Só a mídia salva Alckmin do naufrágio

CRESCIMENTO DE LULA NO
DATAFOLHA REFLETE DIVULGAÇÃO DAS
POUCAS IDÉIAS DE ALCKMIN

Vazamentos da Justiça do Mato Grosso
são única possibilidade de ameaça
à reeleição de Lula

Alceu Nader | Textos | Quarta, 18 de Outubro de 2006

O DataFolha mostra – e as próximas pesquisas vão confirmar – que, apesar da manutenção do bombardeiro sobre o caso do dossiê furado, Lula cresce em todas as regiões e em todas as faixas de renda. O crescimento deve-se, em boa parte, à migração dos eleitores de Heloisa Helena e Cristovam Buarque. Mas com ele também colaborou a constatação da falta de essência e substância do discurso de Geraldo Alckmin.

Os jornais têm mostrado, desde o primeiro turno, que o candidato do PSDB muda de discurso a cada semana, sempre amarrando seu discurso eleitoral aos argumentos que lhe são fornecidos pela grande mídia e que ele procura seguir, várias vezes sem sucesso.

Além do discurso ético, Alckmin retomou a campanha martelando no “corte de gastos”, mas o mote durou pouco. O discurso sumiu da sua propaganda na tevê, por uma razão simples: ele não tem o que apresentar. Por essa razão, não pode abandonar o discurso genérico e as platitudes. Pior: a realidade desmente suas argumentações em torno da eficiência, gestão ou outro chavão semelhante. A desacreditar suas promessas de desenvolvimento, justiça social, atenção aos jovens etc., está a realidade do estado das contas públicas do estado de São Paulo, que tem um rombo de R$ 1,2 bilhão a ser fechado até o final do ano. Do contrário, Alckmin terá de responder à Justiça por descumprimento à Lei de Responsabilidade Fiscal.

O sucessor de Alckmin, Cláudio Lembo, anunciou a necessidade de privatizar mais um pedaço da NossaCaixa para tampar o buraco, mas o próximo governador, José Serra, que é do mesmo partido de Alckmin mas não reza o mesmo catecismo privatista, abateu a idéia em pleno vôo. Desde então, o tema continua em banho-maria, sem ser notícia em jornal, em mais um caso de esquecimento de conveniência. Serra não tem pressa – anunciou que o rombo seria coberto com uma “solução técnica” – e não disse mais uma palavra sequer. O rombo lhe favorece para a disputa da candidatura tucana daqui a quatro anos. Com um processo de responsabilidade fiscal nas costas, Alckmin estaria fora do jogo.

As faixas de renda com maior renda e escolaridade também se afastaram de Alckmin depois que se tornaram públicas as idéias para a economia do Brasil formuladas por um de seus principais assessores na área, Yoshiaki Nakano. Seu cardápio previa controle de câmbio e corte de gastos, duas demandas que os sindicatos empresariais e a mídia mantêm na mídia há mais de um ano. O prato preparado por Nakano trouxe de volta o aroma de pacotes econômicos e turbulências no câmbio. Nakano foi demitido da cozinha e se escondeu nos Estados Unidos. A grande mídia também achou conveniente não falar mais disso. Esqueceu-se do ex-principal assessor para assuntos econômicos do candidato.

Alckmin também perdeu ao pedir, e ser atendido, apoio do ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, cuja folha corrida é conhecida. O candidato tucano mentiu com a história de que apoio não se recusa e que Garotinho se apresentou como aliado espontaneamente. O próprio Garotinho destruiu a explicação, dizendo aos jornais que tinha recebido telefonema de Alckmin pedindo apoio. Apenas a filha do casal Garotinho aparece ao lado do do candidato quando ele vai ao Rio de Janeiro.

Sem idéias, o candidato agora se apega a outro detalhe emocional: a de que há uma “mentirobrás” em ação dizendo que ele quer privatizar a Petrobras, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e os Correios. Ele se diz vítima de infâmias e que seu programa de governo não prevê a privatização dessas empresas. De novo, o passado o condena, e o PT se aproveita da contradição nas entrevistas de Lula e na campanha na tevê.

Assim, tropeço após tropelo, Alckmin tem cada vez menos argumentos, além da pergunta ‘de onde veio o dinheiro’ do caso do dossiê furado. Ele diz que o R$ 1,7 milhão foi pago para prejudicar sua candidatura, mas nem isso é verdade. Os documentos apreendidos do “dossiê” trazem apenas duas fotos suas com prefeitos.

Seus novos argumentos até o segundo turno dependem de eventuais e bombásticas revelações. Várias empresas controladoras dos meios de informação já rasgaram o código de ética na manipulação de notícias que prejudicam ou beneficiam o candidato tucano. A mãozinha da revista Veja desta semana trouxe como maior resultado a transferência dos sigilos do assessor de Lula, Freud Godoy, que haviam sido quebrados pela CPI das Ambulâncias, para a Justiça do Mato Grosso. Vários dos grandes jornais já mandaram seus buldogues para Cuiabá. Até que essa ajuda venha, o programa de Alckmin na tevê não terá novidades, como comprova a repetição de sua visita ao posto de fronteira abandonado e aos buracos da estrada federal no Norte do país.

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