Riquelme rege o histórico 6 a 0

Alceu Nader | Textos | Sábado, 17 de Junho de 2006

A partida não foi histórica somente pelo placar, mas pelo maravilhoso show de bola. Poucos hão de discordar de que contra a Sérvia e Montenegro a Argentina tenha feito o melhor jogo desta Copa.

Aos 17 minutos do primeiro tempo Lucho González sai de maca e dá lugar a Cambiasso que marcaria um golaço depois da troca de 25 passes. Começa o segundo tempo com o placar marcando 3 a 0 e, aos 13 minutos, Carlito Tevez substitui Saviola. Com a saída de Maxi Rodriguez e autor de dois gols entra Lionel Messi, atacante do Barcelona. O craque foi contratado pelo campeão da UEFA aos 13 anos de idade (ele completa 19 no próximo sábado, dia 24).

José Pekerman, técnico e, pelo visto, arranjador de música, decretou o fim do mito do Grupo da Morte nestas três substituições. E ter Tevez, Messi e Cambiasso no banco de reservas é ter time para vencer de 6 e também a Copa.

Crespo, Sorín, Mascherano, Abbondanzieri, Burdisso, Ayala e Heinze completaram a orquestra, Riquelme a regeu. Vê-lo jogar é um misto de inveja e grande admiração. Participou de 4 dos 6 gols e quando pegava na bola parecia que a cena do jogo se congelava e somente ele se movimentava comandando o espetáculo. Ao distribuir a bola mudava o ritmo da partida e desequilibrava.

Os três grandes jornais - Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo - rendem justa homenagem a seleção argentina.

“Ilija Petkovic se encolheu no banco. Olhos fechados, cabeça baixa. Parecia querer sumir.
Sua defesa, a melhor da Europa nas eliminatórias, acabara de assistir atônita a uma troca de 24 passes. Sorín, Saviola, Riquelme, Crespo. Um toque de calcanhar. Gol de Cambiasso.
Jogada magnífica, daquelas que dificilmente se repetem num mesmo jogo de futebol.
Para azar do treinador de Sérvia e Montenegro, porém, a Argentina construiu outras cinco, também temperadas com precisas trocas de bola ou arroubos individuais. No final, um 6 a 0 histórico, a maior goleada de um país sul-americano sobre um europeu em Mundiais desde 1954, na Suíça”, inicia a Folha de S.Paulo em sua principal reportagem de hoje.

O Globo na capa do caderno de esportes rende justa homenagem ao timaço mostrando uma grande foto com os jogadores festejando a grande vitória. Na parte de baixo dois quadros lado a lado. O primeiro com o título O QUE ELES TÊM, onde se lê somente a palavra FUTEBOL. O outro, O QUE ELES NÃO TÊM, lê-se: FEBRE, BOLHA, TONTEIRA, O MELHOR DO MUNDO, QUADRADO MÁGICO, BOATE, BATE-BOCA COM PRESIDENTE, BRIGA COM A IMPRENSA.

O Estado de S.Paulo não deixa por menos e prevê que nosso vizinho é candidato a campeão numa matéria intitulada “Argentina, o primeiro espetáculo” onde se lê que “o primeiro espetáculo da Copa do Mundo 2006 leva a assinatura do estilo sul-americano. E foi sob a direção de José Pekerman e com atuações impecáveis de um elenco sem coadjuvantes. Só houve protagonistas nos 6 a 0 aplicados ontem pela Argentina sobre Sérvia e Montenegro, em Gelsenkirchen. Coisa de cinema. A Argentina saiu viva do Grupo da Morte, depois de apresentar um futebol de pura magia. Classificou-se para a 2ª fase e mandou um aviso: é candidata - e das mais fortes - ao título”.

Acredito que o desejo nacional seja que os jogadores brasileiros tenham assistido ao jogo e busquem inspiração na belíssima apresentação e que esqueçam o segredo de Estado do excesso de peso de Ronaldo e se lembrem que sabem e podem jogar futebol.

Se Brasil e Argentina se classificarem em primeiro lugar em suas chaves, poderão se encontrar na final. Especular, hoje, sobre como seria esta possível partida e o resultado é escrever ficção. Como torcedores desejamos que o Brasil substitua a Argentina no comando do espetáculo e “vingue” a Sérvia e Montenegro.

E o que faremos como jornalistas? Se de fato este encontro ocorrer será que a imprensa brasileira mostrará o mesmo respeito e admiração pelos los hermanos?

Walter Alves

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