Jornais em xeque: governador do Rio aponta o que eles fingiram não ver

Alceu Nader | Textos | Terça, 17 de Julho de 2007

Denúncia de Sérgio Cabral repercute de maneira desigual nos jornalões; de novo, omissões e soberba escondem o essencial

As vaias ao presidente da República, na abertura do Pan-Americano, sexta-feira passada, no Rio de Janeiro, voltam com toda força às primeiras páginas dos jornais de hoje. Aqui e ali, sai da sombra o que o Contrapauta apontou no dia seguinte: a súbita mudança do público quando o os auto-falantes e os telões expunham Cesar Maia (aplausos) ou quando mostrava Lula (vaias). Desde o início, frise-se, o objetivo do blog não foi questionar se as vaias foram justas ou não, mas sim sublinhar a cegueira de ocasião da grande mídia, que se esforçou o quanto pôde para esconder a suspeita de armação no episódio.

O blog também bateu nos escribas dos jornalões que se esforçaram em legitimar as vaias e omitir a arapuca e reforçar a impressão de que todas as 75 mil pessoas que assistiam à festa olímpica vaiaram com sólida convicção. Um desses serviçais, Alexandre Garcia, ex-porta voz da ditadura, ontem à tarde, na rádio Eldorado de São Paulo (pertencente ao O Estado de S.Paulo) cuspia no microfone da emissora que as vaias haviam sido justas porque “a população já não agüenta mais”. A essas alturas, o que demonstra que não importa a qualidade da informação que a rádio deveria preservar, já corria no noticiário o desagravo do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, da Fierj (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) e a carta aberta do Comitê Olímpico Brasileiro atribuindo à “vossa vontade” (de Lula) a bela cerimônia de abertura dos jogos.

Hoje, apesar da clareza e provas de que se tratou de armação, a grande mídia ainda tapa os olhos. A reação é previsível. Primeiro, porque ainda não engoliu como Lula sobreviveu ao massacre do mensalão e conseguiu se reeleger. Segundo porque não pode desmoralizar seus escribas de plantão.

A manipulação de hoje recorre à omissão dos fatos. O exemplo mais visível é o do Jornal Nacional de ontem à noite, que abriu espaço para a tristeza de Lula, confessada em seu programa semanal de rádio, mas “se esqueceu” de noticiar a guerra entre o prefeito e o governador do Rio de Janeiro. Assim, deu-se a vaia como fato consumado. E tome otimismo, sentimentalismo e falso patriotismo com as parcas medalhas conquistadas até agora.

Nos jornais, o painel muda um pouco – mas mantém o ranço. O Correio Braziliense que jogou as vaias na capa da edição de sábado, hoje não traz nada na primeira página e, no caderno interno, privilegia a guerra entre governador e prefeito e a defesa da Fierj. No quadro que remete para a decepção de Lula difundida no programa de rádio, dois parágrafos para Lula e dois parágrafos para Fernando Henrique Cardoso, que ontem saiu da cripta mais uma vez. Para dizer que, se fosse ele, não teria deixado de abrir os jogos.

A Folha de S.Paulo toma o mesmo atalho na capa. No caderno interno, traz um painel de opiniões com Fernando Henrique (antes de voltar para a cripta) e José Serra defendendo Cesar Maia, além do próprio Cesar Maia e de Sérgio Cabral. No espaço Opinião, Eliane Cantanhêde se debate para justificar o que não tem explicação e cai no ramerrão de que os que viram as vaias com desconfiança fazem parte da platéia de Lula, que não admite controvérsias e outras bobagens. Acerca de suas conclusões precipitadas do último domingo sobre a “vaia histórica”, da desinformação sobre a claque do contra armada por Cesar Maia e da tenebrosa previsão do Brasil dividido entre a boiada de pobres do Nordeste a esclarecida classe média do Sul-Sudeste, nenhuma palavra. Não surpreende; a soberba faz parte do figurino.

O Jornal do Brasil escancara. “Cabral: vaia é armadilha contra Lula”, diz sua manchete principal. No caderno interno, mais: “Cabral disse que a vaia ao presidente partiu de um pequeno grupo que estava “muito bem acomodado” à esquerda das tribunas de honra. O governador, no entanto, não citou o nome do prefeito do Rio, Cesar Maia, como articulador da suposta armação contra Lula”. Ponto para o jornal. Não tergiversou, e abriu com o que é notícia: a denúncia de um governador de estado.

No O Estado de S.Paulo, o noticiário ocupa uma página. Nela, dividem o espaço o programa de rádio de Lula, onde a reportagem cobra que “Lula não explicou, porém, que fez questão de ser o anfitrião da festa”. Em segundo plano, o comunicado do COB, a reação oficial do Planalto e uma esquisita reportagem com “analistas” que oferecem como conclusão que Lula ´”não deveria se preocupar excessivamente com as vaias que recebeu”. Na segunda página, Fernando Henrique de novo, pouco antes de entrar na cripta, uma nota de uma coluna sobre a denúncia de Sérgio Cabral e reportagem com três colunas para a defesa de Cesar Maia. No pé de sua coluna, Dora Kramer estrebucha com argumentação semelhante à de Eliane Cantanhêde.

No O Globo, por fim, a manchete principal noticia a “guerra entre governistas e oposicionistas, assim como entre o governador Sérgio Cabral e o prefeito Cesar Maia. O texto traz a denúncia de Cabral de que “o presidente foi vítima de uma armadilha” e abre para Cesar Maia acusando o governador “de estar defendendo Lula por interesse na liberação de verbas do PAC e que o Planalto usa ‘claques de aluguel’”. No caderno interno, duas páginas. A primeira abre com a reportagem “Ecos da vaia”, que também remete para o programa de Lula no rádio, traz o confronto entre governador e prefeito, a denúncia do blog de um dos filhos de Lula de que houve armação e o “Recado” do jornal de que a vaia, “se bem entendida tem efeitos benéficos”. Na segunda página, o embate oposição versus situação, repercussão na imprensa internacional e a espantosa coluna de Merval Pereira, com a trepidante informação de que “o episódio das vaias reacendeu nas lideranças dos Democratas, o partido de Cesar Maia, a sensação de que é possível derrotar o governo nas eleições presidenciais de 2010”. No pé da página, já acomodado na cripta, Fernando Henrique deixa sua mensagem: “a gente tem que se habituar a não ser arrogante”.

Colunas exploram as vaias no Pan, e voam para bem longe da explicação para o episódio

Alceu Nader | Textos | Domingo, 15 de Julho de 2007

A naturalidade com que a grande mídia viu que o mesmo Maracanã que vaia Lula aplaude Cesar Maia, evoluiu: hoje, sem se perguntar sobre o que realmente teria provocado este fenômeno, duas colunas sustentam transcedentes conclusões, mas não respondem à questão: por que o prefeito foi aplaudido e o presidente foi vaiado?

Eliane Cantanhêde, na Folha de S.Paulo, e Dora Kramer, no O Estado de S.Paulo ignoram, com perdão do trocadilho involuntário, olimpicamente o mistério que qualquer jornalista medianamente ciente de suas funções se perguntaria: por que aplauso para um prefeito que a população do Rio de Janeiro concedeu 32% de “ótimo” (DataFolha, março/07) e vaias para um presidente que recebeu mais de 50% das opiniões na mesma avaliação?

Sobre a ignorância (ou preguiça, ou estultice) da pergunta que ambas não quiseram fazer, o leitor encontra em Cantanhêde que “a vaia é histórica”, e destila o preconceito venal de que “O Pan deveria ter sido no Nordeste…”. No final, bate na surrada tecla de que o atual governo separa ricos e pobres:”aplausos dos pobres do Bolsa Família e do Nordeste, vaias da classe média e dos que podem pagar caro pelo Pan no Sul-Sudeste. Não é bom prenúncio”. Nada mais velho; o argumento não pegou nas eleições, e perde cada vez mais liga a cada indicador econômico que mostra ganhos salariais em todas as categorias, recordes de emprego com carteira assinada, no financiamento à casa própria, na concessão de crédito consignado e outros números turbinados muito mais pelo desempenho dos estados mais ricos do que os mais pobres.

Kramer vai um pouco mais longe em sua análise psico-política-esportiva-partidária sobre o episódio, dizendo que Lula recusou-se a abrir os jogos porque lhe faltou “espírito esportivo”, “ausência de senso de realidade de seus áulicos” e que o presidente é “intolerante com a divergência” e “sem desenvoltura para enfrentar algo perfeitamente natural na vida de um homem público”.

Menos, colunistas. Menos.

Para tentar dar um pouco de nobreza ao episódio, que não terá fitas de câmara de vigilância, nem gravações clandestinas, nem depoimentos reproduzidos nos meios da grande imprensa - porque não lhes interessa saber o que realmente aconteceu -, reproduzo o texto abaixo, enviado por um leitor e amigo do blog.

Além da Política

por Petia Botovchenko

As vaias a Lula na abertura dos Jogos Panamericanos foram inconvenientes, por razões que vão além da política. O significado mais profundo deste evento, aquilo que o qualifica como tradição central da civilização ocidental, merecedora de ser ressuscitada no século XX, é o seu caráter de festa não-político-partidária. Os gregos, em mais uma lição de sabedoria, interrompiam todas as guerras durante os jogos. Jogos só podem ser considerados olímpicos se juntarem no mesmo espaço, sem conflitos ou ressentimentos, aqueles normalmente separados por discordâncias e conflitos de interesse. Se permitirem o congraçamento, temporário que seja, entre adversários. A transformação de Jogos Olímpicos em arena política tem consequências sociais tão perversas e destrutivas quanto a transformação das torcidas de futebol em gangues dedicadas ao vandalismo.

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Vídeo do YouTube do ensaio da festa de abertura do Pan, com vaia para Lula

Vaias para Lula, aplausos para César Maia. Tudo muito natural

Alceu Nader | Textos | Sábado, 14 de Julho de 2007

Quando a honestidade jornalística está na exposição dos detalhes

O noticiário sobre as vaias ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no Maracanã, na abertura dos Jogos Panamericanos, serve, hoje, para mostrar um pouco da honestidade dos jornais, que, no caso, reside na exposição dos detalhes do fato. No caso específico, quem assistiu à abertura dos jogos, pôde constatar: a platéia acompanhou quem coordenava aplausos para o prefeito César Maia e vaias para Lula.

Apenas um jornal, entre os cinco mais influentes do país, reproduz esse detalhe: Folha de S.Paulo. O Globo até trata do assunto, mas para matar qualquer alusão de que a vaia tenha sido encomendada. O Estado de S.Paulo relata que, antes da abertura, em visita aos atletas da Vila Olímpica, a comitiva presidencial escutou até o traicional “olê, olê, olê olá… Lula, Lula!”. Nos demais, a vaia foi a coisa mais normal do mundo.

Aos textos

Correio Braziliense

Manchete na primeira página:

Gigantesca vaia em Lula abre os jogos

“O presidente Lula passou ontem por um dos maiores constrangimentos de seu governo. Foi vaiado seis vezes na abertura dos Jogos Pan-Americanos no Rio. Aborrecido, não cantou em voz alta o Hino Nacional interpretado à capela pela cantora Elza Soares. Ficou o tempo todo de cara fechada e, no final, ainda quebrou o protocolo ao se esquivar de abrir os jogos oficialmente. As 75 mil pessoas que lotaram o Maracanã para assistir à festa foram brindadas com um magnífico espetáculo de fogos, carnaval, música e folclore. (…)

Na reportagem:

Título:
“Beleza e constrangimento”

“(…) o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou um dos maiores constrangimentos de seu governo ao ouvir ontem, no Maracanã, uma seqüência de seis sonoras vaias das 75 mil pessoas que foram assistir à cerimônia de abertura da 15ª edição do Pan. O vexame internacional ocorreu na presença de chefes de Estado e de governo, como os mandatários de Canadá, Panamá, Honduras, Antígua e Barbuda, Aruba e Antilhas Holandesas, além das delegações de atletas de 42 países das Américas.

Folha de S.Paulo

Manchete na primeira página:

“Lula é vaiado 6 vezes na abertura oficial dos jogos”.

Na reportagem:

Título:“Lula vai ao Pan… Pan vaia Lula

Vaiado seis vezes na cerimônia de abertura do Pan-Americano do Rio, ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não fez a declaração habitual de abertura, como exigia o protocolo esportivo. (…)
(…)
O governo federal bancou R$ 1,8 billhão dos R$ 3,7 bilhões gastos na preparação dos Jogos, sendo que R$ 49,8 milhões foram direcionados para festas relativas ao evento esportivo.
A primeira vaia a Lula, vinda de um público que pagou entre R$ 20 e R$ 250 por cada ingresso, surgiu quando a imagem do presidente apareceu nos dois telões do estádio. Sua figura foi rapidamente tirada, e então o público aplaudiu. A organização ainda tentou novamente, com uma imagem um pouco mais distante, e veio a segunda vaia. A terceira e quarta vaias aconteceram durante anúncio de sua presença no Maracanã pelo sistema de som e em nova imagem nos telões. Outras duas vaias ocorreram durante a menção ao nome de Lula nos discursos de abertura dos Jogos, feitos por Nuzman e pelo presidente da Odepa (Organização Desportiva Pan-Americana), Mario Vásquez Raña. Quando Nuzman mencionou o governador do Rio, Sergio Cabral, houve aplausos parciais. Quando citou o posto do prefeito do Rio, Cesar Maia, houve aplausos efusivos.”

Jornal do Brasil

Manchete na primeira página:

“Festa para a tocha, vaias para Lula”

Empolgado, público canta e até vaia o presidente Lula

Na festa de abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio, até canção de ninar teve acompanhamento de palmas. (…)
A farra só era interrompida quando o nome do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, era anunciado. O presidente que discursaria depois do presidente da Organização Desportiva Pan-Americana, Mario Vazquez Raña, desistiu de tomar parte da festa. Segundo Laércio Portela, da secretaria de imprensa do Planalto, houve um desentendimento de cerimoniais.”

O Estado de S.Paulo

Manchete na primeira página:

“Seis vezes vaiado, Lula não abre o Pan”

na reportagem:
Depois de ser vaiado seis vezes durante a cerimônia de abertura dos jogos Pan-Americanos, ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda protagonizou uma confusão que levou os jogos a serem abertos oficialmente pelo presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman - papel que, habitualmente, cabe ao chefe de estado do país.
Incomodado com as vaias, Lula passou a cerimônia com a fisionomia fechada, tendo ao lado, entre outros, seu vice José Alencar, o governador Sérgio Cabral e vários ministros. O constrangimento foi tanto que o presidente se recusou, num primeiro momento, a fazer a declaração de abertura oficial dos jogos. Convencido por assessores a abrir o evento, Lula pediu, então, o microfone, mas foi atropelado pela declaração feita por Nuzman, que não fora avisado de que o presidente havia mudado de idéia. (…)
“Houve um desencontro de informações entre os cerimoniais”, justificou o Planalto para a desistência de Lula, que se mostrou visivelmente constrangido com o episódio. “Foi uma precipitação da assessoria do presidente, que avisou que ele não faria a declaração”, afirmou o prefeito do Rio, César Maia (DEM). ‘Foi uma confusão que criou um constrangimento muito grande’, completou Maia.
(…)
As seis vaias ao presidente foram dadas todas as vezes que seu nome foi citado no microfone do Maracanã ou que sua imagem mostrada no telão. A partir da quarta vaia, no entanto, os convidados que lotavam a tribuna de honra decidiram puxar palmas para o presidente, no que foram seguidos por muitos torcedores.

“A mim me pareceu coisa orquestrada. Era só observar de onde vinha e dava para perceber que era uma coisa organizada”, declarou o ministro dos Esportes, Orlando Silva. Ao deixar o estádio, Lula evitou a imprensa e se recusou a responder se estava chateado com os protestos.

Para consolo de Lula, de manhã ocorreu o contrário: ele foi recebido, na Vila Olímpica, com gritos de “olê, olê, olê olá… Lula, Lula!”, gingle de suas campanhas eleitorais. Trajando o agasalho oficial do Pan, ao lado de Marisa Letícia, ele visitou as instalações da Vila, brincou na sala de ginástica, tirou fotos, deu autógrafos. Muito assediado, desistiu de almoçar com os atletas e rumoupara o Hotel Sofitel, em Copacabana - não sem antes posar para fotos com os ginastas Daniela e Diogo Hipólito e Daiane dos Santos.”

O Globo

Manchete na primeira página:

“Emoção, carnaval e vaias na festa do Pan”

Texto na primeira página:
Em cerimônia marcada pela emoção e beleza, cujo ponto alto foi o Hino Nacional cantado por Elza Soares acompanhada dos 90 mil presentes, os Jogos Pan-Americanos do Rio foram abertos ontem com um improviso: após ser vaiado cinco vezes pelo público, numa das maiores vaias da história do Maracanã, o presidente Lula deixou de fazer a leitura oficial da abertura dos Jogos, tradicionalmente a cargo do presidente do país-sede. Sua alta popularidade no país não resistiu à máxima do escritor Nelson Rodrigues: “O Maracanã vaia até minuto de silêncio”, ele dizia. Marta Suplicy e as delegações de EUA e Argentina também foram vaiadas. Com uma organização impecável, o estádio não tinha flanelinhas, ambulantes ou estacionamento ilegal. E tudo terminou em samba, na voz de Daniela Mercury cantando “Aquarela do Brasil”.

Na reportagem:

Título:
“Maracanã não perdoa e vaia Lula”

(…) o público presente ontem ao estádio para a cerimônia de abertura do Pan recebeu com vaias o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula foi vaiado quatro vezes durante a festa e, para evitar um constrangimento maior, o cerimonial foi alterado: o presidente, que deveria anunciar a abertura oficial da competição, deixou a tarefa para o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman. As vaias também atingiram Marta Suplicy, quando a imagem da ministra do Turismo apareceu nos telões do estádio.

(…)
No cronograma da festa entregue aos jornalistas, Lula seria o último a se pronunciar, após os discursos de Nuzman e do presidente da Organização Desportiva Pan-Americana (Odepa), Mario Vázquez Raña.
O presidente da República falaria a tradicional frase: “Declaro abertos os Jogos”. O protocolo, no entanto, foi alterado devido às vaias. A primeira aconteceu quando sua imagem apareceu nos telões do estádio, antes mesmo do início da cerimônia. A segunda quando seu nome foi anunciado pela apresentadora; a terceira, ao ser citado por Nuzman, já no final da solenidade, e a quarta ao ter seu nome pronunciado pelo presidente da Odepa.

Quem estava perto do presidente custou a entender o que se passava. Ao fim da solenidade, quando Nuzman e Raña ainda estavam no palco, Lula se levantou na Tribuna de Honra e um microfone foi colocado à sua frente, como se ele estivesse se preparando para falar. Mas foi Nuzman quem declarou abertos os Jogos. Na tribuna, o microfone à frente de Lula foi rapidamente retirado.

A assessoria do presidente informou que houve um desencontro de cerimoniais. O prefeito Cesar Maia, que estava próximo a Lula, deu sua versão para a quebra do protocolo.

— A assessoria de Lula pediu para ele não fazer a declaração, mas se esqueceu de avisar ao presidente da Odepa, que fez a leitura do nome do presidente. O Mario Vázquez acabou sendo, inocentemente, o responsável por um fato constrangedor — disse Cesar.

O prefeito, que chegou ao Maracanã acompanhado do governador José Serra, aproveitou para alfinetar Lula: — Quando houve a vaia, o presidente se levantou. Não devia ter feito, por uma questão de elegância com os países que estavam desfilando.

(…)
De manhã, Lula visitara a Vila Pan-Americana, onde tirou fotos com atletas e voluntários e percorreu o condomínio construído com financiamento da Caixa Econômica Federal, por meio de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador. Foram repassados R$ 189 milhões.
Além disso, o Ministério do Esporte liberou R$ 30 milhões para alugar os 1.480 apartamentos da Vila.
(…)
Apesar de ter as passagens compradas com dinheiro público, ele garantiu que já teria que ir ao Rio de qualquer forma, pois tinha um compromisso de trabalho na cidade marcado para segunda-feira.

— Está uma confusão aqui, muita fila para pegar a credencial — reclamou Nardes.

(…)
O ministro Orlando Silva, que compareceu com a mulher e a filha Maria, de 5 meses, disse, ao deixar o estádio, que as vaias haviam sido orquestradas, sem explicar por quem.

Na coluna de Ancelmo Gois

Gois no Pan I
Já começou a teoria conspiratória. Gente ligada a Lula jura que a vaia para o presidente foi puxada por partidários de César Maia – por sinal, aplaudido – que ganharam ingressos.

Gois no Pan II
Estava escrito nas estrelas: As vaias do Maracanã tinham endereço certo: Lula e as delegações dos EUA, da Argentina e da Venezuela – os mesmos alvos das vaias do ensaio geral de quarta.

Nota: Nas eleições do ano passado, no Rio de Janeiro, a votação do segundo turno teve os seguintes resultados: Lula: 69,69%; Alckmin: 30,31%.

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