Gillo Pontecorvo (1919-2006)

Alceu Nader | Textos | Sábado, 14 de Outubro de 2006


Morreu anteontem, em Roma, Itália, às vésperas de completar 87 anos no dia 12 de novembro próximo, Gillo Pontecorvo, um dos maiores diretores de cinema da história. Ele era comunista de um tempo que era preciso muita coragem e predisposição a correr riscos por pensar diferente da ordem estabelecida. Enfrentou o fascismo de Mussolini, e, com o fim da Segunda Guerra Mundial, dedicou-se ao cinema político.

Pontecorvo rodou 19 filmes em 50 anos de atividade; não foi, portanto, um realizador caudaloso. Mas fez pelo menos dois filmes - “A Batalha da Argélia” e “Queimada!” - que estão na história para sempre.

Tive a alegria de entrevistá-lo em 1976, em seu apartamento em um bairro de classe média de Roma. Pontecorvo era um homem extramente simples e simpático. Antes da minha primeira pergunta, fui eu o entrevistado. Ele queria saber mais sobre a distensão no Brasil e a brutalidade do então recém-golpe militar na Argentina, que dera início à sua produção em massa de desaparecidos.

Em “A Batalha da Argélia”, ele conta a história de libertação da Argélia de 1962, até então colônia da França. O filme, de 1965, só foi exibido no Brasil com o fim da censura. A ditadura proibiu o filme por causa das pesadas cenas de tortura e de uma revolução vitoriosa contra o opressor. O filme teria fortes relações com a América Latina nos anos seguintes, por causa da propagação de manuais de tortura aplicados na Argélia que um dos chefes da operação militar francesa, general Massud, difundiria anos depois para várias ditaduras latino-americanas.

“Queimada!”, de 1969, chegou a passar por alguns dias em São Paulo, antes de também ser censurado. O título original, em português, foi uma das razões da ditadura para proibi-lo. Na verdade, contou Pontecorvo naquele encontro, o título original do filme era “Quemada!”, em espanhol. O generalíssimo Franco, chefe da ditadura na Espanha, ameaçou romper relações diplomáticas com a Itália, caso fosse mantido o título original. O filme é uma das obra-primas do ator Marlon Brando, no papel de um encarregado pelo poder central (a Inglaterra) de substituir, numa ilha imaginária da América Latina, o modelo escravista pelo capitalista, mantendo a relação império-colônia. Evaristo Márquez, o ator que interpreta o líder negro dos escravos (o filme foi rodado na Colômbia), jamais havia entrado em um cinema.

Pontecorvo imaginava a trilha sonora e as músicas icindentais antes da cena. Quando tinha uma boa idéia cênica definida, ligava para o Enio Morriconne, a quem também tive a sorte de entrevistar, para, ao telefone, cantarolar o som que o amigo comporia e aperfeiçoaria.

Clique aqui, para ver, no YouTube, uma seqüência da “A Batalha da Argélia”. O filme é encontrável nas boas locadoras como “A Batalha de Argel”. É pesado, mas é história pura e vale a pena.