Música brasileira da boa - site em teste (um dia sai)

16 de Dezembro de 2007 @ 17:28 por Alceu Nader

Instalada nos EUA, com o devido recolhimento de copyrights, a Musical.BR marca o retorno das atividades do Contrapauta. Não foram poucas as reclamações e cobranças que questionavam o silêncio repentino do blog - e não havia resposta para justificar, mas tão somente uma realidade. O jornalista responsável teve de correr atrás da sobrevivência e dedicar seu tempo em busca de atividades que rendessem algum din-din no final do mês para pagar as contas.

A parada também serviu para reflexão. E dela, a decisão de mudar o Contrapauta, principalmente torná-lo mais atrativo com a criação de um espaço na blogosfera que também servisse como referência de boa música brasileira e internacional. Patamar, é bom lembrar, que somente será alcançado com a participação dos leitores.

A primeira parte do trabalho já foi feita. A estação está criada, toca 24h por dia e tem cerca de 170 canções no arquivo. O forte da programação é MPB da melhor qualidade, de todos os gêneros e estilos, mas com algumas surpresas que farão a diferença.

O quesito raridades é um deles. Para atiçar a curiosidade, a programação tem:

  • Elis e Tom conversam, xingam e gargalham em gravações de estúdio, até descobrirem a química perfeita de “Águas de Março”; ou, depois de boa conversa, risos e causos cantarem de primeira “Na Batucada da Vida”
  • George Harrison, na gravação da demo de “Something” que serviu para apresentar a música para os outros Beatles
  • Aretha Franklin explodindo de emoção em “Nessum Dorma”. É ópera, mas também é soul
  • Roberto Carlos, nos anos 60, mostrando canções inacabadas como “Negro Gato” e “Querem Acabar Comigo”
  • Bruce Springsteen tocando Ennio Morricone
  • Stevie Wonder e Ella Fitzgerald errando em “You Are The Sunchine of My Life”
  • John Lennon e Paul McCartney pigarreando no ensaio de “Yesterday”
  • Edith Piaf e Charles Aznavour estremecem o teatro com aplausos depois de “Plus Bleus que Tes Yeux”
  • James Brown, novo em folha, canta “Strangers in The Night” e “Sunny”
  • Roger Waters (Pink Floyd) cantando e tocando Morricone e Bob Dylan.
  • Isso é apenas para o começo. Também está no projeto reunir parcerias imprevisíveis, cantores de um único sucesso, canções que marcaram época no Brasil e no mundo, padrões musicais - simples e complexos - que caíram no gosto do povo, e até são hoje cultuados como exemplo de boa música.

    O link abaixo remete para a estação, com cinco dias de acesso grátis para a programação sem interrupção comercial. Depois disso, são US$ 14,85 a cada três meses, ou cerca de R$ 0,30 por dia. O pagamento dá direito a um software que funciona como rádio na web, cuja grande vantagem é adaptar o conteúdo com qualquer tipo e velocidade de conexão.

    Apóie esta estação, tornando-se Ouvinte Preferencial do Live 365!, e ouça a programação especial do Contrapauta sem intervalo comercial

    Caso você não queira o “rádio” da live365, há outro caminho. Clique aqui neste link para ter acesso à página da Musical.BR nos EUA. No centro, bem visível, você vai encontrar este auto-falante com link para a emissora via web.

    Curta e dê sua opinião. Sugira “aquela” música que o rádio não toca. Divulgue a Musical.BR.

    A notícia órfã (e mutilada, inconsistente, leviana, e, por que não dizer?, preguiçosa)

    8 de Agosto de 2007 @ 22:39 por Alceu Nader

    Recebi por e-mail o texto com ink que vai logo abaixo. Veio do meu ex-colega da Rede Globo Noroeste Paulista, Luiz Carlos Azenha, patrono do Sivuca, um dos excelentes repórteres com quem tive a oportunidade de trabalhar. Ele me manda um texto de outro colega, com quem não tive a sorte de trabalhar: Luís Nassif. É demolidor. Pior, deixa transparecer que se trata de movimento consciente para consumação de uma burrice solidamente embasada.
    Nassif desanca, elegantemente, a defesa do diretor da Central Globo de Jornalismo da cobertura da tragédia do Airbus da TAM em Congonhas. Ele lustra a lupa sobre a gestão do jornalismo em gestão na emissora - aquele que opina sobre o que não sabe o quê está falando.

    Vale a pena ler a tese do “teste de hipóteses” que norteou o tropeço monumental da cobertura da tragédia do Airbus em Congonhas.

    A notícia órfã

    Executivo acusado de golpista se explica à Folha. E reclama da oposição

    2 de Agosto de 2007 @ 11:14 por Alceu Nader

    O presidente da Philips do Brasil, Paulo Zottolo, sentiu o perigo. É o que transparece em sua entrevista à Folha de S.Paulo, onde ele rejeita a pecha de “golpista” e justifica porque envolveu a multinacional holandesa na campanha “Cansei”. O executivo indiste que a campanha é apartidária apesar da carteirinha partidaria das pessoas que, junto com ele, embarcaram na canoa.

    Mas a longa entrevista ao jornal reflete outra preocupação: se a campanha de boicote aos produtos da Philips pegar, seu emprego corre o risco de entrar em curto-circuito. Esse pode ser o motivo de sua fala à Folha como ativista. Nela, Zottolo explica que a campanha nasceu naturalmente, do nada, quase sem-querer, depois de vários encontros e telefonemas – todos com sua participação como articulador. “É inadmissível que qualquer movimento de cidadania neste país ou é de oposição ou é de elite”, reclama.

    Tudo começou, conta, com um telefonema indignado do irmão da cantora Ivete Sangalo, Jesus Sangalo, “sobre a situação no país”. Assim começou seu engajamento. Depois de contaminado pela idéia, abraçou a causa com outros entusiastas da campanha, em particular o empresário João Dória Junior.

    Ao final da leitura da entrevista, com as justificativas e as explicações de como se formou o círculo de apoiadores que se juntaram a Zuttolo, fortalece-se a conclusão da brilhante análise publicada no blog do jornalista Luís Nassif - disparado, o melhor blog da internet brasileira: a qualidade e integridade dos responsáveis por multinacionais instaladas no Brasil já foi bem melhor.

    Para ler o texto de Nassif, clique aqui: “Os estadistas e a tranca do bem”

    Após as explicações e a “indignação” de Zottolo – acredite-se ou não, ele não se conforma com a oposição -, ficam as perguntas:

  • Teria a Philips, agora sob ameaça de boicote, comprado gato por lebre ou não ter sido mal informada sobre quem escolheu para chefiar sua unidade no Brasil?
  • A Philips holandesa apóia o engajamento de sua filial em uma campanha que se diz apartidária, mas cuja direção traz homens com biografias ligadas a Paulo Maluf, FHC e Geraldo Alckmin?
  • Quem é o executivo Paulo Zottolo?
  • A essa última pergunta, uma rápida pesquisa na Internet revela que:

    Folha de S. Paulo, 22/03/04

    “Empresários descartam pagar pela ineficiência do governo com INSS maior”

    Os empresários aproveitaram o apoio do ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, para avisar ao governo que não aceitarão um novo aumento de carga tributária. Furlan, que almoçou hoje em São Paulo com 200 empresários, disse que a carga tributária brasileira “já passou do limite”.

    “Está faltando articulação ao empresariado para contestar. Os empresários já fazem há muito tempo a sua parte. Só quem não percebeu foi o governo. É o empresariado que paga todos os rombos do governo, a ineficiência do governo. Quem paga somos todos nós”, disse o presidente da Nivea Beiersdorf, Paulo Zottolo.
    (…)

    Folha de S.Paulo, 20/04/2005

    “Saia Justa”

    Durante almoço com cerca de 150 empresários ontem, em São Paulo, para apresentar seu novo plano de comunicação, o ministro Luiz Gushiken se viu numa saia justa. Depois da apresentação, Paulo Zottolo, presidente da Nivea, criticou o PT e manifestou seu inconformismo com o fato de Gushiken pedir “apoio” aos empresários “20″ meses antes da eleição. Ele foi embora antes de Gushiken concluir a resposta. Ao seu estilo zen, ele disse que o “apoio” era para projetos ligados à educação. A pergunta foi aplaudida, mas a resposta, não.

    ==

    Ainda em 2005, várias publicações e colunas que entopem jornais e revistas com edificantes informações e revelações sobre a vida de celebridades registraram que, durante o evento anual promovido por João Dória Júnior, na Ilha de Comandatuba (aquele em que esposas de empresários se fantasiam de oncinhas, como bem anotou para a história o jornalista Elio Gaspari), os inconformados convidados lotaram três Airbus, dois jatos executivos e treze aviões particulares.

    Mantendo a tradição do evento social, cada uma das empresas ofereceu uma “lembrancinha” às mulheres dos convidados. Zottolo, na época presidente da Nívea, mandou produzir , em tempo recorde, para distribuir o mimo antes do término da festa, um livro de retratos, chamado “Women In Blue”; com fotos de todas as esposas de todos participantes, com direção de arte da África.

    Muito edificante e contrastante com as 16 imagens de favelados brasileiros que ele mandou pendurar em sua sala, e cujas vidas são comparadas, na entrevista. “Eu tenho salários aqui que são 100 vezes maiores do que qualquer pai dessas famílias”, comenta ao jornal, e acrescenta: “O que mais me toca nessas fotos é que pela pior situação que vivem, todas elas têm um ar de otimismo e de alegria”

    ==

    Poucos meses antes da “party” anual que João Dória Júnior oferece para homens de negócio e altos executivos no descolado trecho do litoral sul da Bahia, Zottolo, em reunião do presidente da República com empresários, questionou Lula “sobre a imagem que gostaria de deixar como presidente”.

    Lula respondeu:

    “Quando eu terminar meu mandato gostaria que vocês, empresários,
    fizessem uma medição do que aconteceu nos últimos 30 anos na economia brasileira, comparando em que momento nós estivemos melhor, tivemos mais credibilidade, em que momento as coisas andaram muito melhor para o Brasil. Eu quero que a sociedade veja o meu governo como aquele que estão fazendo pelo Brasil uma coisa que deveria ter sido feita há 30 anos, que é garantir que o país tenha sua primeira oportunidade de ter um ciclo de desenvolvimento sustentável”.

    A mídia julgou e, mais uma vez, errou. Até quando?

    29 de Julho de 2007 @ 11:03 por Alceu Nader

    E agora? Não foi aquaplanagem provocada pela pista mal feita, não foi ausência de grooving, não foi a entrega antecidada da pista principal de Congonhas, não foi imprevidência na inspeção antes da tragédia, não foi, enfim, nenhum dos pré-julgamentos que se assistiu na mídia desde tragédia com o Airbs da TAM.

    As primeiras informações da caixa-preta conduzem para erro humano, como, aliás, registra a maioria dos acidentes aéreos.

    O que dirão, agora, os escribas pagos pelos senhores da mídia? Irão se retratar para recuperar o pouco da credibilidade que lhes resta?

    Improvável… A soberba e a arrogância lhes impede tal nobreza. O script, agora, conduz para o silêncio sobre as bobagens e culpas que distribuíram sem nenhum controle. O importante, para eles, nunca foi apurar a verdade - mas fazer jus à confiança e escrever aquilo que quer quem lhes paga. Alguns nem tão regiamente como se pode supor a pressa que tiveram para mostrar serviço. Pelo contrário, a maioria é mercadoria barata.

    Mas se a sociedade tivesse instrumentos para se defender e exigir correção nas informações divulgadas pelos meios de comunicação, eles pensariam duas vezes antes de acomodar os fatos às conveniências do oligopólio que controla a indústria de mídia.

    Assim acontece em países desenvolvidos, onde a sociedade tem defesa contra os erros e abusos cometidos pela mídia. Mas não no Brasil. Aqui, é diferente. A mídia é controlada por cinco famílias, com interesses que se aliam, e ninguém pode estar acima deles. É, dizem e mandam seus escribas repetir, a liberdade de imprensa. Em outras partes, seria chamado de liberdade de empresa. E não estariam livres para encaminhar a verdade dos fatos como bem entendessem.

    O monitoramento sobre o que a indústria de mídia produz já se consolidou em muitos países, e não se trata de lugares onde impera a ditadura - pelo contrário.

    Alemanha, Azerbaijão, Bélgica, Bósnia e Herzegovina, Bulgária, Chipre, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Estônia, Finlândia, Geórgia, Grã-Bretanha, Holanda, Irlanda, Itália, Lituânia, Luxemburgo, Malta. Noruega, Peru, Polônia, Rússia, Suécia, Suíça, Turquia e Ucrânia, entre outros, são países que têm um Comitê de Auto-Regulamentação para inibir abusos e articulações dos grupos econômicos que comandam meios de comunicação, imprensa inclusive.

    Até quando o Brasil aguentará sem um instrumento eficaz contra os abusos e erros como os que se repetiram com a cobertura da tragédia do Airbus da TAM ?

    Vaias e espírito esportivo: adeus Olimpíadas

    27 de Julho de 2007 @ 09:28 por Alceu Nader

    Os tapuias que ocupam as arquibancadas dos Jogos Panamericanos continuaram agindo como a grande imprensa achou bonitinho, na festa de inauguração. Não faltou quem as justificasse apelando para a irreverência do espírito carioca. Deu no que deu. A massa usou e abusou do recurso, mostrando às comissões estrangeiras o tamanho da nossa incivilidade e atraso. Não faltou agressão aos árbitros estrangeiros, vaias para o primeiro colocado e apupos para tirar a concentração dos atletas. Poucos jornais analisaram a conotação negativa. Pelo contrário, o que se viu - principalmente no Jornal Nacional e nas transmissões da Rede Globo - foi a “força” dada pela “maravilhosa torcida brasileira”, entre outras patriotadas ridiculas.

    O mau comportamento vai pesar contra - e bastante - nas oportunidades em que o Brasil se apresentar ao candidato a sediar a Olimpíada ou outras provas internacionais.

    Bem feito!

    Não saímos do lugar

    24 de Julho de 2007 @ 06:31 por Alceu Nader

    Os aeroportos estão parados outra vez, agora ainda recebendo as últimas gotas do pane do Cindacta da Amazônia e da chuva que ontem caiu sem parar sobre São Paulo. O site do Climatempo promete mais tempo chuvoso para hoje. Isso quer dizer que seremos bombardeados pelo rádio e pela tevê durante todo o dia com reportagens sobre o caos. O foguetório já começou. Nas capas dos jornais, a imagem é uma só: o deslizamento de terra na cabeça da pista principal do aeroporto de Congonhas. Não importa que ele esteja ocorrendo porque o Airbus da tragédia quebrou a canaleta gerando infiltração; importa é utilizar o efeito da imagem com a lama escorrendo pela parede onde se lê “Infraero”, amplificá-la ao extremo para fixar a imagem de destruição de um governo que nada fez para impedir que o número de passageiros do principal aeroporto do país saltasse de 12 milhões para 18 milhões, nos três últimos anos.

    E tome indignação de passageiros que não puderam embarcar por causa do tempo fechado. E tome imagens de filas, de gente dormindo nos bancos dos aeroportos como se fossem bancos de rodoviárias, de passageiros mal-informados e enfurecidos com o atraso. Não importa a chuva, importa a cólera dos revoltosos que não sabem quando o céu se abrirá. Ninguém invoca o bom senso para lembrar que o tempo impede as operações. Não importa o risco ampliado pelo céu fechado. Importa a revolta. E tome balanço de percentuais de vôos com atraso, vôos cancelados e depoimentos dos imprevidentes que querem decolar de qualquer maneira para o seu destino.

    Ao final do expediente, sempre haverá algum senador ou deputado para colaborar com a fúria semeada durante todo o dia. O Jornal Nacional quem sabe lhes garanta segundos de exposição, e lhes dê a oportunidade para desviar a atenção dos senhores da opinião e seus barões para a mais nova mazela nacional. A chance é de ouro. O infiel da hora é o Executivo, que toma o lugar de Renan Calheiros, aquele que, até duas semanas, tinha toda a atenção dos olhos da mídia.

    Amanhã, a confusão generalizada ocupará os editoriais, que abastecerá novos discursos indignados da oposição, que depois de amanhã voltarão aos jornais para pendurar mais uma fatura na conta do governo acuado e impotente. Sem perceber, voltamos ao clima de campanha eleitoral.

    Não saímos do lugar.

    “Comemoração”, “regozijo” em dois segundos nada felizes

    21 de Julho de 2007 @ 08:50 por Alceu Nader

    Não se vê sorriso nas cenas gravadas do assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, reagindo contra a tese que a grande mídia tentou forçar - desde o primeiro minuto - de que a tragédia com o Airbus fora provocada pelas condições da pista do aeroporto de Congonhas. Seu assessor de imprensa, Bruno Gaspar, também não festeja. Basta olhar a reprodução do video mostrado pela TV Globo. São dois segundos.

    Folha e Jornal do Brasil são os únicos que não passam a versão de felicidade dos protagonistas do infeliz episódio. São 22 segundos do vídeo, dos quais dois mostram as cenas condenadas. Confira se há felicidade, regozijo, festejo ou comemoração.

    A Folha de S. Paulo e o Jornal do Brasil são os únicos, entre os jornais mais influentes, que não passam a idéia de festa .

    Chuva de versões, desinformação e julgamento antecipado

    20 de Julho de 2007 @ 09:45 por Alceu Nader

    Fiquei travado nos últimos dias, impossibilitado de escrever sobre o acidente da TAM. Estava com a tevê ligada na GloboNews, quando tudo começou. A desinformação dos primeiros momentos era previsível, mas resolvi mudar de canal após a observação da faxineira da nossa empresa, que acompanhava comigo o que estava acontecendo: “mas essa mulher não tem outra coisa para falar?”, ela questionou, o que incentivou minha decisão de mudar de canal. Fui para a Band, onde começava o telejornal, e liguei o computador para ver se já havia algum registro nos portais. Na Band, as informações também eram escassas, mas sem a repetição da GloboNews que cansou ainda mais nossa faxineira. Assim que entrei no Folha Online, deparei com a primeira grande diferença. Havia muito mais riqueza de informações sobre a tragédia. Mantive a tevê ligada e, minutos depois, quando Ricardo Boechat anunciou as mesmas informações do portal como “últimas revelações”, desisti. A “reportagem” estava conectada na Internet. Seria só o primeiro sinal de desinformação que os meios de comunicação brindariam o distinto público.

    Os jornais do dia seguinte confirmariam. A “tragédia anunciada” pela inoperância do governo federal em pôr fim à crise do setor aéreo passou a ser o principal motivo da tragédia. Junto com esse julgamento antecipado, outra insistência, a pista principal de Congonhas, utilizada pelo Airbus da TAM, foi entregue antes do prazo e incompleta, o que seria a razão da aquaplanagem que impediu a frenagem da aeronave da tragédia. E tome espaço para a “tragédia anunciada” e mais ainda para os escribas pagos e gratuitos da grande imprensa carregar nas tintas e impingir ao distinto público que estariam dispensados todos os demais procedimentos e investigações a respeito, pois eles já haviam elegido o mesmo réu de sempre.

    Na quarta-feira, entrevista coletiva com o presidente da TAM e seus principais diretores. Mais uma vez, forçou-se a barra para arrancar dos executivos a confirmação do culpado elegido na véspera, tendo como ponto alto o discurso da repórter da Jovem Pan (mais mal informada que os demais) sobre o caos nos aeroportos desde a tragédia do Boeing da Gol – fruto, segundo a imprensa decidiu, dos buracos do sistema, e não da irresponsabilidade dos pilotos norte-americanos – como concluíram a CPI do “apagão aéreo” da Câmara e o inquérito policial. Mas essa conclusão dos deputados e da Polícia Federal contraria a tese vigente na mídia. Melhor, portanto, ignorá-la e desistir de apurar outras responsabilidades. Ponto para a impunidade.

    A coletiva dos diretores da TAM, que também assisti ao vivo, reforçou uma impressão antiga: o medo dos jornalistas em desagradar anunciantes dos veículos em que trabalham. Nenhuma pergunta sobre a interferência das companhias aéreas em transformar Congonhas no principal ponto de escalas e conexões do Brasil. Tampouco sobre a carga horária dos tripulantes, e a versão que corre solta de que, na TAM, os pilotos são obrigados a cumprir milhagem voada e não horas trabalhadas. O que se viu em boa parte das perguntas foi a insistência em arrancar respostas dos executivos que conduzissem para a eleição de um único culpado pela “tragédia anunciada”.

    E tome chuva de versões, muitas fortalecidas por “especialistas” que se escondem no anonimato – mas servem para encher espaço e dar base para a tese que elegeu o réu. Três dias depois, outras evidências contrariam a tese central da condução do noticiário. É forte a possibilidade de o acidente ter sido causado por uma soma de fatores, desde a pista molhada (sem aquaplanagem, mas molhada) até a suspeita de falha mecânica. Mas isso pouco importa para os juízes mal-informados das empresas de mídia. Eles continuarão julgando, impunemente, pois a imprensa brasileira não tem quem os vigie e a obrigue de publicar correções e reparos.

    Tragédia e Oportunismo Político

    18 de Julho de 2007 @ 02:11 por Alceu Nader

    Walter Falceta Jr.

    Começou. Na Band e na Rede TV, âncoras e repórteres já encontraram um culpado para o acidente com o avião da Tam, em São Paulo: é o Governo Federal. Na Rede TV, o jornalista Marcelo Rezende estabeleceu relação direta e causal entre os atrasos nos aeroportos e o acidente:

    - Com esse caos aéreo só poderia dar nisso - sentenciou.

    Na Band, o repórter Fábio Panunzzio, às 22h40, antes de confirmada qualquer morte entre os passageiros, já se mostrava indignado com o presidente da Infraero, com o presidente da Anac, e como presidente Lula. Desprovido da “agenda” do governo para o caso, dissertou, em tom de reprovação:

    - Ninguém deu as caras, nem para se solidarizar com as famílias das vítimas.

    Estranhamente, meia hora antes, a reportagem da Globo já tinha todas as informações sobre as reações e providências do Palácio do Planalto.

    Por volta de 23h00, em inúmeros blogs e comunidades virtuais, o presidente era já responsabilizado pela tragédia.

    - Esse governo Lula é realmente sensacional. Gastaram bilhões de reais para fazer um Pan e não conseguem arrumar uma pista de aeroporto - escreveu um internauta orkutiano, “revelando” a causa do acidente.

    No Estadão On-Line, abaixo da matéria principal sobre o caso, inúmeros comentários seguiam a mesma linha.

    - Os petistas lotearam as estatais e deu nisso - escreveu um anônimo.

    Entre as vinte primeiras mensagens, dezessete tratavam de culpar, de algum modo, o governo federal e o Presidente Lula. Em tom de mórbido triunfo, repetia-se exaustivamente o “relaxa e goza” de Marta Suplicy.

    A julgar pela imprensa de emergência e pela classe interneteira, não se faz necessária qualquer investigação sobre o acidente. Está descartada a hipótese de erro do piloto, de equívoco dos controladores ou de falha técnica na aeronave. Carne humana foi farejada. Muita gente vai se fartar.

    Jornais em xeque: governador do Rio aponta o que eles fingiram não ver

    17 de Julho de 2007 @ 07:34 por Alceu Nader

    Denúncia de Sérgio Cabral repercute de maneira desigual nos jornalões; de novo, omissões e soberba escondem o essencial

    As vaias ao presidente da República, na abertura do Pan-Americano, sexta-feira passada, no Rio de Janeiro, voltam com toda força às primeiras páginas dos jornais de hoje. Aqui e ali, sai da sombra o que o Contrapauta apontou no dia seguinte: a súbita mudança do público quando o os auto-falantes e os telões expunham Cesar Maia (aplausos) ou quando mostrava Lula (vaias). Desde o início, frise-se, o objetivo do blog não foi questionar se as vaias foram justas ou não, mas sim sublinhar a cegueira de ocasião da grande mídia, que se esforçou o quanto pôde para esconder a suspeita de armação no episódio.

    O blog também bateu nos escribas dos jornalões que se esforçaram em legitimar as vaias e omitir a arapuca e reforçar a impressão de que todas as 75 mil pessoas que assistiam à festa olímpica vaiaram com sólida convicção. Um desses serviçais, Alexandre Garcia, ex-porta voz da ditadura, ontem à tarde, na rádio Eldorado de São Paulo (pertencente ao O Estado de S.Paulo) cuspia no microfone da emissora que as vaias haviam sido justas porque “a população já não agüenta mais”. A essas alturas, o que demonstra que não importa a qualidade da informação que a rádio deveria preservar, já corria no noticiário o desagravo do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, da Fierj (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) e a carta aberta do Comitê Olímpico Brasileiro atribuindo à “vossa vontade” (de Lula) a bela cerimônia de abertura dos jogos.

    Hoje, apesar da clareza e provas de que se tratou de armação, a grande mídia ainda tapa os olhos. A reação é previsível. Primeiro, porque ainda não engoliu como Lula sobreviveu ao massacre do mensalão e conseguiu se reeleger. Segundo porque não pode desmoralizar seus escribas de plantão.

    A manipulação de hoje recorre à omissão dos fatos. O exemplo mais visível é o do Jornal Nacional de ontem à noite, que abriu espaço para a tristeza de Lula, confessada em seu programa semanal de rádio, mas “se esqueceu” de noticiar a guerra entre o prefeito e o governador do Rio de Janeiro. Assim, deu-se a vaia como fato consumado. E tome otimismo, sentimentalismo e falso patriotismo com as parcas medalhas conquistadas até agora.

    Nos jornais, o painel muda um pouco – mas mantém o ranço. O Correio Braziliense que jogou as vaias na capa da edição de sábado, hoje não traz nada na primeira página e, no caderno interno, privilegia a guerra entre governador e prefeito e a defesa da Fierj. No quadro que remete para a decepção de Lula difundida no programa de rádio, dois parágrafos para Lula e dois parágrafos para Fernando Henrique Cardoso, que ontem saiu da cripta mais uma vez. Para dizer que, se fosse ele, não teria deixado de abrir os jogos.

    A Folha de S.Paulo toma o mesmo atalho na capa. No caderno interno, traz um painel de opiniões com Fernando Henrique (antes de voltar para a cripta) e José Serra defendendo Cesar Maia, além do próprio Cesar Maia e de Sérgio Cabral. No espaço Opinião, Eliane Cantanhêde se debate para justificar o que não tem explicação e cai no ramerrão de que os que viram as vaias com desconfiança fazem parte da platéia de Lula, que não admite controvérsias e outras bobagens. Acerca de suas conclusões precipitadas do último domingo sobre a “vaia histórica”, da desinformação sobre a claque do contra armada por Cesar Maia e da tenebrosa previsão do Brasil dividido entre a boiada de pobres do Nordeste a esclarecida classe média do Sul-Sudeste, nenhuma palavra. Não surpreende; a soberba faz parte do figurino.

    O Jornal do Brasil escancara. “Cabral: vaia é armadilha contra Lula”, diz sua manchete principal. No caderno interno, mais: “Cabral disse que a vaia ao presidente partiu de um pequeno grupo que estava “muito bem acomodado” à esquerda das tribunas de honra. O governador, no entanto, não citou o nome do prefeito do Rio, Cesar Maia, como articulador da suposta armação contra Lula”. Ponto para o jornal. Não tergiversou, e abriu com o que é notícia: a denúncia de um governador de estado.

    No O Estado de S.Paulo, o noticiário ocupa uma página. Nela, dividem o espaço o programa de rádio de Lula, onde a reportagem cobra que “Lula não explicou, porém, que fez questão de ser o anfitrião da festa”. Em segundo plano, o comunicado do COB, a reação oficial do Planalto e uma esquisita reportagem com “analistas” que oferecem como conclusão que Lula ´”não deveria se preocupar excessivamente com as vaias que recebeu”. Na segunda página, Fernando Henrique de novo, pouco antes de entrar na cripta, uma nota de uma coluna sobre a denúncia de Sérgio Cabral e reportagem com três colunas para a defesa de Cesar Maia. No pé de sua coluna, Dora Kramer estrebucha com argumentação semelhante à de Eliane Cantanhêde.

    No O Globo, por fim, a manchete principal noticia a “guerra entre governistas e oposicionistas, assim como entre o governador Sérgio Cabral e o prefeito Cesar Maia. O texto traz a denúncia de Cabral de que “o presidente foi vítima de uma armadilha” e abre para Cesar Maia acusando o governador “de estar defendendo Lula por interesse na liberação de verbas do PAC e que o Planalto usa ‘claques de aluguel’”. No caderno interno, duas páginas. A primeira abre com a reportagem “Ecos da vaia”, que também remete para o programa de Lula no rádio, traz o confronto entre governador e prefeito, a denúncia do blog de um dos filhos de Lula de que houve armação e o “Recado” do jornal de que a vaia, “se bem entendida tem efeitos benéficos”. Na segunda página, o embate oposição versus situação, repercussão na imprensa internacional e a espantosa coluna de Merval Pereira, com a trepidante informação de que “o episódio das vaias reacendeu nas lideranças dos Democratas, o partido de Cesar Maia, a sensação de que é possível derrotar o governo nas eleições presidenciais de 2010”. No pé da página, já acomodado na cripta, Fernando Henrique deixa sua mensagem: “a gente tem que se habituar a não ser arrogante”.