O DOSSIÊ FURADO
ELIO GASPARI APONTA AFOBAÇÃO
DE PROCURADOR E SE DESCULPA COM
SEGURANÇA DE LULA
A coluna do jornalista Elio Gaspari de hoje esclarece em “Lembra do Freud? Ele tinha razão” que o segurança de Lula, Freud Godoy, que está sendo usado por Alckmin em seu “discurso ético”, nada tem a ver com a trampa do dossiê furado. O colunista isenta Freud, que foi posto no rolo pelo ex-agente da Policia Federal, Gedimar Passos, e aponta a insistência do procurador Mário Lúcio Avelar em incriminar o funcionário da Presidência da República - e por duas vezes -, mesmo sem qualquer prova.
O texto é esclarecedor (leia a íntegra abaixo), mas se esquece de um detalhe na descrição de como o segurança de Lula foi colocado como suspeito pela imprensa, para a alegria dos responsáveis pela propaganda de Alckmin na tevê e dos barões da mídia que não aceitam um segundo mandato de Lula.
O detalhe esquecido, de acordo com a descrição da Folha, no dia seguinte à prisão de Freud, é o seguinte. Ao ver e ouvir o noticiário que o envolvia na operação tabajara (os jornais noticiariam somente no dia seguinte), Freud apresentou-se como estava quando foi surpreendido, com roupa de ginástica e barba por fazer, à Polícia Federal de São Paulo. Seu objetivo era motivar o delegado da PF, responsável pelas prisões, Edmilson Bruno, a proceder uma acareação com Gedimar. Freud ficou apenas 20 minutos no prédio da PF, porque aquele que o denunciara se recusou a confirmar o que tinha dito poucas horas antes. Esse é o detalhe não apontado por Elio Gaspari - os meros 20 minutos de permanência de Freud na PF.
Até aquele momento, o delegado Bruno estava à frente das investigações. Às vésperas do primeiro turno, ele se encarregaria de distribuir fotos do dinheiro apreendido que ele mesmo tirou. Ficam a perguntas: Por que o delegado dispensou o denunciado em tão pouco tempo? Qual a razão de tamanho desinteresse sobre o que teria para dizer o homem, cuja menção levou o caso para dentro do Palácio do Planalto?
O artigo de Elio Gaspari fortalece a interpretação de que essa história ainda está muito mal contada. Se a intenção com a informação falsa era colocar o caso na ante-sala da Presidência da República para exploração eleitoral, o objetivo foi conseguido para interferir na avaliação do eleitorado. Para o segundo turno, porém, está com prazo de validade vencido.
Gaspari é um dos jornalistas mais confiáveis do Brasil porque tem humildade e é honesto: pede desculpas aos seus leitores quando comete algum erro. Mas é exceção. A maioria dos colunistas e editores em atividade não tem essa grandeza, e preferem passar para outro assunto quando são pegos em contradição.
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Íntegra do artigo de Elio Gaspari
LEMBRA DO FREUD? ELE TINHA RAZÃO?
Freud Godoy precisa ser explicitamente exonerado das suspeitas que o levaram a um patíbulo moral. De acordo com o atual estágio das investigações das traficâncias petistas, ele nada teve a ver com o episódio do dossiê Vedoin. Enquanto houver alguém assegurando o contrário, a injustiça e o linchamento prevalecerão sobre a lei e o direito.
Na madrugada de sexta-feira, 15 de setembro, o tabajara Gedimar Passos, preso enquanto mercadejava o dossiê por R$ 1,7 milhão, contou à Polícia Federal que agiu “a mando” de um capa-preta do PT “chamado Froude ou Freud”.
No domingo, dia 17, o depoimento de Gedimar vazou para a imprensa e ligou-se (corretamente) o nome à pessoa. O capa-preta era Freud Godoy, parceiro de caminhadas de Nosso Guia no Torto e assessor especial da Presidência da República. O mundo desabou-lhe sobre a cabeça. Lula telefonou para sua casa, Freud demitiu-se do cargo, teve os passos acompanhados por dezenas de jornalistas e apareceu ao país barbado, de camiseta, com um olhar de Delúbio Soares.
No dia seguinte o procurador Mário Lúcio Avelar pediu sua prisão, negada pela Justiça Federal. Ele viria a pedi-la de novo, e Freud só não dormiu na cadeia porque foi beneficiado pela trégua da Justiça Eleitoral.
O envolvimento de Freud no caso Vedoin comparava-se ao de Gregório Fortunato no atentado a Carlos Lacerda, em 1954. Ele se apresentou à polícia, negou que soubesse da malfeitoria e ofereceu a quebra de todos os seus sigilos. Listou quatro encontros que teve com Gedimar, tratando da segurança do comitê do PT em São Paulo, todos em agosto. Foram acareados, mas Gedimar manteve-se em silêncio.
Na condição de condenado, Freud sumiu. Sua defesa foi desconsiderada e ele encrencou-se por ter recebido R$ 120 mil das empresas de Marcos Valério e Duda Mendonça.
Circulou uma história segundo a qual Gedimar pusera o nome de Freud na roda para poupar o churrasqueiro Jorge Lorenzetti. O ex-policial não saberia de quem estava falando. Tentando tirar a bola da pequena área, chutara contra o próprio gol. Parecia piada.
Duas semanas depois da manhã em que Freud Godoy desceu aos infernos, prevalece sua inocência diante da acusação que lhe fez Gedimar (nada a ver com os saques valerianos e as contas pagas por Duda). A comparação das chamadas de seu celular com as do aparelho de Gedimar confirmaram o que ele contara: conversaram em agosto. A Justiça cassou a ordem de prisão que o ameaçava. A Polícia Federal disse que não tem indícios para acusá-lo. O procurador Avelar disse aos repórteres Fábio Victor e Leonardo Souza que, com base nos elementos de que dispõe, não pode acreditar no envolvimento de Freud na operação.
Zero a zero, bola ao centro. Se alguém tiver algo contra Freud Godoy, que conte, mas a partir da acusação que lhe fez Gedimar Passos, nada se pode dizer dele.
Quanto mais clara for a exoneração de Freud do inferno onde foi atirado, melhor para a saúde das instituições nacionais. Para começar, Freud vai exonerado da condenação que sofreu numa referência do signatário na qual foram levadas em conta suas relações perigosas, mas desprezado o essencial: sua defesa. A ele, o devido pedido de desculpas.