O presidente da Philips do Brasil, Paulo Zottolo, sentiu o perigo. É o que transparece em sua entrevista à Folha de S.Paulo, onde ele rejeita a pecha de “golpista” e justifica porque envolveu a multinacional holandesa na campanha “Cansei”. O executivo indiste que a campanha é apartidária apesar da carteirinha partidaria das pessoas que, junto com ele, embarcaram na canoa.
Mas a longa entrevista ao jornal reflete outra preocupação: se a campanha de boicote aos produtos da Philips pegar, seu emprego corre o risco de entrar em curto-circuito. Esse pode ser o motivo de sua fala à Folha como ativista. Nela, Zottolo explica que a campanha nasceu naturalmente, do nada, quase sem-querer, depois de vários encontros e telefonemas – todos com sua participação como articulador. “É inadmissível que qualquer movimento de cidadania neste país ou é de oposição ou é de elite”, reclama.
Tudo começou, conta, com um telefonema indignado do irmão da cantora Ivete Sangalo, Jesus Sangalo, “sobre a situação no país”. Assim começou seu engajamento. Depois de contaminado pela idéia, abraçou a causa com outros entusiastas da campanha, em particular o empresário João Dória Junior.
Ao final da leitura da entrevista, com as justificativas e as explicações de como se formou o círculo de apoiadores que se juntaram a Zuttolo, fortalece-se a conclusão da brilhante análise publicada no blog do jornalista Luís Nassif - disparado, o melhor blog da internet brasileira: a qualidade e integridade dos responsáveis por multinacionais instaladas no Brasil já foi bem melhor.
Para ler o texto de Nassif, clique aqui: “Os estadistas e a tranca do bem”
Após as explicações e a “indignação” de Zottolo – acredite-se ou não, ele não se conforma com a oposição -, ficam as perguntas:
Teria a Philips, agora sob ameaça de boicote, comprado gato por lebre ou não ter sido mal informada sobre quem escolheu para chefiar sua unidade no Brasil?
A Philips holandesa apóia o engajamento de sua filial em uma campanha que se diz apartidária, mas cuja direção traz homens com biografias ligadas a Paulo Maluf, FHC e Geraldo Alckmin?
Quem é o executivo Paulo Zottolo?
A essa última pergunta, uma rápida pesquisa na Internet revela que:
Folha de S. Paulo, 22/03/04
“Empresários descartam pagar pela ineficiência do governo com INSS maior”
Os empresários aproveitaram o apoio do ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, para avisar ao governo que não aceitarão um novo aumento de carga tributária. Furlan, que almoçou hoje em São Paulo com 200 empresários, disse que a carga tributária brasileira “já passou do limite”.
“Está faltando articulação ao empresariado para contestar. Os empresários já fazem há muito tempo a sua parte. Só quem não percebeu foi o governo. É o empresariado que paga todos os rombos do governo, a ineficiência do governo. Quem paga somos todos nós”, disse o presidente da Nivea Beiersdorf, Paulo Zottolo.
(…)
Folha de S.Paulo, 20/04/2005
“Saia Justa”
Durante almoço com cerca de 150 empresários ontem, em São Paulo, para apresentar seu novo plano de comunicação, o ministro Luiz Gushiken se viu numa saia justa. Depois da apresentação, Paulo Zottolo, presidente da Nivea, criticou o PT e manifestou seu inconformismo com o fato de Gushiken pedir “apoio” aos empresários “20″ meses antes da eleição. Ele foi embora antes de Gushiken concluir a resposta. Ao seu estilo zen, ele disse que o “apoio” era para projetos ligados à educação. A pergunta foi aplaudida, mas a resposta, não.
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Ainda em 2005, várias publicações e colunas que entopem jornais e revistas com edificantes informações e revelações sobre a vida de celebridades registraram que, durante o evento anual promovido por João Dória Júnior, na Ilha de Comandatuba (aquele em que esposas de empresários se fantasiam de oncinhas, como bem anotou para a história o jornalista Elio Gaspari), os inconformados convidados lotaram três Airbus, dois jatos executivos e treze aviões particulares.
Mantendo a tradição do evento social, cada uma das empresas ofereceu uma “lembrancinha” às mulheres dos convidados. Zottolo, na época presidente da Nívea, mandou produzir , em tempo recorde, para distribuir o mimo antes do término da festa, um livro de retratos, chamado “Women In Blue”; com fotos de todas as esposas de todos participantes, com direção de arte da África.
Muito edificante e contrastante com as 16 imagens de favelados brasileiros que ele mandou pendurar em sua sala, e cujas vidas são comparadas, na entrevista. “Eu tenho salários aqui que são 100 vezes maiores do que qualquer pai dessas famílias”, comenta ao jornal, e acrescenta: “O que mais me toca nessas fotos é que pela pior situação que vivem, todas elas têm um ar de otimismo e de alegria”
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Poucos meses antes da “party” anual que João Dória Júnior oferece para homens de negócio e altos executivos no descolado trecho do litoral sul da Bahia, Zottolo, em reunião do presidente da República com empresários, questionou Lula “sobre a imagem que gostaria de deixar como presidente”.
Lula respondeu:
“Quando eu terminar meu mandato gostaria que vocês, empresários,
fizessem uma medição do que aconteceu nos últimos 30 anos na economia brasileira, comparando em que momento nós estivemos melhor, tivemos mais credibilidade, em que momento as coisas andaram muito melhor para o Brasil. Eu quero que a sociedade veja o meu governo como aquele que estão fazendo pelo Brasil uma coisa que deveria ter sido feita há 30 anos, que é garantir que o país tenha sua primeira oportunidade de ter um ciclo de desenvolvimento sustentável”.