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Alceu Nader | Textos | Terça, 13 de Junho de 2006

A propósito da polêmica sobre o excesso de peso de Ronaldo Fenômeno, e da comparação do jogador com o presidente da República sobre o “também disseram” que Lula bebe “pra caramba”. Também disseram…

Ronaldo não jogou lhufas hoje. Parecia que a bola dava choque no pé dele. Mas esse é outro assunto.

O que queria comentar é uma das notas da coluna de Dora Kramer, do O Estado de São Paulo. Ela diz “chegou a ser cogitada entre a comissão técnica a hipótese do corte de Ronaldo do primeiro jogo do Brasil, como forma de desagravo ao presidente da República”.

Alguém acredita?
Sem estar muito bêbado ou muito louco, parafraseando Chico Buarque, é difícil.
Como espectador permanente de futebol na mídia, acho muito improvável. Ronaldo poderia não ter sido escalado, mas por outros motivos.

Primeiro, porque futebol é uma instituição mais importante do que política no Brasil. Tão importante que, nem durante a ditadura militar, foi feita qualquer concessão. Em 1970, no breu da ditadura, o general Emilio Garratazu Médici sugeriu que Dario Maravilha deveria fazer parte do time. Não lhe deram bola nem justificativa.

A nota diz ainda que quem “deu o contra” foi Cafu, argumentando que “constrangimento por constrangimento”, Zagalo também criou o seu “na fatídica videoconferência que 13, o dia do jogo, era também o número do PT e símbolo da ‘vitória’. Com isso, Cafu salvou o Brasil de um vexame sem precedentes.”

Constrangimento? Não fui isso que eu vi na televisão.
Zagalo “vocês vão ter de me engolir” cedeu e mentiu sobre sua obsessão com o “13″?

O que eu vi foi a amplificação de um ruído pela imprensa, obrigando ambas as partes a desculpas pelo mal-entendido retratado na grande imprensa tucana.
O último dos três dias de leva-e-traz trouxe, no mesmo Estado, reportagem sobre a tentativa de esclarecimento do jogador assinada por quatro repórteres. Um fenômeno: quatro repórteres assinando uma entrevista, na qual se lia, além da metade do texto, que, “mais uma vez”, Ronaldo criticou e se queixou da imprensa por causa do rolo criado.

A nota político-futebolística, sem fonte alguma sendo responsabilizada, apesar de malhar na fraqueza institucional do presidente da República, atribui-lhe um poder e um gesto - o castigo da não-esclaração contra a Croácia - que ele não tem e nem seria insensato de permitir.

Já pensou na tragédia eleitoral, se Ronaldo não jogasse (apesar de não ter feito falta hoje), e o Brasil perdesse na estréia da Copa?
Seria Lula tão estulto a insensato em arriscar-se a esse risco?

Por fim, há que se admitir que o mal-estar foi real. Só que ninguém queria briga nem exigiu retratação. A falta de fonte, nome e endereço de revelação tão grave para a pátria de chuteiras, porém, compromete. Parece mais uma jogada da coluna para reduzir Lula, mas que gera efeito contrário. Que digam os números do Ibope que a Globo acabou de anunciar.

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