê”. A reportagem cita “a PF” em todo o texto, mas não há uma única fonte identificada para as aspas que reproduz. Numa dessas aspas, atribui ao desconhecido que prestou informações à reportagem que Dirceu e Lorenzetti conversaram “num momento muito próximo” da prisão. Noutra, que incrimina Gilberto Carvalho, diz que ele conversou “poucas horas depois” da prisão. José Dirceu já reagiu, indignado, em seu blog, explicando a circunstâncias desses telefonemas em duas inserções (clique nos links ao final desse texto).
Outra imprecisão monumental, para não dizer mentira cabeluda, encontra-se na reportagem “Tucano aposta em virada e cobra origem do dinheiro’, do mesmo Estado de ontem. A reportagem, assinada por Cida Fontes, descreve a passagem do candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, por Uberaba. No último parágrafo, solta: “Após o ato político, o tucano andou no centro de Uberaba, distribuindo beijos e abraços e correspondendo à ansiedade do público feminino, que chamava a atenção com suspiros e gritos”
Até o segundo turno, Alckmin pode se tornar um sedutor irresistível.
Respostas do blog de José Dirceu:
Na antiguidade havia apenas um Golias para o David. Me parece que os Golias se multiplicaram e o David continua um só. Com sua funda tendo que escolher em quem atirar a pedra. Mas que desigualdade! Onde está o caráter dessa imprensa farrabunda (acho que acabei de inventar o termo porque não achei no dicionário, mas quis dizer de farra e de bunda, mesmo!). Onde está vai ser difícil saber. Não se pode saber o paradeiro de algo que não existe. Me admira os jornalistas que tanto atacam a falta de ética do atual governo, não terem nenhuma ética para poderem argumentar sua crítica! Saudade dos fatos. Há muito que não os vejo na grande imprensa Golias. Só posso sabe-los, aqui, pela funda do David!
Não esquecer que a Abril hoje é contolada pelo Unibanco.
Esse comportamento da mídia é coisa de animal. Explico: Todo bicho na natureza precisa de um determinado território para viver e se reproduzir. Sem ele, está fadado a extinção. Dentro desse espaço impera a lei da selva, que rege a todos e dessa forma os ecossistemas se mantém em equlíbrio, condição essencial para a manutenção da vida…pensando bem…essa posição da mídia não é coisa de animal, não. Só querem a parte do leão. Para conseguí-la sacrificam tudo, inclusive até mesmo a verdade dos fatos, oxigênio histórico da liberdade de imprensa no Brasil.
Vivemos a didatura das “verdades”, do diz-que-diz. E a nação pseudo esperta, leitora, ouvintes e telespectadores da mídia fajutada, ainda acreditam. Agora dá para entender porque conseguimos democracia neste país. Já sabiam os donos da informação que ocupariam um lugar de destaque na nova ordem - a de manipular a população: comprar, destruir, vilipediar, fazer e inventar qualquer coisa que atenda aos interesses que os donos da comunicação defendem. Longe, bem longe da ética e do direito ao contraditório encontramos o reino das “fontes” de Veja, Folha, Estado e quetais. Reino da invenção, das histórias extraordinárias, da destruição da vida e reputação das pessoas.
E esperto são vocês de achar que só o grupo Abril quer controlar e inventar factoides. Dirceu tem telhado de vidro, e o caso é sair do fogo e cair na caldeira. Ou voltar para o fogo por mais quatro anos.
http://www.terra.com.br/istoegente/346/entrevista/index.htm